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Liudmila tinha apenas 10 anos quando deixou a Ucrânia e veio para o Brasil para fazer o tratamento de saúde em Curitiba
Liudmila tinha apenas 10 anos quando deixou a Ucrânia e veio para o Brasil para fazer o tratamento de saúde em Curitiba| Foto: Marta Sidyr/Arquivo Pessoal

A série de TV Chernobyl reacendeu o interesse do mundo sobre um dos maiores desastres nucleares da história, que aconteceu em abril de 1986. No entanto, para alguns curitibanos, o programa produzido pelo canal HBO não é apenas um misto de documentário e ficção, mas parte de suas próprias histórias. Há exatos 20 anos, Curitiba recebeu crianças que foram afetadas pela explosão da usina na antiga União Soviética — e foram essas famílias que vivem aqui que acolheram os filhos de Chernobyl.

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Entre os anos de 1999 e 2001, 15 crianças vieram da Ucrânia para se tratar de doenças causadas pela radiação. A parceria fazia parte de um programa dos governos do Brasil e da Ucrânia, que também enviou pacientes para Cuba, Espanha e Grécia. Curitiba foi escolhida como a única cidade brasileira justamente por causa de sua grande de descendentes de ucranianos.

Por aqui, as crianças foram atendidas no Hospital Evangélico. Com idades entre 7 e 12 anos, elas nasceram após a explosão da usina, mas a exposição de seus pais à radiação fez com que elas tivessem sérios problemas congênitos de saúde, sendo a leucemia o mais comum deles.

Era o caso de Dmitriy e Maxin, que chegaram a Curitiba na segunda fase do programa. “A ideia era eles virem para cá como uma mudança de ares, para poder ter uma melhora no tratamento”, explica o advogado António Komarcheuski Sobrinho, de 59 anos, que abrigou os dois garotos em sua casa. Com 7 e 12 anos, respectivamente, os meninos alternavam a estadia entre o novo lar e o hospital.

O aadvogado Antonio Komarcheuski Sobrinho e a esposa Rosangela hospedaram  Dmitriy e Maxin, crianças vítimas do vazamento radioativo de Chernobyl em 1986.
O aadvogado Antonio Komarcheuski Sobrinho e a esposa Rosangela hospedaram Dmitriy e Maxin, crianças vítimas do vazamento radioativo de Chernobyl em 1986.| Albari Rosa / Gazeta do Povo

Foi por causa desses cuidados que ele diz ter receado muito antes de aceitar receber os filhos de Chernobyl. “Toda a comunidade tinha medo de ficar com as crianças. Não por causa da radiação, mas pelos problemas de saúde. A gente não sabia o que podia acontecer. Quando aceitei, foi na base do ‘Seja o que Deus quiser’”, confessa o advogado. Segundo ele, o maior medo era criar laços com os meninos sabendo que o futuro deles era incerto.

Komarcheuski relembra que, nos dois meses que os garotos ficaram em sua casa, ele dedicou todo o seu tempo para cuidar deles. “Foi um período sabático que eu tirei para ficar com eles, até porque tínhamos que ir direto para o hospital”, diz. “Eles tinham a imunidade muito baixa e tinham que fazer exames com frequência. O Maxin não tinha cor, era cinza, e o Dmitriy ainda tinha várias cicatrizes pelo corpo por causa dos tratamentos”.

Assim, decidiu quebrar as próprias regras. Embora fosse exigente com seus filhos, amoleceu com os garotos ucranianos. Mesmo com os médicos os proibindo de tomar sorvete, Komarcheuski disse que fazia vista grossa quando eles pediam. “Criança é criança, não importa a situação. Eles viam e queriam”, diz. “Eu deixava e fazia uma oração. Era o nosso segredo”.

E apesar de ser de família ucraniana, o advogado conta que o idioma foi a principal barreira. Isso porque os meninos cresceram em uma Ucrânia já sob a influência da Rússia e, por isso, falavam mais o russo do que a língua ucraniana que Komarcheuski aprendeu com seus pais. A mímica se tornou o canal de comunicação entre eles.

Além disso, a comida era outro problema, já que os meninos não estavam acostumados ao arroz e feijão e os medicamentos os deixavam enjoados com frequência. “Uma vez, fomos ao mercado e pedimos para que eles pegassem coisas que eles comiam lá. Naquele dia, comemos beterraba com peixe”, lembra aos risos.

Depois de 20 anos de toda essa experiência, o advogado avalia a experiência como enriquecedora — mas, ao mesmo tempo, difícil. Segundo ele, o início complicado e a ideia de que foi obrigado a receber Dmitriy e Maxin o deixaram resistente. No entanto, a convivência o fez mudar de ideia. Mais do que isso, ter os filhos de Chernobyl no quarto ao lado o fez mudar a forma como educava os seus próprios. “Eu tratava meus filhos com severidade e vi que não precisava. Foi uma experiência forte que me fez ver que a vida pode ser muito frágil”, desabafa. “Os meninos tinham que conviver com aquilo e a gente se sente impotente com isso tudo. No fim, nos perguntamos: o que é a vida? É um sopro”.

Dmitriy e Maxin foram dois dos garotos ucranianos que vieram a Curitiba
Dmitriy e Maxin foram dois dos garotos ucranianos que vieram a Curitiba| Jonathan Campos/Arquivo Gazeta do Povo

Contatos mantidos

Em 2013, 14 anos depois que os meninos foram embora, Komarcheuski teve uma surpresa em seu Facebook. Ao entrar na rede social, se deparou com uma mensagem de Dmitriy. Já adulto, ele queria retomar o contato com seu “pai” brasileiro. Contou que os problemas de saúde tinham se estabilizado e vivia uma vida normal na Ucrânia. Desde então, viraram amigos e até hoje conversam. “Ele me conta como estão as coisas por lá, como seguiu sua vida e como mantém contato com as outras crianças que vieram para cá”, explica o curitibano. No entanto, nem todas as notícias foram boas. “Quando perguntei do Maxin, soube que ele faleceu logo depois que voltou para a Ucrânia”, lamenta o advogado.

A consultora de tradições folclóricas Marta Sidyr foi outra curitibana que adotou uma filha de Chernobyl e que até hoje mantém contato com Liudmila, a pequena ucraniana que ela recebeu. Quando veio a Curitiba, a garota tinha apenas 10 anos e, mesmo depois de ir embora, não esqueceu o tempo que passou por aqui. “A gente teve um começo difícil, mas ficamos amigas rápido. Quando foi embora, ela me mandava cartas e email. Hoje nos falamos via redes sociais”, conta Marta.

Além do idioma, a comida era outra barreira entre as famílias brasileiras e as crianças ucranianas
Além do idioma, a comida era outra barreira entre as famílias brasileiras e as crianças ucranianas| Marta Sidyr/Arquivo Pessoal

O laço entre as duas se tornou tão forte que, quando a brasileira vai à Ucrânia, a garota — hoje com quase 30 anos — dá um jeito de visitá-la. Segundo Marta, quando Liudmila se casou, fez questão de apresentar toda a sua família para ela. “E todo mundo era muito grato pelo que a gente fez por ela aqui no Brasil”, diz. Durante essa visita, uma surpresa: a menina tirou do armário uma boneca que ganhou de presente em Curitiba e que ela guardou de recordação do tempo que passou aqui. Hoje, é sua filha quem brinca com ela.

Quando chegou ao Brasil, Liudmila tinha um problema no pâncreas causado pela exposição de seus pais à radiação. Seu quadro, porém, era mais estável do que a de outras crianças, o que permitiu aproveitar mais a estadia por aqui. Foi à praia e conheceu o mar, além de passear pelos pontos turísticos de Curitiba.

Ainda assim, o fato de ser uma filha de Chernobyl fazia com que chamasse a atenção de curiosos. “A gente ficava preocupado porque, em alguns lugares, todo mundo ficava olhando e ela percebia”, relembra Marta, que diz que os episódios de preconceito e temor por causa da radiação foram bastante isolados. “Teve apenas uma vez que uma amiga minha soube que a Liudmila estava na minha casa e ficou com medo de entrar. Não falou nada, mas a gente percebeu que era isso”.

Cuidados especiais

Atualmente chefe do setor de Pediatria do Hospital Evangélico Mackenzie, o médico Maurício Marcondes Ribas tinha apenas 36 anos quando as crianças de Chernobyl chegaram a Curitiba e foi um dos responsáveis pelo acompanhamento clínico. Tanto que deu seu telefone direto, para que as famílias entrassem em contato em caso de emergências.

No entanto, não foi preciso. Segundo ele, várias pesquisas mostram que a condição lúdica e emocional adequada pode contribuir muito no tratamento de crianças e que, no caso dos pacientes relacionados ao desastre de Chernobyl, isso era facilmente notado.

Ainda assim, todos os cuidados necessários foram tomados. Além da bateria constante de exames, a equipe do Hospital Evangélico estava em contato direto com as médicas que vieram da Ucrânia para acompanhar os pacientes. “Tudo era discutido com elas. Fazíamos reuniões para debater que tratamentos fazer e como agir”, explica. “Elas não podiam atuar por questões legais, mas opinavam bastante — o que nos ajudou muito”.

De acordo com Ribas, das 15 crianças que vieram para Curitiba, apenas uma apresentou problemas mais graves enquanto esteve por aqui. Um garoto com leucemia que estava com a doença sob controle teve uma crise e precisou de cuidados emergenciais, o que mobilizou todo o hospital. “Era uma condição extremamente grave e ele ficou sob risco de morte”, conta o médico. “Não estávamos acostumados à radiação e não sabíamos como ele responderia aos nossos tratamentos. Quando ele melhorou, foi uma comemoração coletiva”, recorda.

Hoje, 20 anos depois, diz não saber mais o que aconteceu com aquelas crianças. Perdeu o contato com os pacientes e com os médicos ucranianos, mas se lembra bem do peso que aquela experiência trouxe. “Era a primeira vez que passamos por algo assim no país e, por isso, nos sentimos muito lisonjeados por receber esses pacientes. Era algo inédito para todo mundo”.

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