Nas tragédias do futebol, conhecemos as vítimas, mas não é simples achar os reais responsáveis 

Mais cara contratação de toda a história do Cardiff City, o atacante Emiliano Sala embarcou dia 21 de janeiro em Nantes, rumo ao País de Gales, onde seria recebido com festa e esperança. Os torcedores apostavam em seus gols para evitar a queda do time que disputa a Premier League para a segunda divisão inglesa. O argentino não chegou ao destino.  

Adolescentes das divisões de base do Flamengo dormiam no Centro de Treinamentos do clube, quando um incêndio devorou o alojamento, matando dez meninos de 14, 15 anos. Eles alimentavam a esperança de serem atletas profissionais, melhorando suas vidas e as de seus familiares por intermédio da bola, como acontece com milhões de garotos pelo país.  

– Tragédia no Flamengo: perguntas e respostas sobre o incêndio no Ninho do Urubu

– Veja quem são os mortos no incêndio no Flamengo

Sala ficou desaparecido até que o avião no qual viajava foi localizado no fundo do mar. Ainda não se sabe exatamente quem é o responsável por ele ter entrado em uma aeronave que o motivou a enviar mensagem de áudio a amigos, momentos antes, resumindo sua situação: “Estou aqui em cima em um avião que está caindo aos pedaços. (…) Se em uma hora e meia não tiverem notícias minhas, não sei se vão mandar alguém me buscar porque não vão encontrar, mas… já sabem. Que medo que tenho!  

A responsabilidade do Flamengo com os meninos mortos em seu CT é óbvia. Na prática, pais e responsáveis delegaram ao clube a guarda parcial dos filhos ao permitirem que vivessem no local onde treinavam. Mas a questão é bem mais complexa, pois envolve documentação incompleta, situação irregular do local, suspeitas de queda de energia como causadora do incêndio, etc. Jogo de empurra?

 

LOIC VENANCE / AFP

Sala custaria € 17 milhões (R$ 71,3 milhões) ao Cardiff. Nos últimos dias circulou a informação segundo a qual o Nantes estaria pedindo o dinheiro, embora o atacante não tenha chegado ao seu destino. Mórbido. E quem se responsabilizará pelo fato de o jogador ter sido colocado dentro de avião que, segundo seu último relato, não era nada confiável? Algo que, tragicamente, se confirmou na prática.  

Os meninos do Flamengo participariam de um teste de VAR (sigla em inglês para Video Assistant Referee, ou Árbitro Assistente de Vídeo) no Maracanã, antes das semifinais da Taça Guanabara, adiadas para quarta-feira e quinta-feira próximas. Não estariam todos ali, caso a agenda fosse outra. Não estariam mais naquele local, caso o CT do Flamengo estivesse 100% pronto quando o inauguraram, em novembro.  

Trágicas situações que chocaram o mundo envolvendo jogadores de futebol. Mortos em situações nas quais ninguém poderá dizer que as vítimas foram irresponsáveis, inconsequentes, que se arriscaram pura e simplesmente. São pura e simplesmente vítimas de incompetência, descuido, irresponsabilidade. Sala foi conduzido ao avião da morte. Os Garotos do Ninho (do Urubu) carbonizados num imbróglio que envolve curto-circuito, queixas de queda de energia, documentação irregular, fiscalização questionável…  

Sabemos detalhadamente quem são as vítimas. Do maduro goleador argentino, que imaginava embarcar para a maior liga do mundo com a expectativa de viver seu maior momento no futebol, aos meninos que alimentavam o sonho de chegar ao futebol profissional. Suas mortes eram evitáveis, isso significa que alguém falhou em algum momento no caminho que os levou a perderem suas vidas. Quem? Não. Isso não é uma brincadeira de “não-está-mais-comigo”, senhores.  

***  

A eliminação do São Paulo logo na primeira fase da Copa Libertadores é o cenário mais provável para quarta-feira, no Morumbi. Depois de perder por 2 a 0, placar com o qual o Talleres sequer sonhava, semana passada, em Córdoba, o time paulista se vê forçado a devolver o resultado e levar a definição para os pênaltis, ou derrotar o time argentino por diferença de três gols. 

 Confira a tabela da Libertadores 2019

Possibilidades remotas ante o fraco futebol tricolor, característico de um clube grande comandado por uma diretoria confusa, em meio a um jejum de conquistas (apenas a Copa Sul-americana 2012 em quase 11 anos). Tensão, cobrança, impaciência da torcida, escolhas erradas em contratações de atletas e treinadores. E talvez pelo ingênuo raciocínio de quem imagina todo aquele que foi craque em campo sendo tão bom quanto fora dele.  

Raí, um dos maiores ídolos são-paulinos, é o dirigente que comanda o futebol do clube desde o ano passado. Além das discutíveis contratações feitas, como os veteranos Diego Souza (R$ 10 milhões) e Nenê, efetivou, nitidamente de maneira precipitada, o jovem André Jardine como treinador do elenco profissional. Da mesma forma que o bom de bola de antes nem sempre vira um cartola eficiente, o técnico que vai bem na base não oferece a certeza de que será o que se espera à frente dos adultos.

O que parece certo? A primeira decepção de 2019 no campo de futebol ter as cores do São Paulo, salvo a melhor atuação do time em anos, talvez.

LEIA MAIS:

>> Em 100 anos tudo mudou no jornalismo e na bola. Tudo!

>> “Messi chega a 400 gols só no Campeonato Espanhol. Pelé faria melhor?

8 recomendacões para você

 
 
asd