Blog José Carlos Fernandes

Confesso que vivi

Faruk El Khatib, editor da mítica Grafipar
Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

O empresário Faruk El Khatib, 72 anos, tem uma mania. Guarda agendas de bolso. Muitas. São quase três décadas de cadernetinhas empilhadas, recheadas de anotações. Vão das contas a pagar, passando por compromissos com os três filhos e encontros com clientes como Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, para citar um. Mesmo assim, mais de uma vez suspeitou que aqueles guardados só serviam para juntar poeira. Enganou-se. Em 2017, agradeceu de joelhos por ter sido um acumulador digno de reality show. Convidado pela editora Senac, de São Paulo, a escrever sobre sua trajetória, Faruk recorreu às velhas agendas. Serviram para sanar as falhas da memória. E para se curar – a crise econômica tinha lhe atirado à depressão, a uma altura do campeonato que se julgava merecedor de refresco. Lembrar-se dos próprios feitos foi um remédio e tanto. “Confesso que vivi”, brinca, numa alusão ao célebre livro de Pablo Neruda.

O resultado da consulta ao passado acaba de sair do forno. Chama-se De porta em porta a Nova York, título de estreia da coleção “Caminhos, histórias, legados”, um daqueles projetos editoriais sob medida para dar um “xô” no baixo-astral. A proposta é convidar “gente que viveu” a falar de seus sucessos, mas sobretudo dos fracassos, derrapadas e passeios forçados a becos sem saída. “Quis mostrar que é possível levar porrada e se levantar. Conto para os leitores como é que se enfrenta um credor. Faz parte do meu legado. A maioria de nós não tem a trajetória do Jack Welch”, pondera esse líbano-paulista radicado em Curitiba desde piá, em referência ao executivo da General Electric cuja biografia, admite, devorou.

Quem conhece o empresário não resiste ao trocadilho: “A maioria de nós não tem a história de Faruk El Kathib”. Verdade. Foi essa, inclusive, a surpresa das editoras da Senac, assim que leram a primeira sinopse que El Khatib lhes enviou, nas preliminares. Descobriram que no Brasil da década de 1970 havia uma versão tropical de Hugh Hefner – o criador da revista Playboy. E que influenciou uma geração de leitores, em especial os da mão cabeluda e inconformados com a repressão em geral. Sem falar que ele mesmo é um personagem: esse árabe de improváveis olhos azuis circulou nos meios ilustrados sem ser um intelectual típico. “Não sou culto. Sou curioso. Não sei falar de coisa difícil. Mas consegui colocar no mercado o que os geniais faziam”, pontua. É fato. Mostrou-se um mecenas agressivo, chegando a imprimir 1,5 milhão de revistas eróticas, com 50 títulos diferentes, tendo empregado em plena ditadura militar personas como Paulo Leminski, Alice Ruiz, Nelson Padrella e Rogério Dias. E esse é só o começo da prosa.

Sua editora? A familiar Grafipar, dada a publicar enciclopédias – como a belíssima Mundo árabe –, atlas e compêndios de história do Paraná. A empresa foi convertida por Faruk, aos poucos, num espaço onde não havia assunto proibido, como se ali se fizesse justiça ao marquês de Sade e aos libertinos do século 18. Sua sede, numa ponta sossegada do imenso bairro Cajuru, o Solitude, ganhou um apelido politicamente incorreto: “Casa das Bonecas”, não a de Ibsen. Dispensa explicações. O local aberto a boas cabeças de todas as matizes atiçava a imaginação dos curitibanos, inclusive a dos carteiros. O local era visitado toda semana por uma legião deles, encafifados com pacotes que chegavam a somar 1,5 mil cartas de leitores por semana. São ainda hoje pasto à espera de pesquisadores.

A turma da redação mal dava conta de abrir todos os envelopes, mas bem que se coçava. Era desejo do chefe. As perguntas dos missivistas sobre sexo, relacionamentos, fantasias e comportamentos abasteciam uma pesquisa de opinião, cujos resultados determinavam a criação de novas revistas, o que acontecia em escala industrial. Funcionava. Algumas dessas publicações chegaram a ganhar lugar cativo na imprensa nacional, a exemplo da popularíssima Peteca, para adultos, de bolso e tiragem com pico de 100 mil exemplares – o que facilitava a arte do despiste. E havia a revista Rose – que, ao lado do jornal Lampião, foi pioneira na temática “guei”, como se grafava então.

A Grafipar é uma saga. E está cada vez mais na mira de estudiosos – não por seus hoje toscos ensaios de nudez ou pelos admiráveis quadrinhos de Cláudio Seto, mas pelos artigos que publicava. Por ironia, talvez não encontrassem espaço a essa altura do século 21. Tinham supervisão secreta de gente arrojada, que recorria à psicologia e à ciência para combater o obscurantismo. “Em matéria de intimidade, minha geração não sabia nada. Um mentia mais do que o outro”, debocha.

A rede de colaboradores da publicadora incluía as melhores cabeças do Paraná, a exemplo do médico Regines Prochmann e sua mulher, a tradutora Alzeli Basseti; e do então jovem escritor Paulo Venturelli – depois consagrado na literatura de alta-voltagem. Some-se o jornalista Nelson Faria, a quem a cidade ainda deve algumas loas, e o fotógrafo José Augusto Iversen, criador da personagem Carol Blue e que faria carreira posterior na Boca do Lixo paulistana. Esses e outros confirmavam a máxima de Faruk, para quem a Grafipar tinha de ser uma editora erótico-pedagógica, lítero-recreativa e o diabo-a-quatro.

“Hoje vejo a Laura Müller no programa do Serginho Groisman e me surpreendo. A gente já fazia isso em 1976. Eu não tinha ideia do impacto que a editora causava”, reconhece, ao citar seções populares, como a “Sexyterapia”. Sua percepção foi se modificando aos poucos, em especial quando as pessoas que fizeram parte da aventura da Grafipar deram de sair da toca. Muitos escondiam que ciscavam por lá – temendo serem alvos de preconceito. Depois não mais. Que atirasse a primeira pedra quem nunca folheou uma das revistinhas. A propósito, um dos colaboradores literários da casa era o novelista Aguinaldo Silva. Suspeita-se que o personagem Teobaldo Faruk, vivido por José Mayer no folhetim A indomada, seja uma homenagem de Silva a quem o editou nos tempos de anonimato.

Faruk foi aos céus, mas também penou com a proposta editorial que deixava censores com as garras afiadas. “Naquele tempo, São Paulo andava a 120 quilômetros por hora, eu a 80, a Grafipar a 40 e Curitiba a 20”, calcula Faruk, ao falar da ansiedade que o vitimava. Bem pensou em mudar de cidade – em especial depois de comprar os direitos de publicar a Penthouse no país, seu pulo do gato, do qual saiu machucado. “Se tivesse ido embora, hoje eu teria menos problemas financeiros”, calcula. A decisão de ficar foi uma de suas muitas aterrissagens forçadas, como conta no livro, cujo maior virtude é desviar do autoelogio e da mitomania. Faruk se mostra nu como tantas mulheres e homens que apareceram nas revistas que publicou, o que serve de provocação para os que, no afã de sempre acertar, não têm nada de interessante anotado nas agendas.

Os mares bravios enfrentados pelo empresário foram compensados por uma promissora parceria com o quadrinista Maurício de Sousa, o da Turma da Mônica; e com a entourage do craque Pelé, com folga dois capítulos apetitosos de De porta em porta a Nova York. São assuntos dos quais fala com paixão, mas nada que supere a festa pagã da Grafipar. É por si só o roteiro de um filme, que começa com Faruk às voltas com donos de banquinha de jornal. É na conversa fiada que descobre as práticas de leitura da freguesia – em especial a devotada aos catecismos do cartunista Zéfiro. Nascia ali o editor, que prefere ser chamado por outro nome. “Eu sou um mascate”, define-se Faruk, colocando-se como continuador do muçulmano libanês Said Mohamad El Khatib, seu pai, cuja trajetória cita sempre que pode.

Said chegou ao Brasil com 13 anos, sozinho, e aos 20 estava estabelecido. Rodou muito até chegar à fria Curitiba, onde deu corpo a seu sonho de publicar e vender livros. E assim o fez. A comunidade árabe ressentiu quando o negócio da família enveredou pelos caminhos pouco ortodoxos traçados pelo filho Faruk – mas ele seguiu adiante, num misto de intuição e doideira. Bingo. Chegou a ter 500 funcionários e ocupou seu lugar num capítulo luminoso da imprensa brasileira – a do país que se informava nas bancas de revista e de jornal, espaço libertário, para além das escolas e das igrejas, cujos cânones não têm como dar conta de tudo. O período fez um bem danado ao pensamento, à estética, à democracia e, para citar uma palavra do paladar de hoje em dia, à inovação. Quem discordar, que perca tempo e saliva para provar o contrário.

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