Blog José Carlos Fernandes

O haitiano e as jovens poetas

Foto: Marcelo Elias / Arte: Felipe Lima
Foto: Marcelo Elias / Arte: Felipe Lima

O poeta haitiano Reginald Elysee, o Rei Seely, 29 anos, se tornou a novidade da cena literária paranaense. Ao contrário da maioria de seus 1,5 mil compatriotas residentes em Curitiba, tem pouco de que se queixar. Costuma dizer que deve seus êxitos à cultura. Desde que se viu revelado pelo professor universitário João Arthur Pugsley Grahl – um dos criadores do programa de ensino de Português para refugiados da UFPR –, desconhece o anonimato. Foi homenageado na tradicional Feira do Livro do Sesc em 2017, dividiu mesa com o endiabrado escritor Fernando Bonassi no Litercultura de 2016 e lançou um livro. Perdeu a conta das palestras e entrevistas que deu. Em todas as ocasiões, ao tomar a palavra, apresenta-se como o “refugiado feijoada”, rótulo tão divertido quanto ácido.

No plano pessoal, segue o baile. Mudou-se da Vila das Torres – onde era uma celebridade – para o Capão da Imbuia. As contas do fim do mês já não lhe mordem os calcanhares com tamanha força, como costuma acontecer aos demais estrangeiros agraciados pela ajuda humanitária. Depois de exercer uma pequena função na Secretaria Municipal Extraordinária de Direitos Humanos, criada na administração Gustavo Fruet, formou-se em Gestão Pública pela UTFPR e hoje ganha seus caraminguás numa ONG internacional – que recorreu aos conhecimentos de Rei em língua e literatura francesa para atender jovens das mais diversas esferas sociais.

Nem da falta de leitores – essa danação – pode reclamar. Há meio ano, uma professora da Instituto Federal do Paraná (IFPR) leu em sala de aula um poema de Rei Seely. Foi o bastante para que recebesse uma mensagem pelas redes sociais, vinda de uma aluna, a adolescente Geovana Eduarda Gondro, 17 anos. Encantada com o que ouviu, queria à força conhecê-lo. A conversa correu como um rio. O poeta se aproximou não só de Geovana como de suas amigas – um grupo ruidoso, que cita de cabeça versos de Carlos Drummond de Andrade com a mesma agilidade com que comenta alguma pseudorrevolução da internet. No frigir dos ovos, preferem mesmo é falar do último sarau do “Poesiando”, projeto de extensão da IFPR que as estimula a declamar onde quer que estejam, no corredor ou nas janelas do instituto.

“A-do-ro Mário Quintana”, suspira uma delas, ao explicar como o encontro de Rei e Geovana virou uma rede de jovens poetas, pronta para publicar uma coletânea de versos. O livro em gestação foi batizado com o provocativo nome de Cobra, tem diagramação à moda poesia concreta e está pegando fogo, em dias de ir para o prelo. Tudo muito rápido, bem a gosto. Como aconteceu? A estudante Ana Karoline Martins, 16 anos, a “Ana K.”, promoveu um concurso literário no IFPR. Por seus serviços prestados, ganhou passaporte para entrar no cobiçado grupo de Whats de Rei e Geovana. O mesmo valeu para a italiana, filha de brasileiros, Eleonora Avello, 17 anos, pelo motivo que não cansa de repetir: “Respiro poesia. Faz parte de mim”. Seu poema símbolo? “Motivo”, de Cecília Meireles. A panela ganhou uma tampa com a chegada da doutoranda Júlia Raiz, do blog Totem & Tabu, entre outros serviços prestados às questões de gênero. “Ela é feminista”, reforça Rei, sobre a parceira que o ajuda na edição e na logística do projeto “Mais leitores, menos preconceito”, guarda-chuva desse conversê todo.

Impressiona saber como nasceu a primeira seleta de poesias do coletivo. Em vez de trocar mensagens banais, emojis e piadinhas infames, Geovana, Ana, Eleonora e Rei inventaram de compartilhar versos pelo celular. Brotou a fruição estética. De comum acordo, as gurias elegeram o haitiano tutor do grupo, com aval para dar os pitacos que quisesse nos versos que faziam “plim” no celular. Não amarelou. “Você está falando muito de si. Olhe o que acontece ao seu redor”, teclou a uma delas, dias atrás. Para Ana K, o alerta: “Está filosófico demais…”

“A gente gostou da sinceridade dele, mesmo quando não entendemos o que quer dizer”, brinca o trio, em referência ao forte sotaque do haitiano, cuja marca é acentuar à moda francesa as palavras do português. Para Geovana, a pioneira, Rei as ganhou por falar de igual para igual, “descontraído, sem hierarquia”. Seely bate asas quando o assunto é seu discipulato: “A poesia delas tem imagens. Escrevem com emoção. Nada vem sem tempero”. Tudo indica que a sociedade de poetas vai bem, obrigado.

Rei é uma figura. Quando chegou, em 2013, destoava dos seus. Em comum com os demais, destilava críticas à fragilidade do programa humanitário que trouxe ao Brasil levas de vítimas do terremoto de 2010. Contra todos, incomodava-lhe a idealização do Haiti por parte dos imigrantes, uma defesa que só servia para maquiar o abandono que vitimiza a ilha caribenha. “Não tem prédio com elevador no meu país. O senhor consegue imaginar um lugar em que não há elevadores?”, perguntava, com pose de enfezado e cara de poucos amigos. O rei de 2018 está paz & amor. Amaciado pela poesia e pela hospitalidade, ostenta um anel com coração no dedo, brincos na orelha e o inseparável chapéu coco. As camisetas rosa choque completam o visual. Fala rápido, é arguto, e costuma surpreender seus interlocutores, a exemplo de quando se pega a dissecar um autor. “Sim, estou falando de Albert Camus, de O estrangeiro…”.

Não causa espanto que este escritor vindo de uma distância de 5,5 mil quilômetros – e de uma tragédia – tenha caído nas graças das jovens poetas do IFPR. O singular Rei pode ser visto na rua a qualquer momento, cidadão do Centro, a bordo de sua inseparável bicicleta. Qual o motorista de ônibus do admirável filme Paterson, de Jim Jarmusch, é a bordo das duas rodas que compõe a maior parte dos seus versos. Basta parar numa esquina, sacar a caneta e bloquinho. Para as estudantes, Rei aciona o imaginário romântico da literatura e personifica tudo o que entendem por inspiração e transpiração. No mais, não basta ter talento, é preciso carregar uma história na bagagem. Seely é um livro inteiro.

Em tempo – aproveito a deixa para perguntar às três se conhecem o trabalho de Emily Dickinson, a poeta norte-americana que morreu praticamente inédita, em 1886, recém-retratada em Além das palavras, de Terence Davies. “Deve ter no Netflix”, apressam-se em registrar, antes de voltar ao assunto que mais lhes atazana as ideias no momento – a viabilidade de ver Cobra ser publicado, marcando a estreia em livro de Eleonora, Ana K. e Geovana. Corações disparados. Rei sonha ganhar o prêmio Oceanos – cuja renda lhe garantiria uma sobra para editar a coletânea das adolescentes. Elas calculam que a IFPR possa ajudá-las, quem sabe uma ONG. E que, de qualquer modo, os versos que produzem possam se reverter em dinheiro para ajudar os refugiados. No mais, são som e fúria juvenil: “Meu Deus, eu preciso recitar um poema”, repetem alto e bom som, no grupo, ao partir, imagino que doidas por um refrigerante.

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