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Manter a boa forma física pode ser, de fato, uma das razões que justifique o fanatismo de Abilio Diniz por esportes. Mas o motor que move um dos empresários mais populares --e até polêmicos-- do país pode ser decifrado um pouco mais a fundo em seu DNA: a sede por competição.

Dono de um perfil obstinado e determinado, não é de hoje que Diniz não se deixa inibir por críticas, acusações e ameaças quando coloca os olhos em um alvo promissor. A fama, inclusive, faz com que o empresário seja frequentemente caracterizado como bom de briga.

Foi assim na mais recente tacada quando, nos últimos meses, se aproximou do Carrefour, arquirrival de seu principal sócio no Pão de Açúcar, o francês Casino, para discutir uma fusão no Brasil.

"Quando Abilio está do outro lado da mesa, você sabe que não vai ser fácil. Concorrentes, aliados, assessores e fornecedores sempre tiveram dificuldades de relacionamento com ele", afirma um banqueiro que conhece Diniz de longa data.

"Ele triunfou num setor extremamente competitivo, onde o empresário tem que ser durão. Ele cobra dele mesmo e de todo mundo o máximo. Até dos concorrentes."

De fato, Diniz não mede esforços quando quer atingir um objetivo, ainda que o fim justifique os meios.

O empresário pisou no calo do presidente do Casino, Jean Charles Naouri, que deixou clara sua insatisfação com a operação entre Pão de Açúcar e Carrefour, classificando-a de "ilícita".

"A habilidade dele (Diniz) nesse negócio consistiu em encontrar brechas no acordo de acionistas que lhe permitiram colocar várias coisas impensáveis em votação. Ele é um exímio empresário e condutor de negociações", diz o gestor da Máxima Asset Management Saulo Sabba.

O Casino abriu dois pedidos de arbitragem internacional contra Diniz, buscando assegurar que o acordo de acionistas com o empresário brasileiro firmado em 2006 seja respeitado.

ATLETA E GURU

Esportista convicto, Diniz, 74, pratica natação, musculação, squash e corrida, participando da Maratona de Nova York desde 1994.

Filho de um imigrante português que fundou, em 1948, uma doceria chamada Pão de Açúcar, o atual presidente do Conselho de Administração do Grupo Pão de Açúcar começou a trabalhar com o pai aos 20 anos, como gerente de vendas. Em 1959, fundou o primeiro supermercado do grupo.

Adepto da linguagem simples, que atinge a crescente classe média, Diniz se apoia em discursos de autoajuda para mostrar que a imagem de briguento ficou para trás e deu lugar a uma espécie de guru com vasto conhecimento em negócios e liderança.

Nessa linha, o empresário já escreveu uma autobiografia intitulada "Caminhos e Escolhas" --à disposição dos consumidores nas prateleiras dos supermercados do grupo--, além de manter um site pessoal, um blog e uma conta no Twitter, que tem 105 mil seguidores.

TEMPERAMENTO EXPLOSIVO?

No Twitter, inclusive, o empresário reconhece que durante muito tempo foi "dono de um temperamento explosivo". "Após anos de análise me dei conta de como é importante ter autocontrole", escreveu no microblog.

Antes de travar a recente batalha com o sócio Casino, outras operações terminaram com Diniz arrematando a presa almejada com uma pitada de discórdia.

Com os herdeiros da rede de supermercados Sendas, Diniz arrastou uma disputa que só alcançou solução este ano. O Pão de Açúcar comprou 60 por cento do Sendas em 2003, quando já tinha o direito de comprar os 40 por cento restantes, mas não chegou a um acordo com os antigos donos quanto ao preço.

Dois anos depois, quando a varejista se uniu ao Casino, a família Sendas tentou negociar maior valor pelos ativos, impasse que só foi solucionado em fevereiro passado, quando o Pão de Açúcar comprou o restante da empresa carioca.

CASAS BAHIA

Mais recentemente, Diniz enfrentou uma queda de braço com a família Klein, ex-controladora da Casas Bahia, cuja aquisição pelo Pão de Açúcar foi anunciada em dezembro de 2009.

A compra da Casas Bahia só foi concretizada quase seis meses depois, com Diniz cedendo a exigências dos Klein e aceitando alterar alguns termos do negócio.

"O conceito dele de ética é controverso... Esse autoconvencimento de que está fazendo a coisa certa", afirma o analista do setor de varejo da Fator Corretora, Renato Prado, que considera "reprovável" a postura adotada pelo empresário na relação com o sócio Casino.

Isso porque Diniz se colocou justamente contra a companhia que o ajudou quando o Pão de Açúcar precisou se reestruturar pela segunda vez, entre 1999 e 2000, ano em que a varejista assumiu a liderança do varejo brasileiro.

Antes disso, no final da década dos anos 1980, o grupo havia sido afetado pela recessão da época, o que ocasionou o fechamento de lojas deficitárias e a demissão de mais de 20 mil funcionários. Na ocasião, Diniz também teve de enfrentar uma disputa familiar para ficar com o controle do grupo.

Ainda no final daquela década, em 1989, Diniz foi sequestrado pelo grupo Movimiento de Izquierda Revolucionaria, da Colômbia, e passou sete dias em cativeiro em São Paulo.

O incidente, ocorrido próximo às eleições presidenciais daquele ano, em que Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo disputavam o poder, ganhou mais repercussão justamente porque um dos sequestradores usava uma camiseta do Partido dos Trabalhadores (PT).

Hoje, ao frequentar as missas de domingo na igreja São José, no Jardim Europa, bairro nobre de São Paulo, Diniz mantém uma relação cordial com os familiares, sendo mais próximo apenas das irmãs.

O empresário, que se casou duas vezes --a segunda delas em 2004 com uma economista que ingressou no Pão de Açúcar como trainee--, tem seis filhos, sendo que o mais novo nasceu em 2009.

"Tudo o que ele fez e vem fazendo, e que implicou em alguma briga, deu e está dando certo. Aos trancos e barrancos, ele conseguiu construir uma companhia que é líder no setor", conclui Sabba, da Maxima.

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