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É junto ao reduto boêmio do Largo da Ordem, com suas construções antigas e ruas de paralelepípedo, que está uma parte importante da história de Curitiba.
É junto ao reduto boêmio do Largo da Ordem, com suas construções antigas e ruas de paralelepípedo, que está uma parte importante da história de Curitiba.| Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

É junto ao reduto boêmio do Largo da Ordem, com suas construções antigas e ruas de paralelepípedo, que está uma parte importante da história de Curitiba. Na subida da Rua São Francisco, entre o trânsito agitado da Travessa Nestor de Castro e os bares que atraem diferentes gerações, está a Casa da Memória. Um local que reúne cerca de 170 mil documentos que ajudam a contar a história da cidade desde sua fundação, em 1693. Alguns tão raros que são mantidos em condições especiais, podendo ser manuseados apenas por um grupo seleto de pesquisadores.

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Entre essas relíquias estão os Livros do Rocio, um conjunto de 38 volumes e milhares de páginas que contém registros de propriedades imobiliárias e da cobrança do foro, taxa referente ao uso e ocupação de imóveis públicos. Com registros que compreendem o período de 1856 a 1938, esse material reconta a história do município através de suas construções e as famílias que habitaram esses locais. Tudo isso escrito à mão e em português arcaico, idioma que antecedeu a língua portuguesa na sua forma atual.

Tornar esse rico conteúdo mais acessível à população, especialmente para pesquisadores, é o objetivo da Fundação Cultural de Curitiba. Para isso, foi lançado um edital para indexação, transcrição em grafia atual e elaboração de resumos dos 38 Livros do Rocio, que ainda serão digitalizados e disponibilizados para consulta na internet. Serão investidos R$ 100 mil, provenientes do Fundo Municipal de Cultura, para realização desse trabalho minucioso, que deverá ser concluído no prazo de um ano.

“Esses livros compõem uma coleção importantíssima, com informações relevantes sobre o quadro urbano e sua expansão nesse período. A partir desse material, é possível conhecer coisas importantes sobre o cotidiano da cidade”, explica a coordenadora de Pesquisa Histórica da Casa da Memória, Maria Luiza Baracho. De acordo com ela, cada livro tem entre 150 e 300 páginas, nem todas preenchidas. Nessas páginas está a relação d os imóveis do município à época, informações técnicas como metragem, quem eram os proprietários e as transferências realizadas ao longo do tempo.

Maria Luiza cita como exemplo o Solar do Barão, complexo cultural localizado na Rua Carlos Cavalcanti, no Centro. O casarão foi construído em 1880, para servir de residência ao Barão do Serro Azul, morto 14 anos depois, durante a Revolução Federalista. Foi então construída ao lado do solar uma residência para a baronesa e seus filhos, respeitando os padrões arquitetônicos do imóvel. “Depois que o barão morre, a baronesa vai regulamentar o patrimônio e há vários registros relacionados ao local. Com esse tipo de informação conseguimos elucidar muitas questões referentes à formação da cidade e as personalidades que participaram dessa construção”, destaca.

Condições especiais

Juntamente com outras obras raras, os Livros do Rocio estão armazenados em um espaço especial da Casa da Memória. Trata-se de um ambiente sujeito a controle de temperatura e umidade, isolado dos demais setores do imóvel. Além disso, o manuseio só pode ser feito por pesquisadores do local, seguindo alguns procedimentos. Antes de chegar às mãos dos pesquisadores, os itens passam por um processo de adaptação a condições menos rigorosas de temperatura e umidade de onde será feita a consulta. Eles são retirados das prateleiras das salas climatizadas até 48 horas antes de serem manipulados e transferidos, temporariamente, para uma sala de transição.

A coordenadora do setor de obras raras da Casa da Memória, Filomena Hammerschmidt, diz que os cuidados são necessários para evitar a deterioração do material. “Os livros ficam em embalagens de papel para ficarem mais estáveis. Alguns estão mais deteriorados pelo manuseio, já que eram abertos constantemente, outros estão mais preservados”, revela.

Outra característica que chama atenção nos livros, segundo Filomena, é a caligrafia. “As anotações eram feitas com muito cuidado. Onde tem o nome do proprietário do imóvel, por exemplo, a letra chega a ser meio que desenhada. Possivelmente porque quem cuidava desse trabalho eram pessoas especializadas”, acredita. A escrita legível deve facilitar o trabalho de quem ficar responsável pela transcrição, já que, de acordo com a bibliotecária, nem todos os documentos apresentam essa característica.

Cruzamento de informações

Os Livros do Rocio são parte de um vasto acervo documental abrigado na Casa da Memória. Também preservado sob condições especiais está aquela que é considerada a principal relíquia da casa, o Tombo da Câmara da Villa de Curytiba, manuscrito de mais de 100 páginas que reúne os primeiros atos administrativos referentes à cidade, entre 1668 e 1694. Destaque também para os Livros da Porta, grandes cadernos onde eram anotadas providências requeridas pela população e pagamentos de tributos ao fisco.

Para Maria Luiza Baracho, a transcrição e digitalização dos Livros do Rocio visam facilitar o cruzamento dessas informações com os demais documentos. “Se considerarmos os registros isoladamente, pode parecer algo sem importância. Mas quando se faz esse cruzamento, conseguimos reconstituir muito do que foi a cidade nesse período e o que viria a ser no século 20”, observa.

O prazo para inscrição ao edital se encerrou na última quinta-feira (24). Uma vez selecionado o vencedor e feita a contratação, o prazo para concluir todo o trabalho é de um ano. “É a primeira vez que estamos abrindo um edital nesses moldes. Vamos ver como será a receptividade e, na medida que funcionar, podemos pensar em abrir para outras coleções”, adianta Maria Luiza.

SERVIÇO
Casa da Memória
Onde: R. São Francisco, 319, São Francisco
Horário de funcionamento: segunda a sexta, das 9 às 12h e das 14 às 18h.

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