A força da mulher: conheça a história de superação de Fátima Sperandio
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  • Por Sperandio
  • 04/03/2021 15:37

Quem nunca sentiu o alívio de encontrar alguém com quem falar sobre seus sofrimentos, mesmo que isso não solucionasse seu problema? Alguns escrevem em diários o que não têm coragem de pronunciar. É uma maneira de tornar a vivência mais suportável e os episódios difíceis mais admissíveis. Foi com o intuito de mudar internamente a visão das situações pelas quais passou que Fátima Sperandio começou em seu Instagram um projeto.
Nele, compartilha com o público sua história e encoraja os interlocutores a também trazerem suas histórias de superação.

Entre os relatos, o de mulheres que desencadeiam uma força sobre-humana para proteger seus filhos em situação de perigo. A história de Fatima foi uma dessas. Quando se viu de mãos atadas, foi o amor por seus filhos que lhe deu forças para buscar a superação.

Tudo começou por volta da década de 1990, quando ela decidiu se mudar para uma casa. Curitibana, Fátima morava em um belo apartamento.
Sempre agitada e querendo mudanças, imaginou que acomodaria e preencheria sua insatisfação pessoal indo morar em uma casa no meio de um bosque. Mas algo estranho aconteceu já nesse momento. Uma forte intuição dizia que essa mudança não seria o que esperava. “As pessoas precisam aprender a ler suas intuições, elas ajudam muito. Se eu tivesse levado isso em conta, as coisas teriam sido diferentes”, conta Fátima.

Na época, seus filhos Victória e Dudu, com então um ano e meio e cinco, respectivamente, iniciaram a nova jornada com a mãe e o pai.
Foram para a nova casa, mas ao entrar em um ambiente específico, uma nova sensação ruim. Fátima deixou o pressentimento de lado e seguiu com a convicção de que aquele seria um bom momento nas suas vidas.

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Após um tempo na nova casa, Fátima percebeu a necessidade de contratar um caseiro para auxiliar nos afazeres domésticos. Foi até uma agência de empregos na cidade e encontrou um casal para entrevistar. Ao conversar com os dois, os acolheu. Depois de um tempo, na tentativa de saber mais sobre essas pessoas, ligou para o telefone indicado pelos dois como recomendação e ali sentiu uma terceira intuição. Soube que o casal era da cidade de Santos e que quando o rapaz trabalhava como guardião, havia atirado em outra pessoa. Nesse momento, porém, Fátima já tinha dado teto para as duas pessoas em sua casa e não sabia bem como agir. Acabou deixando a informação de lado.
O casal permaneceu com eles.

Mas observar como a família se portava os inflou de ganância.
Certo dia, ao entrar em sua casa, Fátima novamente teve a estranha sensação que a acompanhara desde os planos de mudança. Seria essa uma quarta intuição? Naquela noite, o pai das crianças não estava presente, pois tinha ido tratar de negócios em São Paulo. Fátima acabou sendo recebida com uma pancada na cabeça. Desnorteada, achou estar sendo atacada por um ladrão, mas logo concluiu que se tratava do casal que havia contratado. “Não grite, ele é louco”, dizia a mulher.

Preocupada com as crianças, Fátima tentou uma conversa que levasse à compreensão de que ela daria tudo que quisessem, mas que privassem filhos de assistir a cena que iria os aterrorizar. Contudo, havia ódio em meio à loucura daqueles dois. “Você é rica, tem que morrer”, foi repetido aos berros.
Fátima levou 12 facadas, foi amordaçada e teve mãos e pernas amarradas.

Fátima estava jogada e sem ter o que fazer. Tampouco sabia o que iria acontecer com seus filhos. Mas se seus pressentimentos outrora lhe assustaram, agora traziam calma. Não sabe dizer como, mas teve a sensação de que nada aconteceria com as crianças. Sabia que precisava se manter calma para sair dali com vida. E assim, encontrou uma solução: ficou movimentando o pano na boca até conseguir deslocá-lo para respirar. Ao mesmo tempo, foi tentando lentamente desamarrar as mãos, o que a distraía do que podia estar acontecendo. Apesar de o sangue estar escorrendo por seu corpo, em nenhum momento pensou em morte e que iria morrer. “Senti como se o meu pai, Ernesto, que havia falecido há seis anos, me dissesse que tudo ia ficar bem”, relata.

Com tudo o que Fátima estava passando, teve a percepção de que se fingir de morta, ao ver o homem se aproximar novamente, seria a melhor alternativa. E foi o que fez. O assaltante, que a todo o momento buscava por joias, gritou para sua esposa sobre a morte da dona da casa. O casal fugiu rapidamente. Aos vê-los partir, Fátima já estava quase sem forças.

Foi seu filho Dudu quem telefonou pedindo socorro e chamou a babá que estava em um quarto no ático da casa.  A mãe, desfalecida, foi levada às pressas ao hospital, onde chegou em estado grave.

Superação

Ao chegar ao hospital, o sentimento não foi dos melhores. Ao avistar a paciente, o plantonista logo disse: “só o que me faltava agora, umazinha dessas de bar esfaqueada a essa hora da noite”.

Porém, um dos médicos responsáveis pelo hospital, mais sensível, percebeu a gravidade da situação. Fátima foi atendida com urgência pela equipe do hospital. Mas os problemas se intensificavam. Na mesa de cirurgia, ela não poderia receber transfusão de sangue, pois seu nível sanguíneo estava muito baixo. O médico disse, vamos tentar e realizou o procedimento. Foram muitos dias na UTI e um prognóstico de que suas chances eram poucas.
Os ferimentos foram gravíssimos, a tal ponto de Fátima quase ter que amputar uma perna.

Por esse motivo, mal pode receber visitas durante sua permanência no hospital. Lá fora, eram centenas de pessoas que em pânico iam para o hospital todos os dias para notícias. Fátima diz ter sentido muito medo durante o traumático caso. “Mas mesmo com medo, pensava sempre em como poderia sair da situação, me manter calma e, principalmente, atenta”, diz.

Ela conta que desde criança lia muitos livros, sendo os preferidos justamente os de histórias de superação. “Por sempre ter lido essas histórias, gostava muito dos resultados. Nos momentos em que mais precisei me superar, tive o repertório na minha consciência. Isso com certeza ajudou nas minhas ações”. 
Ela ainda credita à disciplina, à determinação e à força, exemplos de seu pai, o que a fez sair de episódios tão difíceis. “Ele sempre me passou segurança”, afirma.

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Para lidar com a situação pós-trauma, Fátima acredita ser necessário estar disposto a passar por uma mudança. E isso inclui busca por autoconhecimento, terapias que direcionem a pessoa e, principalmente, a manutenção do orgulho próprio. “Não é uma situação traumática que define quem você é.” Ainda que tenha carregado consigo as más lembranças por um tempo, Fátima diz ter percebido que aquilo não fazia parte de quem ela era. E foi assim que voltou a ser quem sempre foi: uma mulher forte e alegre. Independente, ativa e livre.

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