Abel, Sampaoli, os crimes em Brumadinho e contra o nosso futebol

Tragédia em Brumadinho.
Tragédia em Brumadinho.

O Brasil segue nos envergonhando, nos chocando com absurdos como o de Brumadinho. Muitos tratam como acidente, tragédia, mas não é bem assim. Dois crimes ambientais e contra seres humanos protagonizados pela mesma empresa em tão pouco tempo é algo inadmissível, como disse o jornalista especializado na área André Trigueiro – clique aqui para ouvir.

Portanto, fatos como esses, que se repetem, repercutem internacionalmente, chocam o planeta e são consequências de nossos graves problemas. Em parte pela omissão do próprio brasileiro. Ele que, mesmo depois do que houve em Mariana, não questiona a postura de políticos que discursam a favor de flexibilizações em setores onde atuam empresas como a protagonista desses dois crimes horrendos. Pelo contrário, os elege.

Sim, episódios como os de Mariana e agora Brumadinho são reflexo de nossa frouxidão ante tamanha irresponsabilidade e ganância. Como na morte de 242 jovens na Boate Kiss, há seis anos, não esqueçamos. Quais as consequências? Quem foi punido? Quantas casas noturnas seguem em operação de norte a sul em condições inadequadas, à espera de uma nova calamidade?

Esse tipo de absurdo ocorre ante nossa tolerância. Guardadas as devidas proporções, que fique bem claro, por favor; como fazem contra o futebol praticado no Brasil. Os 7 a 1 de 2014 não deixaram legado positivo. O técnico que arquitetou o time da vergonha foi (merecidamente) exaltado ao ganhar o campeonato brasileiro de 2018. Normal, não fossem os passadores de pano que (descaradamente) tentaram minimizar o desastre de quatro anos antes em meio às celebrações pelo título. Como se o massacre alemão tivesse sido mero acaso.

Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Não são muitos os que discutem, questionam, se rebelam contra o estilo de jogo envelhecido que impera no país e que só dá certo aqui dentro. O brasileiro em geral se mostra incapaz de encarar problemas que se apresentam ante seus olhos e combater os responsáveis. Venceu (ora, alguém tem que vencer em meio à pasmaceira), então ótimo! Nas derrotas, na maioria das vezes prefere-se lamentar, como se tudo de ruim que nos atinge fosse mera tragédia, azar, infortúnio. Como se as ações humanas não fossem causadoras de tantas coisas negativas.

A mudança no país passa bem além do raso Fla-Flu político esquerda x direita. Ela deveria brotar na indignação que nos falta. Seja quando a lama mata e os advogados entram em cena. Seja quando a bola é maltratadas e jornalistas, boleiros, entre outros, se prestam ao vergonhoso papel de minimizar o que de ruim se apresenta em campo. Gravidade muito diferente, óbvio, mas reflexo da mesma postura de tantos, algo que contribui para que tudo continue como está. Enquanto for assim, seguiremos tomando de 7 a 1, em diferentes campos.

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Brumadinho fica a 62.600 metros de Belo Horizonte, uma hora de carro, menos até, como destacou o amigo jornalista Lédio Carmona. Apesar de tudo, Atlético e Cruzeiro se enfrentaram no Mineirão na manhã de domingo. Falta de sensibilidade é pouco para os dirigentes brasileiros. Enquanto isso, pelo país, já soam os primeiros gritos de carnaval. Como o brasileiro é festivo, não?

Foto: Flickr Atlético-MG

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Palmeiras, campeão brasileiro, e Flamengo, vice, são, disparadamente, os times mais caros do futebol brasileiro. Seus treinadores dispõem de excelentes estruturas de trabalho em modernos centros de treinamento e elencos fartos. Mas todos esses ingredientes vão muito além do que precisam para elaborar o de sempre, um futebol antiquado e pautado pelas mesmas ideias há décadas.

Luiz Felipe Scolari conduziu os palmeirenses ao título nacional utilizando as mesmas estratégias repelidas na Europa, que não mais o quer faz tempo. Defesa forte, chutões utilizados sem parcimônia, um atacante talentoso na frente e vitórias, quase sempre magras, muitas vezes sofridas, mas que valem três pontos. E daí que o material humano à disposição seja capaz de ofertar mais, com a mesma pontuação podendo ser obtida de forma mais contundente, agressiva, ofensiva, com gols e futebol melhor?

TABELA: veja como está a classificação do Campeonato Paulista

Felipão não faz isso por uma razão muito simples: não sabe. Seu repertório é aquele, o de sempre. Seu time opera como um restaurante comandado por um “chef” que há décadas prepara os mesmos pratos. Não atrai novos clientes, não ganhará prêmios, não agregará inovações, mas matará a fome de quem frequenta o lugar, e o dinheiro arrecadado pagará as contas. Isso basta, se você não se imagina capaz de ir além, não tem tais ambições.

Da mesma maneira, Abel Braga, que não deslanchou como treinador na Europa, mostra em seus primeiros jogos à frente do Flamengo que o time é, e será, mais do mesmo. Com elenco de estrelas e folha de pagamento mais de três vezes superior à do Botafogo, sábado venceu por 2 a 1 na individualidade de Bruno Henrique. E terminou a partida com um trio de volantes à frente da defesa para garantir o placar. E daí que os jogadores ao seu dispor poderiam lhe dar mais, como, após virar o jogo, seguir agredindo para ampliar a vantagem?

Essa mentalidade impera no futebol aqui jogado faz tempo. Atingiu seu ápice com o São Paulo de Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro há uma década com um jogo apoiado em defesa sólida, bola parada, retrancas fora de casa e vitórias obtidas com obtuso pragmatismo. Funcionou naqueles tempos e ainda dá certo por aqui, porque estamos parados no tempo.

Um ano depois do tri tricolor, Pep Guardiola conquistou a Liga dos Campeões com seu incrível Barcelona. Depois disso montou mais dois times vencedores, Bayern Munique e Manchester City. Cada um com seu estilo, agregando novas armas, abandonando algumas ideias que ficaram para trás. A constante transformação contrasta com a estagnação do que se vê no Brasil. Ah, nesse período aí o Barça de Guardiola também massacrou, protocolarmente, o Santos de Muricy no torneio mundial da Fifa.

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Apesar dos problemas internos que já foram expostos em queixas públicas de Jorge Sampaoli, o treinador não precisou de muito tempo para mostrar a diferença de seu trabalho para o que prevalece em quase todos os times do Brasil. Os 2 a 0 sobre o caro e badalado São Paulo, com ampla imposição, escancararam ainda mais nossa pobreza tática. E o argentino tem um elenco que está longe de ser o melhor do país.

 

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