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Jennifer Dionisio (segunda da direita para a esquerda) é dona da Three Sisters Farm and Dairy, Na foto, ela aparece com suas filhas (a partir da esquerda), Erin, Regan and Ally, na cidade de Pueblo, Colorado. Ela diz que não teve modelos femininos de empreendedorismo, mas que as três filhas não terão esse problema. | MATT NAGER/NYT
Jennifer Dionisio (segunda da direita para a esquerda) é dona da Three Sisters Farm and Dairy, Na foto, ela aparece com suas filhas (a partir da esquerda), Erin, Regan and Ally, na cidade de Pueblo, Colorado. Ela diz que não teve modelos femininos de empreendedorismo, mas que as três filhas não terão esse problema.| Foto: MATT NAGER/NYT

Para muita gente nos Estados Unidos, começar seu próprio negócio é a manifestação do sonho americano: arriscar-se, trabalhar duro, ficar rico. Então, por que não vemos mais mulheres fazendo isso?

Apesar de serem cerca da metade da força de trabalho, as mulheres possuem 36% das empresas dos Estados Unidos. Essas empreendedoras têm metade da possibilidade dos empregadores masculinos de contratar outra pessoa além delas mesmas e geralmente geram menos receita, segundo dados de um censo analisados em um novo relatório do centro de estudos Third Way. Em tecnologia, menos de 10% das startups são de mulheres, de acordo com um artigo escrito por pesquisadores de Harvard. 

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A razão, segundo a pesquisa, é a seguinte: profissionais com experiência se tornam mentores e dão dinheiro para empreendedores como eles mesmos, enquanto que aqueles que estão começando imitam pessoas como eles. 

Em outras palavras, todos vivemos em bolhas – não apenas na política ou nas amizades, mas também em nossas carreiras – e isso modela as ideias que formulamos. Cientistas sociais descrevem o fenômeno como homofilia, ou o amor pelo semelhante. 

No Brasil, apesar de os números mostrarem uma grande proporção de mulheres na liderança dos novos negócios – mais da metade dos novos negócios de 2012 segundo a Global Entrepreneurship Monitor 2012 (GEM) do Sebrae e do IBPQ, por exemplo – , isso se dá mais pela característica de “empreendedorismo por necessidade” dos brasileiros do que por outras diferenças. Apesar disso, quando o assunto são as empresas já estabelecidas (com pelo menos 48 meses), a proporção de empresas lideradas por mulheres cai bastante. As dificuldades em se sentirem empreendedoras também afligem as brasileiras.

“As mulheres estão fora dessas redes estabelecidas e, se você está fora, não obtém conhecimento, não percebe as oportunidades, não tem os contatos nem o financiamento”, explica Susan Coleman, professora de Administração da Universidade de Hartford e coautora do relatório da Third Way. Ela o escreveu com Alicia Robb, pesquisadora da Universidade do Colorado, em Boulder, e fundadora da Next Wave Ventures, firma para investidores-anjos do sexo feminino. 

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A pesquisa mostra que mulheres em todo o mundo têm menos propensão a considerar o empreendedorismo como um caminho de carreira, muitas vezes porque não veem outras empresárias como modelo. 

Elas também têm menos probabilidade de possuir a experiência administrativa capaz de levá-las a abrir uma empresa. Apenas 19 por cento das executivas importantes são mulheres, segundo um relatório da Leanln.org e da McKinsey, e a razão principal pela qual as trabalhadoras não avançam na carreira é porque são menos propensas a encontrar mentores entre lideranças. 

Homens financiam (e apoiam) outros homens

Isso muda quando elas administram as empresas. A diferença salarial entre homens e mulheres diminui, e as funcionárias têm mais chances de promoção, de acordo com uma pesquisa de empresas públicas feita pela economista Linda Bell, diretora do Barnard College. “Seja por causa ou efeito, a presença de uma mulher como executiva tem realmente um impacto importante”, afirma ela. 

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As mulheres também são deixadas de fora das redes de financiamento, que são predominantemente masculinas e em geral operam por meio de referências de amigos. Elas tendem a investir seu próprio dinheiro ao invés de capital de fora em seus negócios e, quando procuram investidores, pedem quantias menores. 

As redes são importantes por outra razão: apoio emocional. “Abrir um empreendimento é uma aventura solitária e algumas vezes assustadora, e você precisa de gente com quem conversar”, explica Coleman. 

As incubadoras – espaços físicos onde as pessoas começam negócios e conhecem outros empreendedores assim como advogados, contadores e investidores – não ajudam. Em um estudo de 18 mil empresas que começaram em incubadoras, apenas seis por cento eram de mulheres. 

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Outro fator também pode estar em jogo. As mulheres geralmente têm mais aversão ao risco do que os homens. Isso faz com que elas invistam melhor no longo prazo, segundo estudos. E também desencoraja algumas a apostar no empreendedorismo e a tentar construir negócios que cresçam. Em alguns casos, isso pode ser uma decisão sábia de investimento, considerando que cerca de metade dos novos negócios acabam em cinco anos. 

Uma mulher contra a corrente

Jennifer Dionisio diz que não teve modelos femininos quando começou sua empresa, a Three Sisters Farm and Dairy, no ano passado. Ela vende carne e leite de cabra e espera abrir uma loja de queijos e um restaurante que use produtos vindos diretamente da fazenda. 

Segundo Dionisio, o fato de viver na pequena cidade de Pueblo, no Colorado, facilitou ter um negócio próprio, já que conhece os advogados e banqueiros locais. “Ficaria apreensiva de outra maneira”, afirma. Mesmo assim, as pessoas na loja de alimentos local assumem que ela não consegue carregar sacos de ração ou dirigir tratores e outros vêm à fazenda e perguntam onde está o chefe. 

Ela diz que tenta ser um modelo para as três filhas. Nomeou a fazenda por causa delas e espera que tomem conta do negócio um dia. 

“Elas podem trabalhar por si mesmas, ser independentes e ainda assim ganhar a vida. Até minha filha de sete anos consegue dirigir um trator pequeno hoje.”

Vale do Silício está ainda mais envolto em uma bolha 

Fundadores de startups financiados por capitalistas de risco são quase todos homens, brancos ou asiáticos, segundo um estudo de Paul Gompers, professor da Escola de Administração de Harvard, e Sophie Wang, estudante de pós-graduação da mesma universidade. 

Os dois queriam descobrir se o problema era que não havia mulheres suficientes com educação, treinamento ou desejo para abrir empresas ou se os culpados eram fatores como preconceito e redes fechadas. 

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Eles concluíram que havia muitas mulheres qualificadas. Elas recebem 40% a 50% dos diplomas de ciências e engenharia e representam 30% da força de trabalho da indústria de softwares. Mas são menos propensas a ter informações sobre como se tornar empresárias, a ver mulheres como modelos e a conhecer investidores de risco.

Capitalistas de risco do sexo feminino têm mais possibilidade de investir em empreendedoras, descobriu Gompers. Ainda assim, 91 por cento dos investidores são homens, 86 por cento são brancos e 11 por cento asiáticos. A maioria trabalha em bancos, fundos de investimento e consultorias, e estudou em Harvard, Stanford ou na Universidade da Pensilvânia. 

E não é nada surpreendente que os antecedentes dos empreendedores que tiveram apoio sejam praticamente iguais. Noventa e um por cento são homens, 80 por cento são brancos e 16 por centos, asiáticos. A maioria têm diplomas de um grupo parecido de universidades e trabalhou em grandes empresas de tecnologia como o Google e a Microsoft. 

“O problema quando você tem cinco homens brancos que frequentaram a mesma escola de administração e trabalharam nas mesmas empresas é que suas redes de relacionamento se cruzam, então eles não escolhem de uma fonte muito ampla de fluxo de empreendimentos”, explica Gompers.

Sheila Lirio Marcelo, uma das fundadoras da Care.com, um serviço para ajudar as pessoas a encontrar cuidadores, ficou surpresa ao ver esse isolamento depois de crescer nas Filipinas, onde seus pais começaram negócios. Ela diz que uma das coisas mais importantes que fez foi procurar modelos e mentores masculinos, não apenas entre as mulheres. 

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“Diminuir a diferença de gênero nos negócios é, em geral, uma conversa que as mulheres têm umas com as outras. Nós realmente precisamos oferecer uma comunidade de apoio às mulheres, mas se vamos realmente nivelar o campo, os homens têm que fazer parte da equação”, diz ela. 

Existem várias maneiras de fechar a lacuna. Em outro artigo, Gompers e Wang descobriram que quando capitalistas de risco tinham filhas, possuíam menos preconceitos em relação às mulheres. Grupos de relacionamentos para mulheres, como o Astia, ou firmas de investimento lideradas por mulheres, como a Broadway Angels, podem ajudar. Assim como empreendedoras que falam publicamente sobre suas carreiras e que são mentoras de outras mulheres e futuras empresárias que se apresentam nas redes sociais ou em conferências, afirma Sheila Marcelo.

Ela também aconselha as mulheres a desenvolver uma casca grossa. 

“Os homens tendem a esquecer a rejeição mais rapidamente do que as mulheres. Mas é absolutamente verdade que os empreendedores se formam ou se acabam pela maneira com que se recuperam da adversidade.”

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