Blog José Carlos Fernandes

A caixa de brinquedos

Arte: Felipe Lima
Arte: Felipe Lima

Acredito que alguns autores salvam a nossa vida. Céticos e leitores do Harold Bloom, não riam. Falo por experiência própria. Num período punk da juventude, teria virado paçoca não fosse a leitura dos livros do psicanalista e educador mineiro Rubem Alves (1933-2014). Variações sobre a vida e a morte e Filosofia da ciência – esse, à revelia do nome intimidador – passaram a ficar ao alcance dos olhos na estante, como um lembrete: “não acenda fogueiras para ninguém”, “não se leve tão a sério”. Nesses trabalhos estão escritas pequenas fábulas sobre vespas, aranhas, sapos, patos selvagens que um dia serviram de emplastro para as dores da alma. A propósito, ainda me mordo pelos dois exemplares sobre “filosofia do corpo” nunca retornados do empréstimo a um amigo. Ah, pecador.

Passada a tormenta, dei a recomendar a obra de Rubem, feito um farmacêutico desobediente, em especial aos aflitos que procuravam a corda para se enforcar. Em meio à tarefa, dei de encontrar outros leitores que também foram mordidos por ele. Viramos confrades. Gosto de lhes contar a ocasião em que finalmente o conheci – numa entrevista, pouco tempo antes de Alves reivindicar o direito de ser velho e se despedir das palestras e quetais: queria vestir chinelas, passear de mãos dadas com sua senhora e comer bolo de fubá em tardes vadias.

Foi nesse encontro que, suponho, o decifrei. Minha tese: Alves tinha sido pastor protestante. Segundo consta, foi expulso de todas as confissões nas quais militou, por protestar demais. Exilado do ministério, passou a sentir saudade de fazer homilias. O púlpito era seu lugar predileto, sua topofilia. Para compensar a “ausência” – palavra de altíssimo teor filosófico em seu vocabulário –, começou a escrever crônicas amorosas, que outra coisa não são que um sermão de domingo, feito para doutos e simples entenderem.

Um dos maiores baratos dos escritos de Alves é o traquejo com que ele discorre sobre obras cabulosas, a exemplo de Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, para citar o livro que mais cultivava. Na tarefa de desossar complexidades, não se dava à afetação, artifício manjado para intimidar os interlocutores. Como chegou a declarar, seu trabalho existia para “despertar fome”. Diante de um sujeito que parecia dançar soltinho com Nietzsche, Merleau-Ponty, Robert Frost… – sem falar toda a turma da música erudita, por força de ser um protestante histórico –, provocava no leitor o desejo de valsar também. Ele nos deixava famintos.

Uma das suas alegorias de que mais gosto é sua leitura criativa para um aspecto da teoria do conhecimento de Santo Agostinho. Para o doutor da Igreja, tudo o que existe se divide em uti – aquilo que é útil; e frui, aquilo que é desfrutável. O uti está na esfera do poder. O frui, na esfera da criação e do amor. Para ilustrar esse conceito bem mais sofisticado do que parece, Alves usava a imagem da caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos. Viver outra atividade não seria senão recorrer ora a uma ou a outra caixa – não raro usando a utilidade em detrimento do afeto, da poesia e das demais “inutilidades”. Bem a propósito, nesses tempos de uti acima de tudo e blablablá, cabe aquele versinho do Paulo Leminski: “Acabou a farra, formigas mascam restos da cigarra”.

Salvo engano, Rubem Alves recorreu ao esquema das duas caixas também para explicar os jogos de linguagem, com base em outro filósofo com quem sapateava bonito, Ludwig Wittgenstein. Nossa fala é instrumental, talhada para dizer e informar. Tem de funcionar como uma faca de cozinha afiada, que rasga um bife; mas também precisa ser significativa – a exemplo de duas velas e uma flor de açúcar em cima do bolo de aniversário. Esses adornos não servem de nada, mas põem para funcionar o motor da alegria, sem a qual não há corpo que respire, que pense, que fale, que dance.

O impasse entre essas duas escolhas – a da serventia e a do desfrute – é milenar. Suspeito que Platão chacoalhava a barra de sua toga branca ao implicar com os artistas, sua especialidade no plano físico e no metafísico. Considerava-os sóis enganadores, sempre prontos a nos iludir com suas imitações da realidade. Foi voto vencido, como se sabe.

Penso na falta que Rubem Alves faz nesse momento em que – boquiabertos – assistimos à insana discussão sobre a Escola sem Partido. De todas as jabuticabas da última estação, é a mais indigesta. Imagino a homilia que prepararia para os que querem transformar o ensino numa pesada caixa de ferramentas, pondo a caixa de brinquedos para mofar no almoxarifado. Tristes trópicos. Suponho que, apesar de ser quem era, Rubem também teria dificuldade em vencer o paredão de ódio, erguido em pedra, imune a ecos. Temo chegar à conclusão de que, nesses tempos em que formigas mascam cigarras, não haveria lugar para um cara feito ele. Torço para estar “redondamente enganado”, como se dizia.

Intelectual renascentista – com fluxo em inúmeros saberes –, Alves tinha fluidez ao tratar dos limites físicos da condição humana. Nossos corpos não têm memória biológica, ao contrário dos animais, em cujo DNA nasce inscrito o que devem fazer para não sucumbir aos predadores. Sobra-nos a linguagem, nossa compensação à falta de um couro duro para suportar uma selva e de garras para enfrentar feras. Exemplo da emergência da linguagem? O clássico: uma maçã é uma fruta. Uma fórmula para Arquimedes e Newton. Mas também o símbolo do pecado original. O mesmo se aplica à serpente.

Daí a bitola larga de quem acredita ser possível reduzir a linguagem ao nível operacional máximo. Sem criação de sentidos, é como se parte da língua fosse amputada. Sem fala não há humanidade. Na angústia diante dessa total falta de juízo, resta achar graça de como seria a narrativa do Holocausto ou da escravidão na perspectiva da Escola sem Partido. Faça um simples exercício doméstico: tente explicar aos filhos quem foram seus antepassados, mas sem qualificá-los. Vira uma conversa seca, como um documento em cartório. Como tratar da avó apenas com o nome, sobrenome e profissão, sem dizer que “ela enfrentou a tirania da aldeia em que vivia”, ou que “criou dez filhos sozinha”? Chama o alienista do Machado de Assis para nos socorrer.

Causa impressão que tanta gente indiferente à escola – a começar pela massa de políticos, seguidos de religiosos e pais que a tratam como um depósito – se sinta no direito de botar os pés na garganta dos professores, sem se dar ao trabalho de considerar a natureza do ofício de ensinar. Pior que isso é a perda de energia com esse debate paranoico, que nasce do profundo declínio do homem público, esse, sim, um problema grave. Na infantocêntrica sociedade brasileira, parece ser grande o número dos que decidiram transformar a escola numa extensão dos seus quintais; e quem ensina, em empregados obedientes, sujeitos à chibata e à mordaça. Hora de lembrar o ditado africano que diz “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.

A Escola sem Partido é uma “missão impossível”. Não há consenso mínimo do que seja “doutrinação”. Para ser sustentada, exige arrebanhar um exército de alcaguetes mirins. Jura que alguém quer isso para seus pequenos? Enquanto a educação é criminalizada, todos os outros impasses de fato importantes ficam em banho-maria. Apesar da universalização da educação básica, o país ainda tem 500 mil crianças fora das redes de ensino. Os conteúdos não são atraentes. É preciso avançar na capacitação de professores para lidar com a concorrência digital. E inclusive lidar com fatos externos que espirram na sala de aula – os 60.018 estupros por ano (dados de 2017), os 63 mil homicídios, os 730 mil presos. Levante a mão quem acha justo 300 alunos, na hora do recreio, gritando “bicha, bicha” para o guri efeminado. Pode um professor que mereça este nome não falar de respeito às diferenças na sala de aula? Dedo-duro nele. Se acha que isso não acontece, é porque faz tempo que não pisa numa escola.

Em tempo. Uma das melhores políticas públicas dos últimos tempos, no Brasil, é o programa Criança Feliz, do governo federal (acesse o soberbo documentário O começo da vida, de Estela Renner, para ilustrar). Está escorado no incentivo a estímulos à primeira infância, de zero a 6 anos. Com sólidas bases científicas e pedagógicas, considera-se que, para se desenvolverem emocional e intelectualmente, os pequenos não precisam apenas de alimento e comida, mas de brincar e conversar. As cicatrizes deixadas na formação cerebral pela ausência de ludicidade podem ser irreversíveis. Caixa de brinquedos.

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