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Emprego Carteira de Trabalho
Emprego com carteira assinada avançou muito e taxa de desemprego está em queda. Mas cenário para 2022 inspira cautela.| Foto: Agência Brasília

A retomada da atividade econômica após a segunda onda da Covid-19 trouxe bons números para o mercado de trabalho. O desemprego caiu de 14,7%, em abril, para 13,7%, em julho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), do IBGE. E, conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia, o emprego formal avança sem parar há oito meses – em agosto, foram criados 372,3 mil postos de trabalho com carteira assinada, 53,5% a mais que no mesmo mês de 2020. Desde o início do ano, mais de 2,2 milhões de vagas desse tipo foram geradas.

Mais brasileiros estão ocupados, em diferentes tipos de trabalho. Conforme a Pnad, somando todos os trabalhos, o total passou de 85,9 milhões, no trimestre móvel encerrado em abril, para 89 milhões, no trimestre móvel encerrado em julho. De acordo com a mesma pesquisa, o número de pessoas empregadas com carteira assinada aumentou 1,03 milhão entre esses meses, e o contingente dos que atuam por conta própria cresceu 1,13 milhão.

Adriana Beringuy, analista da Pnad do IBGE, diz que a reação do mercado de trabalho está vinculada à dinâmica da economia. “Mais flexibilização, menos mediadas restritivas e o avanço na vacinação contribuíram para esse cenário mais favorável.”

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O crescimento mais significativo entre os empregos com carteira assinada veio no setor de serviços. Só em agosto foram 180,7 mil novas oportunidades de trabalho com carteira assinada. No ano, já são 927 mil, o que representa um incremento de 5% na força de trabalho formal setorial. “Há um aumento notável na procura por posições administrativas e de liderança”, diz Thiago Gaudêncio, sócio do PageGroup.

O economista sênior do banco MUFG Brasil, Maurício Nakahodo, aponta que outro fator que está contribuindo para a redução da taxa de desemprego é a sazonalidade. Tradicionalmente, ela cai no fim do ano.

Áreas como alojamento e alimentação, as mais atingidas pela pandemia, devem ser beneficiadas. Elas ainda não se recuperaram totalmente – no acumulado de 12 meses até agosto, o volume de serviços prestados encolheu 5,1% em relação a igual período anterior –, mas exibem melhora significativa nos últimos meses. Em agosto, por exemplo, essas atividades avançaram 46,2% em relação ao mesmo mês de 2020.

A analista do IBGE lembra que outros setores também vêm apresentando vigor no emprego. É o caso da construção, que abriu 238 mil oportunidades de trabalho desde o início do ano, o que assegura um crescimento de 10,47% na mão de obra empregada com carteira assinada nesse setor; e do comércio, com 383,1 mil postos de trabalho no ano.

Outro segmento que está em alta é o de tecnologia da informação. Nos 12 meses encerrados em agosto, ele acumula um crescimento de 20,1%, segundo o IBGE. “É a bola da vez. Tudo que estiver ligado a eficiência, automação, inteligência artificial e uso intensivo de tecnologia vai ter espaço”, diz Gaudêncio.

A tendência para os próximos anos nesta área é que apareçam mais vagas do que pessoal. Ele afirma que isto tende a manter a escalada nos salários que já se observa no setor. “Este movimento de digitalização e varejo online, por exemplo, está ganhando força”, ressalta Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter.

Renda pressionada

Ao mesmo tempo em que o emprego se recupera, a renda real (já descontada a inflação) do brasileiro experimenta uma queda de 8,8% no comparativo entre julho de 2020 e 2021. Segundo o dado mais recente do IBGE, o rendimento médio de todos os trabalhos é de R$ 2.508.

Um dos fatores que contribuíram para essa retração foi o aumento de informais no mercado de trabalho. Eles passaram de 21 milhões, no trimestre encerrado em julho do ano passado, para 25,2 milhões, no mesmo trimestre deste ano. Adriana lembra que a remuneração deles é bem menor do que quem ganha com carteira assinada. O rendimento médio dos formais era de R$ 2.366 no trimestre encerrado em julho, ao passo que os informais recebiam R$ 1.870.

Também pesa para a retração no poder de compra do brasileiro o aumento da inflação. Nos 12 meses encerrados em setembro, o IPCA acumula uma alta de 10,25%, de acordo com o IBGE.

Segundo Rafaela Vitória, do banco Inter, este problema é mais sentido pelas famílias de baixa renda, já que o aumento de preços está centralizado em itens em que é mais difícil fazer cortes, como a alimentação, a energia e os combustíveis. “A inflação dos serviços, que atinge mais a população de renda mais elevada, ainda é pequena.”

Os economistas da instituição financeira também lembram que a subocupação por insuficiência de horas trabalhadas atingiu 8,7% da força de trabalho no dado recente, ante 6,9% no pré-pandemia, o que ainda prejudica a retomada plena da massa salarial – que está 7,5% abaixo do nível de normalidade – e do consumo das famílias.

Avanço restrito do emprego em 2022

Novos avanços para o emprego no ano que vem devem ser mais limitados. As expectativas para o crescimento da economia em 2022 estão em baixa. Nas últimas seis semanas, elas caíram de 2% para 1,54%, segundo o relatório Focus, publicado pelo Banco Central. “A atividade brasileira retoma o crescimento anêmico que caracterizou os anos anteriores à pandemia”, apontam analistas do Inter.

Nakahodo, do MUFG Brasil, destaca que fatores como um ambiente de inflação mais elevada, juros em alta e problemas globais – como a desaceleração da China, a retirada dos estímulos à economia dos Estados Unidos e a alta no preço da energia – contribuem para aumentar as incertezas.

A economista-chefe do banco Inter aponta que, sazonalmente, o desemprego deve voltar a aumentar no primeiro trimestre do ano que vem e, na sequência, deve ter uma queda lenta e gradual em função do aperto monetário. As projeções da taxa Selic, a referência do juro, sinalizam para 8,75% ao ano no fim de 2022, segundo o relatório Focus, do Banco Central. Atualmente a taxa está em 6,25% ao ano.

O sinal amarelo já foi ligado. O Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp), do Instituto Brasileiro de Economia do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) recuou 3,1 pontos em setembro, para 87,0 pontos, menor nível desde maio.

"O resultado negativo ainda não sugere uma reversão da tendência de recuperação, mas liga o sinal de alerta sobre o ritmo da retomada nos próximos meses. A expectativa ainda é favorável, em especial puxado pelo setor de serviços que ainda tem espaço para recuperar o que foi perdido na pandemia, mas as turbulências do ambiente macroeconômico pesam contra a continuidade da recuperação no médio e longo prazo", afirma Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

Tendências e perfis para o emprego

Gaudêncio, do PageGroup, acredita que, nos próximos anos, quem vai dominar as contratações é o setor de serviços. “Eles têm uma necessidade de mudar rapidamente. E há um mercado consumidor de mais de 210 milhões de pessoas para ser atendido”, ressalta.

Ele avalia que a demanda por mão de obra qualificada tende a aumentar, especialmente em segmentos específicos. Profissionais com ensino superior completo são, justamente, os que apresentam a menor taxa de desemprego: 6,1%. Entre os que tem até o ensino médio completo, essa taxa é de 23%.

Um perfil deve ganhar destaque no atual cenário, aponta Gaudêncio: profissionais com muita capacidade de aprender, com flexibilidade e mais próximos das pessoas. “Isto nunca foi tão forte e ganhou mais espaço com a pandemia da Covid-19.”

Ele destaca que para as posições de liderança vai ser exigida menor rigidez, profissionais que tenham a habilidade de reconhecer que não sabem de tudo. “Vai ser preciso testar, testar, testar e aprender com os erros.”

Gaudêncio não acredita que nos próximos anos haverá uma explosão no salário fixo. Ele acredita que irá crescer a parcela de empresas que trabalham com remuneração variável, aquela ligada à performance.

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