Personalismo não é teocracia - Carlos Ramalhete
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Personalismo não é teocracia

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella – mais conhecido por ser sobrinho e braço-direito de Edir Macedo, chegando a intitular-se “bispo” da famigerada Igreja Universal do Reino de Deus que por quaisquer qualidades políticas –, foi flagrado prometendo a um grupo de 250 pastores protestantes facilidades por parte da prefeitura municipal. Nada de especial aí; ao contrário, era de se esperar que isso viesse a acontecer. Afinal, quando os militares importaram missionários americanos, visando usar o capitalismo protestante como arma contra a doutrina social da Igreja Católica, esqueceram-se de que por baixo da nova religião permanecia a mesma cultura.

As seitas protestantes multiplicaram-se como cogumelos pelas portinhas de garagem Brasil afora, com seu crescimento facilitado pela ausência de necessidade de formação do clero. Para fazer um padre, a Igreja Católica precisa de cerca de dez anos. São duas faculdades a cursar, além de todo um processo destinado a garantir na medida do possível que o vocacionado permaneça na vocação, casto, honesto e buscando a santidade. Já um pastor protestante precisa ter alguma familiaridade com a Bíblia e um talento – no mais das vezes inato – para a oratória, e está pronto para orar, pregar e cantar. É uma religião da oralidade, e a oralidade não demanda muito em termos de formação.

Os missionários americanos importados pelos militares, assim, puderam formar rapidamente novos pastores, de cujas denominações nasceriam outras, e outras, afastando-se cada vez mais da mentalidade original. Raros são os pastores brasileiros que não apresentam diferenças cruciais em relação àqueles missionários de onde vem seu pedigree. São pastores protestantes, sim, mas antes de o serem são brasileiros. As seitas que formam ao separar-se das denominações de origem, em termos sociológicos, estão muito mais próximas das irmandades católicas tradicionais que das denominações americanas que lhes deram origem. O povo brasileiro não é culturalmente calvinista, e o calvinismo religioso e cultural lhe é sempre estranho.

O êxodo rural, levando às favelas das megalópoles e às capitais do litoral gente nascida e criada em comunidades rurais interioranas profundamente católicas, fez com que nas seitas protestantes os imigrantes encontrassem, na forma familiar da irmandade, um conjunto de amigos e “irmãos” já pronto. Daí a tríplice divisão que assola o protestantismo brasileiro, especialmente o dito “evangélico” ou pentecostal. A maioria consiste em uma massa gigantesca de gente de bem, mas materialmente pobre, que procura e encontra nas denominações protestantes uma forma de irmandade que, não fosse a pobreza de seus membros, seria mais assemelhada às associações maçônicas – às quais também se unem os membros em busca de “irmãos” que os ajudem a subir na vida. De dentro desses sobressaem dois tipos de pastores: os honestos, que percebem na sua atividade religiosa nada mais que isso, e que consideram seu dever cultuar pela oralidade uma divindade percebida de forma culturalmente católica, e os não poucos estelionatários, que percebem nos dízimos e ofertas um meio de subir na vida sem esforço.

A Universal de Edir Macedo, inclusive, é um tanto mal-vista pelas demais denominações pela ênfase na materialidade, pela busca incessante de lucro que faz crer que se trate deste segundo tipo de pastores. Além disso, ao contrário das demais, ela aceita todo o panteão da umbanda e do dito baixo espiritismo, colocando-se contudo como inimiga dele. É de fazer chorar um missionário americano.

Todas as denominações, contudo, por mais próximas que ainda estejam dos originais americanos, são compostas por gente culturalmente católica, exatamente como as paróquias católicas americanas são povoadas por gente culturalmente calvinista. A cultura religiosa de um povo é muito mais difícil de mudar que a doutrina pregada ou a forma de culto. Afinal, trata-se de algo que não se pensa, de algo que raramente se reconhece: é-se culturalmente católico por ser brasileiro. É tão difícil reconhecer os componentes de nossa brasilidade quanto os gases que compõem o ar que se respira. Não são poucos os pastores que, por mais que adiram a uma doutrina conflitante com a nossa cultura, na hora do susto dizem “creio em Deus Padre” ou apelem à Nossa Senhora.

E faz parte da cultura católica – mas não da doutrina protestante – a percepção de um dever de auxiliar mais quem está mais próximo. De ajudar o “irmão” mais que o “primo”. O resultado disso pode ser percebido nu e cru na formação de uma “bancada evangélica” no congresso, nos anúncios classificados que anunciam vagas para “evangélicos” e nas promessas do representante de Edir Macedo na prefeitura carioca.

Na cultura calvinista americana há realmente uma tentativa sempre presente de formar teocracias de todos os tipos, inclusive as ateias e maconheiras da esquerda americana. Afinal, naquela cultura tem-se sempre uma certeza cultural de que seu grupo está certo e o outro é demoníaco e deve ser destruído. Já na nossa cultura católica, damos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E aos “irmãos” (mais que aos “primos” e, evidentemente, muito mais que aos desconhecidos) o que é nosso. A prefeitura – qualquer prefeitura – é percebida como sendo do prefeito. O poder político, no Brasil, é sempre pessoal. Não se poderia esperar outra coisa que não uma distribuição personalista de favores. Vazou uma série de promessas e números de telefone (“para operações de catarata, liguem pra Márcia”) para os tais 250 pastores. São “primos”. Não vazou a distribuição de promessas e números de telefone, certamente mais farta e mais organizada, para os membros da denominação de que o prefeito se quer “bispo”; estes são os “irmãos”. Eles devem ter recebido os telefones em caderninhos, quiçá com códigos e fórmulas para organizar melhor a distribuição de favores com o dinheiro do contribuinte.

O que não se tem, e ninguém quer ter, é uma teocracia. Não faz parte da nossa cultura. O mais próximo que se chegou disse foi o lulismo, que nada mais é que uma forma renovada do getulismo. Um poder pessoal usado em benefício de quem lhe é próximo, com uma doutrina clientelista que só serve para criar mais “irmãos” e “primos” que troquem votos por favores prestados com o dinheiro público.

Mas a imprensa brasileira, de participação reservada por uma lei sem sentido aos “irmãos” de faculdade de comunicação – gente de classe média, que desconhece o universo pentecostal e sabe mais nomes de variedades de cannabis sativa que denominações protestantes –, tem enorme dificuldade em perceber isso. Ela importa da esquerda americana o temor de uma teocracia de direita e entra em pânico quando percebe um prefeito ajudando seus “primos” se o “parentesco” for o pertencimento a denominações protestantes. É só isso.

Não há nada de novo debaixo do sol.

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