Eleição no Mundo da Lua

Como a campanha presidencial no Brasil ainda não começou e não tem hora para começar (possivelmente isso se dará uns 15 dias antes da eleição, quem sabe), trazemos notícias quentes da corrida eleitoral no Mundo da Lua – esta, sim, pegando fogo.

Você não vai acreditar: lá tem candidato a presidente que está preso por provocar o maior eclipse de dinheiro público da história, e os lunáticos (eleitores do Mundo da Lua) discutem normalmente suas chances de voltar ao governo. O pessoal de lá não tem preconceito contra grades.

O principal combustível do presidenciável em situação de xadrez é a concorrência de um candidato caricato de direita (ser “de direita” já é uma caricatura em si, assim como ser “de esquerda” – dicotomia muito eficiente para esconder quem você é, ou quem você nem chega a ser). O tal brucutu caricato, facilmente rotulável como filhote da ditadura, ressuscita o delinquente preso como salvação “de esquerda” contra o autoritarismo.

Não é incrível a novela eleitoral lunar?

Pois bem: com todas aquelas crateras administrativas para resolver, a Lua está há mais de um ano debatendo, ou melhor, se debatendo entre essas caricaturas – que dominam as pesquisas eleitorais feitas sob medida para cultivar a miragem.

Aqui na Terra não tem nada disso. Onde não existe campanha eleitoral, não existe ilusão de ótica.

Continuemos então com a efervescente corrida dos lunáticos. Em sabatinas emocionantes, entrevistadores encurralam os candidatos para saber se seus penteados são de direita ou de esquerda, se eles têm preconceito contra gordos e feias, se o fake é trans ou o trans é fake. Não tem para onde correr. O desassombro dessa gente desafia até tabus históricos, como o segredo milenar sobre se o messias era ou não era um refugiado.

Você pode imaginar que o candidato que passa por uma sabatina dessas sai do estúdio pronto para governar o Império Romano.

A festa eleitoral na Lua tem tipos impagáveis. O mais ousado roteirista de Hollywood não seria capaz de inventar um debate político dominado em boa parte do tempo por um mitômano. É ou não é excitante? Pois no Mundo da Lua isso é real e esse personagem existe em carne, osso e sotaque sertanejo (o sertão lunar é similar ao nosso, e seus salvadores também vivem à beira-mar).

Como todo falsário intelectual, o tal mitômano conta com plateias dóceis para fazer sentido com seus disparates altamente lógicos. Ele explica por exemplo que a Previdência lunar não tem déficit – a única do Sistema Solar que não se desequilibrou com o envelhecimento populacional.

Pode parecer estranho, mas na matemática poética do catedrático de mesa de bar todas as contas fecham.

A vantagem de ser candidato no Mundo da Lua é que não interessa o que você já vez na vida (o que significaria um risco real de dar a conhecer quem você é, de quem se cerca e o que de fato representa). Nada disso. O Mundo da Lua se interessa pelo que você fala – e aí basta ter uma razoável milonga para ir longe, e até disputar sucessivas eleições presidenciais sem ser interditado por plagiar o seu próprio truque.

A fanfarra eleitoral do Mundo da Lua não discrimina ninguém – tanto que esses repentistas surrados convivem numa boa com os novíssimos paraquedistas de Marte.

Os marcianos paraquedistas são personagens fresquinhos que acabaram de chegar, de banho tomado e cabelo molhado, com nojo da política e de tudo aquilo que precede a chegada deles anteontem. Se um milagre da natureza se consumar na sua frente, eles virarão a cara, explicarão que a natureza é velha e a realidade vai ter que comer muito arroz com feijão para estar à altura da sua cartilha.

E tem candidata que não é de Marte, mas também é verde, e sempre ressurge como velha novidade. Maneja conceitos perfeitos para o Mundo da Lua – que venera a eloquência do vácuo – como “democracia de alta intensidade” e outros que farão qualquer governo decolar.

Por trás desses 50 tons de verde (incluindo oliva) estão economistas conceituados – no fundo, as figuras mais exóticas de lá – que mergulham nesses saraus poéticos fantasiados de gurus políticos. Eleição na Lua é como Carnaval – você pode se travestir como quiser e se atracar com quem bem entender, que nas cinzas te perdoam tudo.

Todo mundo se dá bem nessa roda de samba lunar: candidatos fanfarrões ganham aura de seriedade com a etiqueta de economistas solenes, que ganham publicidade pegando carona na fanfarra dos candidatos. E, como se sabe, lavou, tá novo.

O país, ou melhor, o satélite que se dane. Quem mandou confundir palanque com picadeiro? Veja como o eleitor do Mundo da Lua é trouxa: candidatos que pregam a segurança e a ordem insuflaram uma paralisação geral da sociedade, transformando-a em Venezuela por duas semanas – com barricadas, desabastecimento, perda de liberdade, sofrimento, empobrecimento e colapso – e foram saudados como arautos de uma revolução moralizadora!

Só mesmo no Mundo da Lua.

Aqui da Terra, onde um escárnio desses jamais ocorreria, só podemos ser solidários e bradar aos irmãos em órbita: Lua livre!

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