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O início de 2012 foi particularmente movimentado em Meseberg: a chanceler alemã recebeu nove chefes de governo europeus | Gordon Welters/The New York Times
O início de 2012 foi particularmente movimentado em Meseberg: a chanceler alemã recebeu nove chefes de governo europeus| Foto: Gordon Welters/The New York Times

Futuro

Elite alemã discute grau ideal de integração política e econômica

Enquanto a França está concentrada na difícil batalha pela reeleição do presidente Nicolas Sarkozy contra seu oponente socialista, François Hollande, a classe política e a inteligência alemã estão engajadas em uma séria discussão sobre o quanto aprofundar a integração política e econômica sem entrar em conflito com um eleitorado cansado da crise e do resgate.

Planos em discussão para transferir mais responsabilidades para Bruxelas (sede da cúpula da União Europeia) incluem uma maior supervisão dos orçamentos nacionais pela UE e a coordenação das políticas fiscais. Angela Merkel também se pronunciou a favor de uma maior união política, para dar legitimidade às instituições europeias regularmente acusadas de serem antidemocráticas, o que poderia ser visto como um passo hesitante em direção ao federalismo.

"Há um sentimento muito forte dentro da classe política alemã de que as coisas não serão as mesmas depois que isso acabar", afirma Thomas Risse, professor de Relações Internacionais na Universidade Livre de Berlim. "Há um consenso de que a União Europeia vai mudar profundamente depois disso e que ela deve se tornar mais integrada, em especial no sentido econômico", prevê.

Sob o regime comunista, o palácio barroco do século 18, situado à beira de um lago nesta vila no estado de Brandemburgo, abrigava nove famílias no andar de cima e, no andar de baixo, uma filial da Konsum – como era conhecida a mercearia da Alemanha Oriental. Depois de uma reforma multimilionária realizada há vários anos, o castelo agora serve para a chanceler Angela Merkel como uma versão de Camp David, o retiro presidencial dos Estados Unidos. Enquanto os líderes deliberam sobre o caminho para a União Europeia, esta vila de 149 habitantes se tornou o cenário improvável de reuniões altamente confidenciais sobre o futuro da Europa. Que continua incerto, a julgar por notícias preocupantes vindas dos bancos espanhóis nos últimos dias.

No fim de fevereiro, Mer­kel convidou três primeiros-ministros – Enda Kenny, da Irlanda, Petr Necas, da República Tcheca e Valdis Dombrovskis, da Letônia – para uma taça de vinho e uma conversa particular. A pauta incluía não apenas os pacotes de ajuda para a Grécia e outros assuntos da atualidade, mas também questões de longo prazo sobre como cada um via o futuro do continente.

Na semana anterior, ela havia reunido os líderes da Dinamarca, da Estônia e da Holanda para um jantar em Meseberg. Em janeiro, foi a vez de o chanceler austríaco e os primeiros-ministros de Portugal e da Suécia experimentarem a hospitalidade alemã no elegante palácio a uma hora de distância ao norte de Berlim.

Segundo afirmou Steffen Seibert, porta-voz de Merkel, "a chanceler dá muita importância para reuniões eventuais sem uma pauta formal, para promover um diálogo sobre o futuro". No papel de líder da maior economia europeia e do único país com recursos financeiros para resgatar os países endividados da zona do euro, Merkel revelou que seu poder e sua influência têm crescido consideravelmente durante a crise europeia. Embora evite grandes gestos, ela foi muito mais longe nos bastidores ao tomar a iniciativa e assumir o papel de verdadeira líder da Europa.

Discurso após discurso, Merkel afirma que a Ale­manha e a União Eu­ropeia precisam ser "mais Europa, não menos Europa". Os analistas afirmam que isso não é apenas um discurso vazio. "O argumento pró-europeu está chegando", diz Ulrike Guerot, pesquisadora sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores em Berlim. "A atitude é ‘colocamos bilhões no jogo para consertar as coisas. Agora, devemos formar um projeto a partir disso’", descreve.

Privacidade é atrativo para visitantes ilustres de Merkel

As autoridades de Meseberg valorizam o reconhecimento e a melhoria da imagem que vieram com o fato de a cidade ter se tornado o local onde o governo recebe suas visitas, mas isso nem sempre é algo fácil para a vila. "É bastante cansativo, com tudo sendo revistado e conferido", afirmou Ulrike Koch, 22 anos, que estava a caminho de visitar os sogros. Em uma recente visita, as ruas de Meseberg ficaram vazias, a não ser por um trator que passava em frente aos portões principais e por dois policiais que faziam a guarda da entrada.

A localização distante dos holofotes da imprensa da capital é um dos atrativos, naturalmente. Os dignitários que visitam o castelo podem passear pelo jardim, ou, como fez o presidente George W. Bush durante sua visita em 2008, andar de bicicleta ao redor de Meseberg. O porão do castelo já foi a cozinha de uma cooperativa de agricultura da região. Agora abriga o bar de vinhos da chanceler, com lugar para 30 convidados.

"Dar uma mentalidade de sala de visita para a reunião, ‘venha até aqui e passe um tempo comigo em minha casa’, lhes dá uma sensação de intimidade", afirma Jackson Janes, diretor-executivo do Instituto Americano de Estudos Alemães Contemporâneos, na Universidade John Hopkins, em Washington.

Para Merkel, que cresceu a mais ou menos uma hora dali, na cidade de Templin, Meseberg e sua relação com a Alemanha Oriental também dão a ela a oportunidade de contar sua própria história. "Ela pode dizer ‘para mim, é daqui que veio todo o conceito da construção de uma Europa mais ampla’", afirma Jones.

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