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5G Aviação
Avião se prepara para pousar no aeroporto Ronald Reagan, em Washington (EUA): 5G virou problema entre aéreas e operadoras de telefonia| Foto: Michael Reynolds/EFE

Já em operação nos Estados Unidos, o 5G teve uma ampliação de espectro adiada em duas semanas após fabricantes de aviões e companhias aéreas apontarem riscos de interferência em equipamentos de bordo, representando potencial ameaça à segurança da aviação.

A quinta geração da internet móvel passaria a operar por lá também no espectro conhecido como Banda C, considerado perigosamente próximo da frequência em que operam os altímetros. Esses aparelhos medem a altura exata das aeronaves em relação ao solo e são usados principalmente em situações de pouso nas quais os tripulantes não têm condições ideais no visual para fazer a aterrissagem. Uma falha de operação, portanto, poderia comprometer a segurança dos voos, com chances de colisões e acidentes.

O cenário nos Estados Unidos coincide com movimentações aqui no Brasil, com ofício enviado pela Embraer à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) pedindo apoio na realização de ensaios em voo e em solo. O objetivo seria verificar a suscetibilidade das aeronaves da companhia a partir da chegada do 5G ao país, onde a Banda C também será uma das utilizadas na implementação da tecnologia. O espectro em questão abarca a faixa dos 3,5 GHz – considerada a principal frequência do 5G – arrematada pelas operadoras Claro, Vivo e TIM em outorgas nacionais, e Algar Telecom, Brisanet, Cloud2U, Consórcio 5G Sul e Sercomtel em outorgas regionais no leilão realizado em novembro.

De acordo com o conselheiro da Anatel Moisés Moreira a reguladora está atenta à possível interferência do 5G sobre os sistemas da aviação desde 2021, com análises feitas junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e que municiaram definições justamente para garantir a coexistência segura das duas operações. Segundo o conselheiro, que é também presidente do Grupo de Acompanhamento da Implantação das Soluções para os Problemas de Interferência (Gaispi), a principal diferença do panorama brasileiro para o norte-americano está na adoção de uma separação maior entre as frequências do 5G e aquela dos altímetros, que operam entre 4,2 GHz e 4,4 GHz. Enquanto nos EUA a faixa da Banda C a ser empregada para o 5G vai de 3,7 GHz a 3,98 GHz, no Brasil ela é inferior, entre 3,3 GHz e 3,7 GHz.

"O 5G no Brasil está afastado em pelo menos 500 MHz da frequência de operação desses equipamentos, enquanto nos Estados Unidos esse afastamento é de pouco mais de 200 MHz. Esse maior distanciamento em frequência, chamado de “banda de guarda”, acarreta melhores condições para a convivência e menores riscos de interferências no território brasileiro", afirma Moreira.

O conselheiro afirma que o ofício da Embraer sobre o apoio para a realização de testes será avaliado internamente pela Superintendência de Outorga e Recursos à Prestação da reguladora. Moreira acrescentou, ainda, que "caso a Anatel identifique a necessidade de medidas adicionais para a proteção de equipamentos utilizados por aviões, estas serão adotadas e divulgadas oportunamente". O cronograma de implementação do 5G, entretanto, não deve sofrer quaisquer alterações. A quinta geração da internet móvel nas capitais e no Distrito Federal entra em operação até 31 de julho.

Em nota, a Embraer destacou que "o problema em questão se aplica unicamente às operações no território norte-americano". A fabricante nacional disse que acompanha as discussões sobre os possíveis impactos da tecnologia 5G na aviação e que colabora continuamente com as autoridades aeronáuticas competentes e a Anatel.

5G do Brasil tem menor potencial de interferência, diz Anac

Ações de monitoramento da faixa de 4,2 GHz a 4,4 GHz foram iniciadas há cerca de um ano de acordo com a Anac, para acompanhar a convivência com as futuras faixas do 5G e garantir a proteção do serviço de Radionavegação Aeronáutica. Em nota divulgada ainda em novembro de 2021, a agência informou que "o uso da faixa em torno de 4 GHz é acompanhado pelos dois órgãos para que, se necessário, ações de mitigação a interferências sejam avaliadas".

Nesta quarta (5), a Anac reforçou a observação permanente do cenário junto à Anatel e outras autoridades e esclareceu que "as especificações [brasileiras do 5G] são diferentes daquelas que estão sendo adotadas nos Estados Unidos, tendo menor potencial de provocar interferência".

Segundo a Anac, a posição dos Estados Unidos de adotar as frequências de 3,7 GHz a 3,98 GHz para o 5G "gerou preocupação no setor de aviação civil [...] e discussões na Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), que atualmente recomenda uma separação espectral de 200 MHz em relação a sistemas de telecomunicações móveis internacionais (IMT) para proteger os radioaltímetros".

A Anac reforça, ainda, que a decisão americana não encontra paralelo com o 5G no Brasil. "O Brasil licitou a faixa de 3300 – 3700 MHz para o uso de futuras redes 5G seguindo as melhores práticas internacionais de gestão do espectro", avalia em nota.

Apesar de não ter adotado a mesma faixa que os EUA para o 5G neste momento, o Brasil ainda pode ter o emprego da frequência de 3,7 GHz a 3,8 GHz para a quinta geração da internet móvel, mas em redes de baixa potência. "Assim, a [eventual] autorização pela Anatel do uso dessa faixa será bem diferente do que ocorrerá por outros países, com potência mais de mil vezes inferior ao que será utilizado na maioria dos países europeus", pontua Agência Nacional de Aviação Civil.

Aviação dos EUA adia 5G

A operação do 5G na faixa dos 3,5 GHz nos Estados Unidos foi adiada para o dia 19 de janeiro após as teles AT&T e Verizon (vencida resistência inicial) concordarem com a medida, amplamente defendida pelo setor aéreo, em movimento encabeçado pelas fabricantes Boeing e Airbus. A Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA, na sigla em inglês) informou que o tempo adicional será utilizado para reduzir as interferências relacionadas a esse lançamento do 5G.

Além do adiamento geral na ampliação que valeria a partir de 5 de janeiro, as operadoras também se propuseram a implementar, durante seis meses, um conjunto de medidas de mitigação nas proximidades de 50 aeroportos identificados como os de maior impacto para o setor de aviação norte-americano. Segundo a FAA, as ações são comparáveis ​​àquelas empregadas em ambientes operacionais europeus, onde a questão já é enfrentada, com objetivo de "reduzir substancialmente as interrupções nas operações aéreas". Em países como a França há limites de operação do 5G em aeroportos que têm baixas condições de visibilidade.

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