Blog Francisco Escorsim

O resto é ruído

Foto: Divulgação/rothkochapel.org
Foto: Divulgação/rothkochapel.org

Ando lendo a obra O Resto é Ruído, do crítico musical Alex Ross, em que conta a história do século 20 por meio música produzida nele. São muitos fatos, eventos e biografias interessantes, mas uma história me chamou demais a atenção.

Suponho que a imensa maioria não faça a menor ideia de quem foram Mark Rohtko e Morton Feldman. Eu pouco sabia, tendo visto uma ou outra imagem de obras do primeiro (era um pintor) e jamais escutando algo do segundo (era um músico). Nunca me interessei porque achava fossem daqueles artistas “abstracionistas” ou “experimentais” demais que me enchem de tédio. Em parte, são mesmo, especialmente Feldman.

Aliás, não há quem não seja especialista, vá a um museu de arte moderna e não saia achando que qualquer criança pintaria aquelas rabiscos, e até melhor. Quem já assistiu a um filme francês que ficou famoso anos atrás, Intocáveis, deve se lembrar das cenas hilárias do cuidador do tetraplégico fazendo uma pintura abstrata. Philipe, o tetraplégico, era um reconhecido entendedor de arte e quando Driss, o cuidador, viu o preço e a qualidade dos quadros que os ricaços adoravam comprar, não teve dúvida: pintou o seu. Era horroroso, mas que diferença havia para as outras pinturas renomadas? Tanto não havia que Philipe ajudou a vendê-lo, elogiando a pintura numa galeria para que o dono comprasse o quadro, e comprou.

Rohtko nunca gostou de ser considerado um expressionista abstrato, e com razão, porque suas pinturas pouco se importam com as formas, se abstratas ou não, mas tão somente com as cores. São quadros grandes, imensos, em que o uso dos tons e o jogo de luz e sombra formam o todo que parece invadir o ambiente fazendo com que o espectador participe da obra. Sua obra-prima, segundo os entendidos, são os 14 quadros negros e roxos, com variações de tom, que compõem o interior da denominada Capela Rohtko, construída pelos milionários do petróleo John e Dominique de Menil, em Houston, Texas, nos EUA.

O casal encomendou a Rohtko as obras, que as pintou tendo em vista a arquitetura do lugar, sem janelas, mas com uma abóboda permitindo a entrada de luz natural. Ou seja, a capela foi construída em função das pinturas que, por sua vez, foram pintadas levando em consideração o projeto arquitetônico. A obra, portanto, consuma a ideia de participação do espectador que tem de entrar literalmente dentro da capela para poder enxergar as pinturas que, por sua vez, são parte do todo. Eis um vídeo curto e interessante mostrando a capela e outras obras de Rohtko que, sugiro, seja visto antes de seguir na leitura:

Quem assistiu ao vídeo percebeu que as pinturas na capela têm apenas a cor escura, com variações de tom, e, tirando os banquinhos que lembram os de igrejas e templos, não há maior referência religiosa ali que permita concluir se tratar de uma capela. Por que, então, chamar de capela? Porque no início ela foi projetada para ser um templo católico romano, com a forma octogonal inspirada na igreja bizantina de Santa Maria Assunta e as pinturas formando trípticos baseados nas pinturas da crucifixão de Cristo. Não era para ser uma galeria de arte, nem mesmo um local destinado às obras de Rohtko, mas um santuário. Continuou sendo isso e é até hoje, mas abandonou a finalidade católica e cristã, tornando-se uma capela para todas as religiões, um centro de espiritualidade e para peregrinos. Rohtko levou seis anos para terminar seu trabalho, que representa a culminação de sua arte e seu crescente interesse pelo transcendente nos últimos anos de vida. Infelizmente, consumido pela depressão, Rohtko se suicidou em fevereiro de 1970, não tendo visto a capela terminada.

Morton Feldman era seu amigo íntimo e, um ano depois, compôs uma de suas obras mais famosas, se não a mais, em homenagem ao amigo. Adivinha o nome? Rohtko Chapel. Mas que forma musical seria adequada para representar aquela espiritualidade sombria (como a chama Alex Ross) da capela? Uma forma fantasmagórica, feita mais de silêncio e vazio do que sons. Dê o “play” no vídeo abaixo e siga a leitura escutando a música:

São mais de 20 minutos disso que parece ser mais uma trilha sonora de um filme de suspense ou terror do que uma homenagem a Rohtko. Mais do que isso, parece representar o que o próprio Feldman certa vez respondeu sobre se suas composições eram um pranto pelo Holocausto: “Existe um aspecto da minha atitude como compositor que é como um pranto. Digamos, por exemplo, pela morte da arte […] algo que tem a ver, digamos, com Schubert me abandonando”. Na mosca. Escutando essa peça e contemplando aquelas pinturas, parece-me impossível não concordar com Feldman. Não parecem formas de representação ou louvor ao transcendente, mas de lamento, de sensação de abandono, de resignação mórbida. Até que chegam os dois minutos finais da música e tudo muda. Confira esse trecho agora se não tem paciência de esperar.

Nesses dois minutos finais há uma mudança surpreendente, surgindo uma “aguçada melodia modal em tom menor, em clima de sinagoga” (por Alex Ross), transcendendo aquela fantasmagoria, aquela morte em forma de abandono e silêncio que ao final retorna, mas parecendo ficar distante, mais como um ruído residual, “abaixo” daquela linda melodia que suavemente nos eleva. É impressionante a transformação na forma da música que essa melodia causa. Mais adiante, Ross escreve que o “objetivo supremo” de Feldman era o “de fazer da música uma força transformadora da vida, uma forma de arte transcendente que, como ele disse uma vez, ‘põe tudo para fora’ e ‘limpa todas as coisas’.”

Em Rohtko Chapel ele conseguiu. Ao menos comigo. Afinal, passei a semana tentando encontrar alguma coisa mais significativa para comentar por aqui sobre esse início de “nova era”, mas tudo que encontrei foi confusão, fantasmagoria, vazio, silêncio constrangedor, muito ruído e uma sensação de que a razão vai nos dando adeus. Mas aí vieram esses dois minutos finais dessa música e, pronto. Ah, esses dois minutos finais… Que Deus seja louvado por eles!

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