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| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Quem chega ao apartamento da médica Melissa Hayashida Rebesco logo observa algumas pistas sobre paixões que a pediatra vem cultivando quase que simultaneamente: a fotografia e a coleção respeitável de Playmobil.

Na sala, onde se destaca uma inconfundível bicicleta cor-de-rosa, as paredes são adornadas por fotografias de seus artistas preferidos. No topo da escada de madeira, uma pequena coleção de Star Wars — o que entrega o lado nerd da pediatra. Mas o espaço destinado para os personagens da saga da qual ela também é fã (“só não vou na estreia dos filmes vestida de princesa Leia porque meu marido ia achar muito esquisito”, brinca) é pequeno se comparado com um dos cômodos da casa, que ela divide com o marido e três gatos: um dos quartos é reservado só para os icônicos bonecos criados na década de 1970, que se amontoam em prateleiras e caixas organizadoras, ou habitam cafés, igrejas e casinhas. Em um dos cantos, atletas de esgrima duelam. Noutro, um músico Playmobil parece feliz com seu saxofone.

GALERIA: veja fotos da coleção de Playmobil de Melissa

Mel não tem noção da quantidade acumulada de bonecos e seus acessórios. “Sempre me perguntam isso, mas eu não faço ideia de quantas peças eu tenho”, diz ela, que é uma colecionadora de Playmobil pouco convencional (assim como seu visual, que foge muito do estereótipo dos médicos). Ela não tem dó de mexer nos bonecos, ou tirá-los das caixas. “Não sou aquela colecionadora clássica de Playmobil. Sei de um colecionador que mexe nos plays de luva e tal. Eu não, eu vou brincar!”, ri a médica, que vê no hobby uma espécie de meditação: aos domingos, ela espalha os bonecos pela ampla varanda com uma vista privilegiada do pôr do sol e lá fica, fotografando, testando ângulos e luz. “Ligo uma música, vai passando o tempo. É ótimo para dar uma relaxada”.

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Ela também não se importa muito com as raridades e prefere comprar usados. “É bem mais barato, e uma forma de reciclar o brinquedo. E tem uma história. Vem com um fio amarrado, alguma marca. Você vê que alguém brincou. É legal, eu curto isso”. O preço varia: vai de R$ 8 a R$ 15 (a unidade de bonecos já usados). Já os sets raros (dos mais diversos temas) passam facilmente de R$ 2 mil (em preços pesquisados no site Mercado Livre).

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Melissa tampouco escolheu um tema específico: há quem só colecione circo, ou western. “Eu comecei comprando polícia. Não sei por que mas adoro policial”, gargalha a médica. “Acho que tem a ver com uma coisa de criança, eu sempre quis um carrinho”.

Outro aspecto nada trivial entre os colecionadores é desmontar o Playmobil. Não é um problema para Mel; ela “faz” bonecos personalizados para as pessoas, pegando o cabelo de um, o objeto de outro. Tudo para caracterizar a pessoa que será presenteada com um ser único. Mas não se anime: ela faz isso para poucos. “Só para privilegiados”, diverte-se.

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O começo de tudo

As paixões (que, inclusive já estão tatuadas no corpo) começaram quase que simultaneamente: ela amava tirar fotos, com o celular mesmo, e sentiu que queria aprender mais sobre a técnica. Matriculou-se num curso de fotografia e viu o olhar evoluir. Ao mesmo tempo, sua mãe (que mora em São Paulo) surgiu em seu apartamento com um saquinho cheio dos bonecos com os quais ela brincava na infância.

“Eu fui filha única até 12 anos. Morava em Guarulhos e não tinha muita área para brincar. O Playmobil era meu brinquedo preferido. Fui juntando alguns e sempre brincava com meu primo. Passaram os anos, parei de brincar e eles foram para o meu irmão. E um dia minha mãe aparece com os que tinham sobrado: cavalinhos, índios. Ficou ali até eu comprar minha câmera”, conta ela, que um dia testou uma foto do boneco assistindo o sol se pôr. Pessoas próximas gostaram tanto do resultado que sugeriram que ela abrisse uma conta na rede social Instagram (a @go_william) para expor os retratos dos brinquedos. O porquê do nome? William é um daqueles bonecos que sobraram de quando Mel era criança, e também um dos prediletos.

Depois que começou a postar no Instagram, a colecionadora, que também é obcecada por café e livros (sua biblioteca é respeitável — no momento Mel lia O Homem que Comeu de Tudo, de Jeffrey Steingarten) conta que descobriu um novo universo de pessoas especialistas em fotografar vários tipos de brinquedos. “Foi um ótimo treino para a foco e temperatura de luz na fotografia. E abriu portas para conversar com pessoas do mundo todo”.

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O universo em Malta

Apesar de não ter uma rotina para se dedicar à sua coleção, as compras e participações em grupos do Facebook renderam contatos nos clubes de colecionadores. Foi em um desses que ela teve a oportunidade de conhecer uma das fábricas da Brandstätter em Malta, no sul da Europa. Ela se inscreveu interessada e foi uma das 40 selecionadas — a única das Américas. “Passamos o dia lá, o pessoal da Alemanha [onde fica a primeira fábrica] veio nos receber, tivemos passeios organizados por eles. É muito legal a forma como a empresa trata os colecionadores”, diz.

Mel também elogia a evolução dos materiais do Playmobil (hoje mais maleáveis, segundo ela) e o cuidado com a diversidade nos bonecos e sets ao longo das últimas décadas. “Eles foram inserindo tons de pele, tipos de cabelo. Hoje você encontra bonecos de todas as raças. Eles também têm cuidado em mostrar uma rotina bem completa nos sets: se antes só tinha a bonequinha cuidando das crianças, hoje você tem o rapazinho. Isso é muito legal. É um cuidado que eu também tento ter nas minhas fotos”.

Dos amigos colecionadores que fez na Europa, Mel sente uma ponta de inveja das feiras cujo boneco é o tema principal (“eles sempre me falam sobre os eventos que têm lá, pena que estou longe”, conta). E identificou um perfil no grupo: todas as pessoas que se dedicam ao hobby têm entre 35 e 45 anos e aprenderam alguma forma de arte para poder mostrar, com capricho, o apreço pelos bonequinhos. “Cada um ali tem uma forma de curtir o hobby. E são pessoas que não levam a vida tão a sério. Afinal de contas é um adulto brincando”.

Criação

A linha de brinquedos Playmobil foi criada por Hans Beck (1929-2009) em 1974. Os pequenos bonecos móveis são vendidos com uma série de cenários e temáticas, formando diferentes ambientes e contextos. Na Alemanha, o brinquedo é produzido pelo grupo Geobra Brandstätter. Há ainda fábricas na Inglaterra, Malta, Espanha, Japão, Chipre, Estados Unidos e Argentina.

“Hoje você encontra bonecos de todas as raças e etnias no Playmobil. O fabricante também tem cuidado em mostrar uma rotina bem completa nos sets: se antes só tinha a bonequinha cuidando das crianças, hoje você tem o rapazinho, conta Melissa.

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