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No dia 29 de janeiro, o Financial Times noticiou que alguns dos executivos mais poderosos do mundo financeiro iriam se reunir com ministros das Finanças em Davos, na Suíça, onde ocorreu o Fórum Econômico Mundial. A principal demanda do encontro, segundo o jornal, seria a de que os governos "parassem de bater nos banqueiros". Aparentemente, socorrer banqueiros após eles provocarem a pior crise desde a Grande Depressão não é o bastante – é preciso que os políticos também parem de magoá-los.

Porém havia outro pedido mais concreto a ser feito: os banqueiros querem juros mais altos, mesmo que o desemprego permaneça extremamente elevado nos Estados Unidos e na Europa, porque, segundo eles, as taxas reduzidas alimentam a inflação. O que me preocupa é a possibilidade de os governantes seguirem esse conselho.

Para compreender o problema, é preciso saber que estamos em meio ao que o Fundo Monetário Internacional classifica de uma recuperação em "duas velocidades", na qual alguns países estão num ritmo veloz, enquanto outros – incluindo os EUA – ainda não saíram da primeira marcha.

A economia norte-americana entrou em recessão no fim de 2007; o resto do mundo, alguns meses depois. Os países desenvolvidos – EUA, nações europeias e Japão – mal começaram a se recuperar. É verdade que essas economias vêm crescendo desde meados de 2009, mas esse crescimento tem sido muito lento para gerar uma boa quantidade de empregos. Aumentar os juros sob essas condições significaria minar qualquer chance de melhorar a situação; significaria, na verdade, ter de aceitar o desemprego em massa como um fato constante da vida.

E quanto à inflação? O desemprego elevado segurou a variação de preços que costuma nortear a política econômica. O índice mais consultado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que não considera preços voláteis – como o da energia e dos alimentos –, está em 0,5% ao ano, muito abaixo da meta informal de 2%.

O valor dos alimentos e da energia – e das commodities em geral – tem, é claro, subido ultimamente. Os preços do milho e do trigo aumentaram cerca de 50% no ano passado; cobre, algodão e borracha, por sua vez, têm batido novos recordes de alta. O que isso significa?

A resposta está relacionada, principalmente, ao crescimento dos mercados emergentes. Enquanto a recuperação em países desenvolvidos se arrasta, as nações em desenvolvimento – especialmente a China – dispararam depois da recessão de 2008. Isso gerou pressões inflacionárias em muitos desses países; e também provocou um aumento drástico na demanda global por matérias-primas. Problemas climáticos – principalmente a onda de calor sem precedentes na região da ex-União Soviética que fez a produção mundial de trigo despencar – também foram responsáveis pela alta no preço dos alimentos.

A questão é: que impacto isso tudo deve ter sobre as políticas do Fed e do Banco Central Europeu?

Em primeiro lugar, a inflação da China é um problema da China e não nosso. É verdade que a moeda chinesa é atualmente atrelada ao dólar. Mas essa é uma escolha da China; se os chineses não gostarem da política monetária dos EUA, eles são livres para deixar sua moeda se valorizar. Nem a China nem ninguém tem o direito de exigir que os EUA sufoquem sua incipiente recuperação econômica só porque os exportadores chineses querem manter o yuan desvalorizado.

Mas e o preço das commodities? O Fed geralmente se preocupa com o "núcleo" da inflação, que desconsidera comida e energia, e não com a inflação "das manchetes". A experiência demonstra que, embora alguns preços flutuem amplamente de um mês para outro, outros produtos carregam bastante inércia – e são esses com os quais se deve preocupar, uma vez que, caso a inflação ou a deflação os atinja, será difícil livrar-se do problema.

No passado, esse método já beneficiou o Fed. Um exemplo: o Fed estava certo ao não aumentar os juros em 2007-08, quando o preço das commodities disparou – e levou a inflação cheia a ficar temporariamente acima dos 5% – para logo depois despencar. É difícil saber por que o Fed deveria agir de forma diferente agora, quando a inflação está longe dos picos registrados durante o último boom de commodities.

Então por que existem pedidos por elevação das taxas? Bem, há tempos os banqueiros são conhecidos por sua fixação em preços de commodities. Tradicionalmente, para eles, toda alta na cotação do ouro significava o fim da civilização ocidental. Hoje, o mesmo tipo de atitude exige que os juros sejam elevados porque os preços do cobre, da borracha, do algodão e do estanho estão subindo, mesmo que a inflação de base esteja em declínio.

Ben Bernanke entende perfeitamente que elevar os juros neste momento seria um tremendo equívoco. Mas seu colega europeu, Jean-Claude Trichet, emite alguns sinais estranhos – e tanto o Fed como o Banco Central Europeu estão sob enorme pressão externa para fazer a coisa errada.

Eles precisam resistir a essas pressões. Sim, o preço das commodities está em alta – mas isso não é motivo para perpetuar o desemprego em massa. Parafraseando William Jennings Bryan, não podemos crucificar nossas economias numa cruz de borracha.

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