O engenheiro civil e administrador de empresas Guilherme Valente deu seu primeiro passo rumo à bolsa com um simulador, em 2007, e hoje atua integralmente vendendo e comprando ações dentro de casa | Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
O engenheiro civil e administrador de empresas Guilherme Valente deu seu primeiro passo rumo à bolsa com um simulador, em 2007, e hoje atua integralmente vendendo e comprando ações dentro de casa| Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo

"Hoje o mercado vai ser complicado", alerta o engenheiro civil e administrador de empresas Guilherme Valente. Enquanto a tevê de sala dispara as primeiras informações do mercado financeiro, o investidor se posiciona em seu cockpit caseiro. Cercado por três monitores, Valente analisa o fechamento das bolsas asiáticas tentando prever como será a abertura do pregão da Bovespa, dali a 20 minutos.

Desde 2008, o profissional transferiu para o escritório de casa a tarimba adquirida em 13 anos de mesa de operações e análise de crédito corporativo. Ele é uma das 200 mil pessoas, de acordo com dados da BM&FBovespa, que atuam como home-brokers, comprando e vendendo ações pela internet sem a intermediação de uma corretora de valores, que nesses casos atuam apenas como fornecedora de acesso ao pregão.

Naquele dia, Valente almejava comprar um pacote de quinhentas ações da Gerdau, às quais vinha namorando havia algum tempo. O investidor estava animado com o comportamento dos papéis, que em 2009 já tinham lhe garantido lucratividade duas vezes, após operações de compra e venda. Quando o preço de abertura foi estabelecido, a R$ 20,70, Valente decidiu avançar para o notebook e registrar a oferta. O site, porém, inistia em não finalizar a ordem, respondendo com caixas de diálogo que exigiam a inserção da assinatura digital do usuário. Com as mãos trêmulas e um pouco envergonhado na frente da reportagem, Valente procura a senha em um caderno de anotações. Após duas tentativas infrutíferas, desiste temporariamente da transação. Naquele momento, as ações haviam subido para R$ 20,72, comendo R$ 10 de lucro por causa de dois minutos de atraso.

Popularização

As bolsas de valores representam um dos fenômenos econômicos mais vibrantes do capitalismo moderno. Desde a criação dos primeiros certificados de capitais, no século 17, a negociação de ações e derivativos multiplicou sua importância nas economias desenvolvidas. Estima-se que hoje o tamanho do mercado de ações mundial seja de US$ 36,6 trilhões. Pela mesma estimativa, os derivativos de mercado totalizariam US$ 791 trilhões em valor nominal de face, o equivalente a 11 vezes o tamanho da economia mundial.

Segundo levantamento da BM&FBovespa, o Brasil tem hoje 550 mil investidores na Bolsa de Valores, somando desde trabalhadores que utilizaram o FGTS para comprar ações da Petrobras até bancos e fundos de pensão. O número, porém, é considerado ampliável pela Bovespa, que almeja alcançar 5 milhões de acionistas participando do mercado financeiro. Recentemente, a instituição lançou uma campanha publicitária destinada a popularizar o mercado financeiro entre os brasileiros. Usando Pelé como garoto-propaganda, a campanha "Quer ser sócio?" compara o comportamento de uma empresas de capital aberto com a carreira do famoso jogador de futebol. Em ambos, o desempenho "dentro de campo" é responsável por valorizações de longo prazo.

Jogo

Guilherme Valente define as operações em bolsa como um jogo de disciplina e equilíbrio. "Uma pessoa pode aplicar dinheiro e dizer que se permite perder até R$ 500, mas, quando vê na tela uma queda de R$ 300, se desespera e vende, eliminando a possibilidade de recuperação. Agora, se você aplica R$ 20 mil e começa a ver a ação cair, vai querer vender de volta e ver seu dinheiro indo para a mão dos caras?", indaga.

Quando começou a ensaiar uma entrada em tempo integral na bolsa, em 2007, Valente utilizou um simulador – com dinheiro de "mentirinha" – para testar as possibilidades reais de ganhos. Ele afirma, no entanto, que sem a possibilidade real de perda o candidato a home-broker não cria os calos necessários à modalidade.

Como exemplo, ele lembra do fatídico dia 23 de outubro de 2008, quando o índice Ibovespa "derreteu", deprimido pela crise econômi­ca. "Se naquele momento vendesse todas as minhas ações, perderia R$ 25 mil sobre R$ 45 mil investidos. Então lembrei de um documentário sobre a família Schür­man que, não podendo vencer a tempestade em alto-mar, fecha as escotilhas e deixa que a força da água conduza o barco", compara. Dois anos de­­pois, ele afirma que "praticamente todos" os seus papéis recuperaram o valor pré-crise.

Extremo oposto, Valente cita a Oferta Pública de Ações (OPA) feita pela Bovespa em 26 de novembro de 2007, para abertura de capital. "Comprei um lote de ações na abertura do pregão, por cerca de R$ 10 mil, e vendi no final da tarde por R$ 15 mil. Daí desliguei o computador e fui para o shopping tomar um chope", lembra.

Estilos

Por causa da dinâmica que diferencia o mercado acionário dos outros tipos de negócios, a bolsa de valores é constantemente comparada a uma mesa de cassino. E o termo especulador (do indogermânico "spec", olhar, aquele que olha à frente) ganhou uma conotação negativa. Em tempos de crise, principalmente, quando são acusados de envenenar a economia real.

As críticas à especulação recaem principalemente sobre "daytraders" e "swingers", que colocam dinheiro nas empresas e retiram no mesmo dia ou, no máximo, no dia seguinte. Em tempos de choque, este é o primeiro capital a desaparecer da economia.

Mas para valorizações de longo prazo, papéis de empresas tradicionais se mostram aplicações mais rentosas que as tradicionais cadernetas de poupança, por exemplo. Neste caso, o sobe-e-desce diário das ações é irrelevante, desde que a empresa demonstre continuar sólida no mercado, crescendo, lucrando e distribuindo dividendos.

Corretor

"A partir do momento que você conhece a bolsa de valores, você se apaixona", declara Rodrigo Dalberto, sócio da mesa de operações curitibana da Interbolsa do Brasil. Formado em odontologia, Dalberto abandonou o atendimento em consultório para se dedicar em tempo integral às operações financeiras. A educação para os negócios foi iniciada pelo pai, um bancário sempre disposto a dar as melhores dicas de investimentos, e aprimorada pelo uso do home-broker, usado no intervalo entre dois clientes e após o expediente. "Comecei a ver que no home-broker eu tinha condições de administrar diretamente a minha carteira de investimentos. Me especializei, fiz cursos e então decidi mudar de profissão", conta.

Para o corretor, o home-broker pode ser considerado a porta de entrada para o mercado de capitais. "O interessado tem que perder o medo do home broker. É uma forma de investir muito mais vantajosa do que, por exemplo, os fundos de ações, que cobram taxa de administração de 2,5% e ainda taxa de performance", defende. Segundo ele, as primeiras compras de ações devem ocorrer no início da vida ecônomica, ainda na juventude. "Aos 20 anos de idade, as compras de ações proporcionarão uma progressão geométrica dos investimentos. Quanto mais jovem se é, maior é a parcela de risco que pode ser assumida. Porém um investidor de 50 anos, que já visualiza a aposentadoria, precisa ser mais conservador. Para estes, uma boa opção é formar uma carteira de dividendos, que tem risco menor e realiza diversos pagamentos por participação", diferencia.

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