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O setor em que a confiança é mais forte é a indústria de transformação.
O setor em que a confiança é mais forte é a indústria de transformação.| Foto: Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

A confiança de empresários e consumidores está aumentando, diante do avanço na vacinação contra a Covid-19 e das expectativas de o PIB brasileiro crescer em torno de 5% em 2021, e as incertezas em relação à economia estão diminuindo, porém ainda ficando em patamares superiores aos do período 2015-19.

O movimento é mais forte entre os empresários do que entre os consumidores. Mas a Fundação Getulio Vargas (FGV) detecta que há mais uma redução no pessimismo do que propriamente um aumento no otimismo. “Há uma notável capacidade de adaptação das empresas ao cotidiano de restrições sanitárias”, aponta a instituição.

Confiança empresarial

A confiança empresarial está em seu maior nível desde março de 2014, último mês antes da recessão de 2014-16, atingindo 97,7 pontos, segundo a FGV. Números superiores a 100 indicam otimismo.

Segundo o superintendente de estatísticas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV), Aloisio Campelo Jr., a confiança empresarial consolidou em maio a recuperação esboçada no mês anterior, com destaque para a confiança no comércio e serviços, dois segmentos que sofreram muito em março com a piora dos números da pandemia no Brasil e a adoção de medidas de restrição à circulação.

“A confiança dos serviços atinge o maior nível desde o início da pandemia e pode continuar em rota ascendente com a evolução da campanha de vacinação, embora o risco de uma terceira onda de Covid-19 continue no radar dos setores mais dependentes de circulação de clientes”, diz.

Outro fator que contribuiu para uma melhor confiança empresarial foi a demanda não ter caído tanto na segunda onda da pandemia quanto na primeira. “Os empresários estão voltando a acreditar na retomada da economia”, afirma Campelo Jr.

Estas expectativas estão alinhadas com o crescimento das projeções para o crescimento do PIB em 2021. O ponto médio (mediana) das previsões feitas por instituições financeiras e coletadas pelo Banco Central (BC) no relatório Focus está subindo há oito semanas e agora aponta para uma alta de 4,85%.

Segundo a FGV, o avanço das campanhas de vacinação contribui para a redução do pessimismo, mas a continuidade dessa tendência ainda depende dos números da pandemia.

O setor em que a confiança é mais forte é a indústria de transformação. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram otimismo forte e disseminado entre os empresários do setor. Os níveis são próximos aos do segundo semestre de 2020, um período de forte recuperação da economia brasileira.

“A situação está menos gravosa do que no ano passado e a atividade vem mostrando uma forte recuperação”, diz o gerente de análise econômica da confederação, Marcelo Azevedo.

No primeiro quadrimestre do ano, a produção industrial acumula um crescimento de 10,5% em comparação a igual período do ano passado, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Azevedo aponta que a melhoria na confiança vai depender de mais avanços na vacinação contra a Covid-19. Ele afirma que isso impacta na melhoria na criação de postos de trabalho, favorecendo a geração de renda, o que acaba dando mais sustentação para o comércio, a indústria e os serviços.

A confiança do comércio e dos serviços também está em alta, mas não é tão elevada quanto na indústria. No dia 8, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) reviu para cima a projeção de crescimento nas vendas no varejo para 2021.

A mudança, de 3,3% para 3,9%, foi motivada pelos bons números que a atividade vem registrando, apesar de a confiança dos consumidores ainda não estar em patamares considerados adequados.

Numa escala de 0 a 200 pontos, a confiança dos comerciantes estava em 91,3 em maio, permanecendo pelo segundo mês seguido na zona de insatisfação. A principal fonte de preocupação está nas condições atuais do empresário do comércio. Elas estão 19,2% piores do que há um ano, segundo indicador da CNC.

Mas as expectativas para os próximos meses são favoráveis. Segundo Fábio Bentes, economista da CNC, o governo tem sido bem-sucedido na adoção de medidas importantes para regenerar a economia. O economista ressalta que medidas protetivas adotadas de forma pouco dinâmica comprometem a previsibilidade dos empresários e afetam os planos de investimento.

“O comércio já registra, atualmente, um volume de vendas superior àquele verificado antes da pandemia. Claro que nem todos os segmentos do setor ainda percebem essa melhora, como é o caso dos empresários do ramo do vestuário e de combustíveis. Por outro lado, os ramos de materiais de construção e de farmácias e drogarias já experimentaram avanços de 19,9% e 13,4%, respectivamente, em relação aos volumes de vendas pré-pandemia.”

Campelo Jr., da FGV, ressalta que o segmento de comércio e serviços, em que pese ser mais atingido pelas restrições de mobilidade, vem buscando formas para se transformar. Duas estratégias que ele cita são o incremento nas vendas online e, no caso de bares e restaurantes, a maior utilização de aplicativos por parte dos clientes.

Confiança dos consumidores

Mesmo com a reação, a confiança dos consumidores ainda está baixa. O índice de confiança da FGV subiu para 76,2 pontos em maio, bem abaixo do nível que indica otimismo (acima de 100). O avanço de abril e maio garantiu a recuperação de 81% da queda sofrida em março.

O principal responsável por essa situação é o mercado de trabalho. O desemprego estava, no trimestre encerrado em março, em 14,7%, segundo o IBGE.

"Em maio, a confiança dos consumidores manteve a tendência positiva observada no mês anterior. Houve ligeira melhora da percepção das famílias sobre o momento atual e aumento das perspectivas em relação aos próximos meses. Mas mesmo otimistas em relação à situação econômica do país nos próximos meses, a expectativa das finanças pessoais não avançam e o ímpeto para consumo continua baixo", afirma Viviane Seda Bittencourt, coordenadora de sondagens na FGV.

A confiança é menor entre os consumidores de baixa renda do que entre os de alta. Segundo o superintendente da FGV, os números mostram que os mais pobres ainda têm receio da pandemia e sentem que o mercado de trabalho não está tão bom.

Outro agravante é a questão inflacionária. Em maio o IPCA chegou a uma alta acumulada de 8,06% em 12 meses, a maior desde setembro de 2016. O teto da meta estabelecida pelo Banco Central é de 5,25%.

“Com a confiança baixa, os consumidores tendem a postergar as decisões de consumo de médio e longo prazo, especialmente nas compras a prazo”, complementa Bentes.

A tendência para o segundo semestre é de recuperação, aponta o executivo da FGV. Ele ressalta que, à medida que a vacinação contra a Covid-19 ganhar velocidade, a inflação atenuar e o desemprego cair, a tendência é de o consumidor ficar mais confiante.

Incerteza cai, mas segue alta

Assim como a confiança de empresários e consumidores vem aumentando, as incertezas em relação à economia brasileira vêm caindo.

“A continuidade das campanhas de imunização, associada à ligeira melhora dois números da pandemia no Brasil em maio e à reabertura gradual de diversas economias mundiais parecem ter contribuído para a segunda queda consecutiva do nível de incerteza. Olhando à frente, a possibilidade de uma terceira onda de Covid-19 e a possibilidade de novas medidas de restrição à mobilidade podem ameaçar esta tendência de queda nos próximos meses”, diz Anna Carolina Gouveia, economista do Ibre/FGV.

O indicador de incerteza calculado pela instituição ainda não se recuperou da forte alta (que nesse caso é ruim) registrada em março e abril de 2020. Porém, por enquanto a tendência é de que o indicador – que em maio estava em 119,9 pontos – possa cair um pouco mais.

Um fator adicional, segundo Campelo Jr., poderá inibir quedas maiores à frente: a perspectiva de uma campanha eleitoral tensa. Com isso, o indicador de incerteza ficaria acima do patamar de 115 pontos, vigente entre 2015 e 2019, quando o Brasil perdeu o grau de investimento, houve o impeachment de Dilma Rousseff, o aprofundamento da Lava Jato, as turbulências internas do governo Michel Temer e a greve dos caminhoneiros.

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