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O fundo no fundo do poço |
O fundo no fundo do poço| Foto:

O dinheiro aplicado no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) vai render ao fim deste ano 4,52%. A inflação (pelo IPCA, o índice que serve de referência para o sistema de metas do Banco Central) deve fechar o período em 6,2%. Ou seja: o FGTS vai perder feio para o aumento de preços registrado em 2008.

O FGTS foi criado em 1966 com alguns objetivos nobres, ao menos no papel. Ele serviria para dar alguma estabilidade financeira ao trabalhador demitido, permitindo-lhe caçar um novo emprego sem deixar a família à míngua. Também deveria financiar a habitação popular. Para isso, a lei previa que o saldo seria sujeito a correção monetária e a capitalização de juros – TR mais 3% ao ano, pela regra atual. Mas que garantia de estabilidade pode ter o trabalhador se a correção do dinheiro é insuficiente sequer para manter seu poder aquisitivo?

Há projetos para alterar a remuneração do FGTS, e o principal deles prevê trocar a TR – uma taxa anacrônica, que serve para muito pouca coisa hoje em dia – justamente pelo IPCA. Também existem entusiastas do uso de parte dos recursos para compra de ações. Isso apesar do mau desempenho recente dos fundos de investimento (os chamados "fundos de privatização") criados no início da década para isso – de janeiro a 22 de dezembro, eles haviam perdido entre 48% e 54%, mais do que a média dos fundos de ações. Isso se explica porque eles se concentram em Petrobras e Vale, duas empresas que estão entre as que mais perderam entre as que compõem o índice Ibovespa. Qual seria a melhor alternativa?

O melhor é que o trabalhador possa ser dono do seu nariz, e tenha a chance de escolher onde quer deixar seus recursos, dentro de um cardápio de opções oferecido pelas instituições financeiras. O básico poderia ser algo como IPCA mais 3%, ou coisa parecida – uma fórmula que mantenha a intenção original de dar correção monetária mais juros. Se o titular da conta quiser pôr parte do saldo em ações, que o faça, desde que haja regras claras e de que ele não possa aplicar tudo o que tem em renda variável. Veja o exemplo dos fundos de previdência privada: aplicações em renda variável não podem superar 49% da carteira.

Fazendo assim, aumenta o poder do trabalhador sobre seu próprio dinheiro e diminui o dos burocratas e políticos. Hoje o destino da grana está nas mãos de um conselho curador de 16 membros – incluindo gente indicada por partidos políticos –, oito do governo, quatro das centrais sindicais e quatro das confederações de empresários.

Pensando bem, onde é que o seu dinheiro corre mais risco? Na bolsa de valores, onde os perigos são conhecidos, ou na mão dessa turma?

Concordo com a vizinha

Minha vizinha Miriam Leitão escreveu na semana passada que é ocioso o debate sobre se os juros vão ou não cair na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, o tal Copom. Isso porque é óbvio que os juros vão cair, a não ser que os diretores do BC estejam tomados de um surto de alienação – o que, aliás, (e aí a opinião é minha, não dela) não deve ser totalmente descartado.

Por mais independente que seja o Banco Central – esse era o ponto central da análise de Miriam –, ele continua pautado pela realidade, e a realidade é de crise. É precisamente aí que, acredito, ele andou errando recentemente. Soa meio esquizofrênico comparar o discurso do presidente Lula num pronunciamento em rede nacional, dizendo que o brasileiro deve continuar consumindo, e a prática das taxas de juros, que são o grande impeditivo ao consumo. Empurrar as pessoas para o consumo com os juros em alta, as empresas em dificuldades e o mercado de trabalho em baixa é coisa de louco, mesmo. Quando a inadimplência sobe, ainda fazem cara de surpresa.

Um esforço conjunto do governo e do Banco Central (a gente fala isso como se o BC não fizesse parte do governo, veja que estranho) em favor de um ambiente de negócios mais propício faria muito bem ao Brasil e aos brasileiros.

Está acabando

Agradeço a cada um dos leitores a gentileza de ter acompanhado esta coluna desde sua criação, há nove meses. Espero poder contar com vocês em 2009. E peço que continuem contribuindo com comentários, críticas e com suas dúvidas sobre finanças pessoais e investimentos. O e-mail está ali em cima.

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