Maior especulador do mercado de commodities agrícolas, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), órgão similar ao Ministério da Agricultura no Brasil, surpreende mais vez. Em dois relatórios, em um único mês, uma diferença de 1 milhão de toneladas entre a previsão e o número final do estoque de passagem do país da safra 2013/14 para 2014/15. No relatório de oferta e demanda do início de setembro, eles previam 3,5 milhões de toneladas. Na semana passada, quando foram a campo conferir o volume físico de soja nos armazéns, descobriram que havia apenas 2,5 milhões de toneladas. A saída foi mexer nos dados de oferta da safra velha, plantada e colhida em 2013, que tiveram de ser reajustados para cima. Isso mesmo, um ano depois uma revisão nos números de área, produção e produtividade.

Em tese, apesar da trapalhada do USDA, a redução nos estoques ao menor nível em 39 anos seria positiva para as cotações. Mas ao invés de olhar para trás, o mercado olhou para frente e reajustou o quadro com o potencial da safra em curso. A reação imediata foi de novas baixas, uma vez que mesmo com o ajuste realizado pelo órgão, a previsão de estoque da safra 2014/15 continua alta, de 12,92 milhões para 11,86 milhões de toneladas. Ainda assim, o maior volume em oito anos, desde 2006/07 quando os norte-americanos encerraram o ciclo com 15,62 milhões de toneladas. Os números são resultado de uma safra histórica dos Estados Unidos, com clima extremamente favorável e uma produção excepcional, com potencial para 105 milhões de toneladas de soja.

1/3 da balança

Dez produtos do agronegócio responderam por 33% das exportações brasileiras no acumulado de janeiro a setembro. Do total de US$ 173,64 bilhões embarcados no período, o setor respondeu por US$ 57,41 bilhões. O desempenho do campo não foi suficiente para evitar o déficit na balança comercial. Mas com certeza contribuiu para que o saldo negativo de US$ 690 milhões não fosse ainda maior. A soja em grãos lidera não apenas o grupo do agronegócio, como se mantém no topo do ranking geral das exportações com 13,1% de participação. Vale destacar que o resultado do agro poderia ser ainda melhor, não fosse o revés nas cotações de soja e milho no mercado internacional nos últimos meses. Os dois grãos têm o menor preço em quatro anos. Em apenas um ano a soja perdeu 28% e o milho surpreendentes 42%.

Dólar X agro 1

Por outro lado, a situação do agronegócio na relação direta com os preços de soja e milho poderia estar em situação ainda pior. O que tem segurado as pontas no mercado interno, no preço pago ao produtor, é o câmbio. A valorização do dólar frente ao real tem amenizado o impacto na rentabilidade. Embora o custo logístico de algumas regiões produtoras, como no Mato Grosso, por exemplo, coloque a conta ano vermelho. Na prática, a soja a US$ 9,12/bushel (27,21 quilos) na Bolsa de Chicago é equivalente a US$ 20,11/saca (60 quilos) no Brasil. Com câmbio de R$ 2,46, pouco mais de R$ 49 a saca, sem considerar o prêmio positivo ou negativo definido pelas condições de mercado e do porto de embarque. No câmbio de um ano atrás, em torno de R$ 2,20, essa mesma saca, desse mesmo produto, poderia estar valendo R$ 44.

Dólar X agro 2

Historicamente nos períodos eleitorais o dólar tem uma valorização fora da curva no Brasil. Em 2014 não é diferente. Em dois meses o câmbio saiu da casa dos R$ 2,20 a R$ 2,30 para flutuar entre R$ 2,40 e R$ 2,50. Ainda bem para o agronegócio que precisa vender (a produção). Mas não tão bom para o agronegócio que precisa comprar (os insumos). Passada a eleição o dólar deve se acomodar? A resposta é não. A tendência que segue é de alta. Não mais por fatores internos, mas por uma conjuntura externa. O dólar index, que representa a cotação frente a uma cesta de moedas internacionais, experimenta sucessivas sessões de alta, no maior rali desde 1973, quando índice se tornou flutuante. A principal motivação é o fortalecimento da economia dos Estados Unidos. A expectativa é que o câmbio vire o ano muito próximo ou acima de R$ 2,50.

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