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Após viagens, estágios, um emprego como sub-chef e dez anos de experiência em outras cozinhas, Paola decidiu que deveria abrir um restaurante usando a herança de seus pais em 2001. | Reprodução
Após viagens, estágios, um emprego como sub-chef e dez anos de experiência em outras cozinhas, Paola decidiu que deveria abrir um restaurante usando a herança de seus pais em 2001.| Foto: Reprodução

Há 4 anos, a chef Paola Carosella teve “pânico” de tomar uma decisão que mudaria sua vida: “tinha 40 anos, estava no Brasil há 12 anos, tinha uma filha de dois, um restaurante quase falindo, um restaurante absolutamente falido e estava morando no cheque especial”, conta no evento Day1, organizado pela Endeavor na segunda-feira (5).

Foi quando definiu, após um processo longo, que deixaria a vida que tinha para ser feliz. Para iniciar o processo ela dividiu sua vida em dois papeis, “hoje” e “em dois anos”. A partir desses papeis, entendeu o momento em que estava na vida. “Levantei com quatro certezas: eu vou morrer algum dia; eu não sou feliz na vida que eu tenho; preciso fazer alguma coisa para mudar essa vida, porque ninguém vai mudar por mim; e sou cozinheira”.

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Definiu, então, que tomaria um empréstimo de R$ 2 milhões para comprar de seus sócios o Arturito, restaurante que mantém até hoje na Rua Artur de Azevedo, em São Paulo. Isso a deixou ainda mais endividada no primeiro momento, mas foi a guinada de que precisava para mudar de vida. E foi um processo.

História com a cozinha

“Me encantei com a cozinha quando ainda pequena. Adorava a forma como minha avó colocava a comida na mesa, me parecia um ato muito poderoso”, descreve, concluindo: “me apaixonei por essa coisa meio erótica da fartura”. Os finais de semana e férias de Paola eram assim. “Mas a semana era diferente”, relembra diante da plateia.

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“Meus pais eram separados. Morava com a minha mãe em um apartamento, onde sentia muita solidão. Tive uma mãe muito forte, super empreendedora, que trabalhou muito a vida inteira, linda, mas sempre muito triste. Quando estava em casa, e não trabalhando ou estudando, passava o tempo trancada no quarto ficando triste”, emociona-se ao lembrar. Para fugir da solidão que vinha dessa situação, Paola cozinhava, copiando a avó ou as culinaristas da televisão.

“Os ingredientes que eu tinha eram limitados, não tinha a fartura da casa da minha vó. Tinha atum de lata, pão de forma, salsicha, maionese, ovo e manteiga. Mas com esses ingredientes eu fazia de tudo”. Ela preparava o jantar para a mãe e encontrava dentro desse espaço o resgate de uma vida infeliz. “Obviamente, quando terminei a escola aos 18 anos, escolhi ser cozinheira”.

Primeiro restaurante

Após viagens, estágios, um emprego como sub-chef e dez anos de experiência em outras cozinhas, Paola decidiu que deveria abrir um restaurante usando a herança de seus pais, que perdeu aos vinte e poucos anos. “Era 2001, eu estava no Brasil, já tinha trabalhado no Figueira Rubayiat, sabia o que tinha que saber sobre a cozinha e decidi investir aqui: eu não falava português, não tinha documentos e não conhecia ninguém. Vendi tudo o que eu tinha, peguei o dinheiro e tinha meio milhão de reais, que era o necessário para tirar um visto de investidor. Virei uma empresária, e como empresária, fui uma excelente cozinheira”.

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Chamado Júlia, o primeiro restaurante foi bem-sucedido em termos de cardápio, mas a sociedade não funcionou. “A confiança na sociedade quebrou-se”, explica Paola. O pai do sócio comprou a parte de Paola no restaurante, devolvendo o mesmo valor que ela tinha investido.

Arturito

“Entrei no embalo, e no lugar de escolher um sócio errado, eu escolhi sete, argentinos. Ótimas pessoas, mas com ideias diferentes”. Esse é o início do Arturito. “Eu queria um lugar branco, aberto, que pudesse se expandir, com pessoas felizes. Mas acabei tendo uma espécie de boate. Era caríssimo e cafona, mas por alguns anos, ele deu certo”. O problema era que não acreditava na proposta que tinha naquele momento.

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Sem chegar a um acordo com os sócios, cuja maior preocupação era o faturamento, Paola teve sua filha. “Soltei todas as minhas unhas e falei para os meus sócios: a gente precisa mudar. Não sei se eu estava sentindo uma tendência de mercado, porque não sou empresária, mas tinha certeza que o Brasil ia mudar e que a alta gastronomia não ia funcionar”. Para ela, o restaurante não era gentil e amável, como deveria. Isso foi em 2012.

Passaram-se mais alguns meses quando chegou a noite da decisão. “Queria muito mais, não grana, não ambição, mas me espalhar de alguma forma nesse mundo. Então nesse momento quando estava sentada no chão olhando para os dois papeis, eu analisei as opções: eu podia continuar miserável; abandonar o barco; escolher um sócio em meia hora, mas não queria um sócio por necessidade, eu precisava escolher por afinidade”, explica.

Virada

“O mais valioso dessa empresa era eu. Isso pode parecer arrogante, mas eu era que estava cozinhando e dando valor àquele espaço. No dia seguinte, fui ao escritório e peguei o empréstimo de R$ 2 milhões, que é muito para quem não tem nada. Eu era a minha garantia, eu tinha uma grande garantia, porque eu sei que se eu preciso eu posso trabalhar 700 mil horas por dia”. Após longa negociação, eles aceitaram o preço “e eu voltei a um restaurante que tinha muito menos clientes e um ponto de faturamento muito arriscado”.

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Apesar da desconfiança dos 40 funcionários, Paola fez acontecer. “Eu fiz a única coisa que eu sabia fazer, que era cozinhar. Trabalhei do jeito que eu sei trabalhar”. A chef virou um “polvo”, que fazia tudo dentro do restaurante, de limpar o banheiro a negociar com contadores. “O que é necessário para recompor uma empresa é se jogar por inteiro”.

Como precisava cozinhar, definiu que usaria um dia por semana só para isso e o restante para ser “a dona do restaurante”. Era às sextas que criava o cardápio da semana: “os executivos de sexta-feira começaram a florescer e o restaurante começou a florescer”. Em uma dessas sextas-feiras, Paola resolveu servir empanadas saltenhas de entrada.

La Guapa

Começou a servir em outros momentos, no jantar, por encomenda. “Aparentemente isso se chama teste de mercado, e eu estava fazendo um teste de mercado”. Foi com as empanadas que Paola virou empresária, acredita.

“Um dia, apareceu alguém que me completou, e que com certeza sem essa pessoa eu não estaria aqui”. Benny Goldemberg foi o sócio que Paola teve certeza que precisaria ter: em 2014, o La Guapa saiu do papel. Hoje, vale 40 vezes mais que naquela época e todos os empréstimos já foram pagos.

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“Eu sou muito mais feliz do que antes, tenho um sócio que é íntegro, honesto, inteligente, muito divertido. Eu não faço ideia do que está escrito no meu contrato social com ele, porque o que eu tenho com ele é um projeto de vida”, complementa Paola. “O Benny fez a minha arte ser um negócio”.

“Em um momento em que ‘empresário’ parece uma má palavra, eu tenho muito orgulho de ser empresária”, conclui Paola. “Cada um de nós, em qualquer coisa que faça, tem que ser absolutamente responsável pelo que faz, sabendo estar impactando as pessoas”.

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