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A quantidade de brasileiros que investem no Tesouro Direto tem crescido muito. Só neste ano, entre janeiro e julho, 38 mil pessoas se cadastraram para operar com a compra de títulos do governo federal. O estoque de papéis vendidos por meio dessa ferramenta praticamente dobrou em pouco mais de um ano e meio: era R$ 3,26 bilhões no encerramento de 2009 e chegou a R$ 6,23 bilhões no fim de julho.

Uma boa parte dessas pessoas está comprando títulos como forma de preparar-se para a aposentadoria. Fora do Brasil, essa é uma fórmula de poupança consagrada. Aqui, é meio que uma novidade – afinal, a venda direta desses papéis à pessoa física começou apenas em 2002. A fórmula é simples: você vai acumulando durante a carreira um patrimônio em títulos, que será transformado em dinheiro na hora de parar com o trabalho remunerado. O mais lógico, então, é que as compras sejam de títulos de longo prazo, resgatáveis na época da aposentadoria. Lentamente, esse raciocínio começa a surgir também no Brasil: o sujeito compra títulos com vencimento em 2035, digamos, pensando em pendurar as chuteiras por essa época. Mas há algumas dificuldades. A maior dela está no comportamento do próprio governo.

Dias atrás estava conversando com um economista a respeito de títulos públicos e da maneira como o governo brasileiro vem administrando sua dívida. Esse é um assunto que tem muita relevância para o investidor, já que esses títulos da dívida são os mesmos que podem ser comprados via Tesouro Direto (e que também constituem a maior parte da composição da maioria dos fundos DI e de renda fixa ofertados pelos bancos comerciais). Na opinião dele, esses papéis de longo prazo não são um investimento tão conservador quanto muitos pensam. "No Brasil, a forma como a administração encara a dívida muda muito de um governo para o outro", explica. "Você investe num título público hoje e não sabe o que pode acontecer com o seu dinheiro no futuro." Prova disso é que os títulos com vencimentos mais longos costumam pagar juros maiores – nos Estados Unidos, por exemplo, ocorre o inverso. Dois exemplos, nas mesmas categorias:

• a NTN-B (nota do Tesouro Nacional, que paga a variação da inflação pelo IPCA mais juros) com vencimento para 15 de maio de 2015 paga juros de 5% ao ano. O mesmo papel, a vencer em 15 de agosto de 2024 paga 5,66%;

• as Treasury Inflation Protected Securities (títulos americanos que pagam a inflação mais juros) pagam 4,125% ao ano no vencimento de 15 de maio de 2015, e 2,125% no vencimento em 15 de agosto de 2021 – esta é a data mais avançada que consta no último relatório mensal do Tesouro Americano.

O que explica essa diferença é a oferta e procura: nos EUA, os investidores buscam, principalmente, papéis de longo prazo, no Brasil, eles querem os mais curtos. A razão é aquela exposta acima – quando se trata de política econômica, ninguém além de Deus sabe o que vem pela frente. Isso torna esses investimentos mais arriscados, na visão dos gestores de recursos. "Só otário compra título de longo prazo", resumiu o meu interlocutor, de uma forma um tanto crua. "Quem compra papéis longos corre risco de calote." E calote, nesse caso, significaria não receber os valores esperados na época do vencimento

Eu discordo. Acredito, realmente, que Brasil é um país cada vez mais confiável e terá condições de honrar sua dívida no futuro. Mas o fato é que o retrospecto brasileiro é realmente ruim. E o futuro dos títulos brasileiros depende da gestão dos gastos públicos hoje.

Vale lembrar que a Grécia não parecia quebrada em 2004, quando sediou os Jogos Olím­picos. Há quem aponte os gastos estatais daquela época como uma das razões para os problemas que o país veio a experimentar seis ou sete anos depois.

Se não tivermos uma gestão decente do dinheiro público – e isso inclui aquele destinado à infraestrutura para os eventos esportivos que teremos pela frente –, podemos seguir o mesmo caminho. São as voltas que a vida dá: o futuro da sua aposentadoria, caro leitor, pode depender da forma como o governo contrata as empreiteiras que vão preparar o país para a Copa.

Hora de abrir o olho.

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