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Ganha força o rumor de que a União vai ter que socorrer a Caixa

A direção do banco e alguns especialistas descartam a necessidade de capitalização. Mas há quem veja a injeção de dinheiro como bastante provável

  • PorFernando Jasper
  • 20/06/2016 22:00
 | Antônio More/Gazeta do Povo/Arquivo
| Foto: Antônio More/Gazeta do Povo/Arquivo

A Caixa Econômica precisa de socorro do governo? Antes o rumor corria à boca pequena, agora circula até por jornais do exterior, o que alimenta outros boatos, como o de uma fusão com o Banco do Brasil. A direção da Caixa e alguns especialistas descartam a necessidade de capitalização, mas há quem veja a injeção de dinheiro como bastante provável.

Dívidas de “gigantes” podem influenciar

Para Luiz Miguel Santacreu, da Austin Rating, um dos aspectos que vai influenciar a qualidade do crédito – não só da Caixa, mas de outros grandes bancos – são as renegociações de dívidas de grandes empresas. A Oi, por exemplo, acaba de pedir recuperação judicial. “Os bancos já vêm aumentando as provisões. No caso da Caixa, temos que ver se isso não vai culminar em queda do lucro ou até prejuízo.” Segundo relatório do Deutsche Bank, a exposição da Caixa à Oi é de R$ 2,5 bilhões.

Segundo analistas ouvidos pela Bloomberg, a União terá de colocar recursos na Caixa num prazo entre 12 e 18 meses, a fim de garantir que o banco cumpra as exigências de capital da regulação. O valor dessa ajuda poderia chegar a R$ 25 bilhões, quase 2% de toda a receita da União em 2015. É como se cada brasileiro fosse convidado a contribuir com pouco mais de R$ 120 para ajudar o banco.

Confira a evolução das provisões (dinheiro para cobrir prováveis calotes) e do lucro da Caixa

Aporte ampliaria oferta de crédito, diz especialista

Nomeado pelo presidente interino Michel Temer, o presidente da Caixa, Gilberto Occhi, tem reiterado que não há “esqueletos” e negado a hipótese de aporte. Ele já declarou contar com outras fontes de recursos, entre elas a abertura de capital da Caixa Seguridade, a venda do direito de oferecer seguros nas agências do banco e a negociação de 51% da área de loterias instantâneas. O que não fica claro, nesse discurso, é qual será o fôlego da instituição caso essas transações não avancem.

Ao fim de março, o chamado Índice de Basileia da Caixa era de 13,7%, o que significa que, de cada R$ 100 emprestados, o banco tinha um patrimônio de R$ 13,7. O número está acima do mínimo de 10,5% exigido pelo Banco Central, mas piorou nos últimos trimestres: em março de 2015, estava em 14,6%. No mesmo intervalo, os indicadores de Banco do Brasil, Itaú e Bradesco subiram, chegando a 16,2%, 17,6% e 16,9%, respectivamente.

Se os lucros da Caixa continuarem recuando, o Índice de Basileia tende a cair mais, o que obrigará o banco a levantar recursos. Cauteloso, o analista Luiz Miguel Santacreu, da agência de classificação de risco Austin Rating, ainda não vê necessidade de capitalização. “Sempre há uma defasagem entre a publicação do balanço e o que pode ter ocorrido nos meses seguintes. Mas, até o fim de março, o banco apresentava um nível patrimonial que não era crítico a ponto de exigir aumento de capital”, diz.

Fusão com o BB?

A Caixa descarta uma fusão com o Banco do Brasil, hipótese levantada pela revista Exame. Para Alberto Borges Matias, professor de Finanças da USP, a transação “não faria sentido”: “Os bancos têm composições diferentes, processos diferentes, atuam em nichos diferentes. Não geraria ganho de escala, apenas confusão”.

Calotes

Outro número acompanhado pelo mercado é o da inadimplência, que subiu para todos os bancos. O porcentual de atrasos de mais de 90 dias na carteira de crédito da Caixa subiu de 2,85% em março de 2015 para 3,51% no mesmo mês deste ano, ainda em linha com a média do setor (3,55%).

Mas o consultor Fernando Meibak, sócio da Moneyplan Consultoria, vê inconsistências nos números apresentados pela Caixa. “É altamente provável que a carteira de crédito esteja mais deteriorada. Acho que uma gestão mais rigorosa teria feito provisões maiores para inadimplência”, avalia Meibak, que passou pela direção de bancos como UBS, Citibank, ABN-Amro Real e HSBC.

Uma fonte que acompanha de perto a situação da Caixa descarta essa hipótese. “A possibilidade de esqueleto não existe. Além de ser supervisionada pelo Banco Central, a Caixa é auditada pelo Tribunal de Contas da União e pelo Ministério da Transparência. Um problema assim não passaria despercebido”, diz.

Segurar dividendos pode ajudar o caixa do banco

Uma forma de segurar recursos em caixa é pagar menos dividendos. De 2010 a 2014, a Caixa repassou à União 100% dos lucros. No ano passado, o montante baixou a 34%, e é provável que o repasse de 2016 fique próximo disso. O mínimo exigido pelo estatuto é de 25%.

Aporte ampliaria oferta de crédito, diz especialista

O professor de Finanças da USP Alberto Borges Matias acredita que a Caixa e a economia teriam muito a ganhar com uma injeção de recursos. O aporte, diz o especialista, ajudaria o banco a ampliar a oferta de crédito, em especial imobiliário, e consequentemente destravar a atividade econômica.

“O que não pode é ficar segurando o mercado do jeito que a Caixa está segurando desde a gestão do Joaquim Levy [ministro da Fazenda em 2015]. Expandir o crédito imobiliário é de suma importância para o banco e para o país”, argumenta Matias.

Para ele, o Tesouro não teria dificuldades em ajudar a Caixa com os R$ 25 bilhões calculados por alguns analistas. “Para quem prevê um déficit primário de R$ 170 bilhões, que diferença faria um déficit de R$ 195 bilhões? Fora que, ao expandir as operações de crédito, a Caixa lucraria mais, ampliando na sequência o repasse de dividendos ao Tesouro”, diz.

Na Caixa, a avaliação é de que há espaço para ampliar o crédito sem a necessidade de capitalização, apurou a Gazeta do Povo. A carteira de empréstimos, que estava em R$ 684 bilhões ao fim de março, poderia ser ampliada em aproximadamente R$ 120 bilhões, dos quais R$ 50 bilhões ainda neste ano.

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