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Na guerra do comércio global, os países lutam para conquistar território para seus produtos. Vender para o exterior significa renda e emprego em casa, fórmula conhecida da teoria econômica para estimular a economia interna em momentos de crise, como o atual. Em busca de um "exército" mais eficiente, os governos tornam seus serviços e produtos mais baratos por meio da desvalorização de suas moedas. É uma outra forma de ser protecionista. Nesse tabuleiro, pelo peso de suas economias, EUA e China são as principais forças em ação. A guerra cambial se espalha em três principais frentes. Na China, o governo impede uma valorização mais rápida de sua moeda, o yuan. Os países ricos, especialmente os EUA, utilizam uma política monetária expansionista, imprimindo mais dinheiro. Por fim, os países emergentes tentam se proteger dos ataques chineses – produtos baratos – e americanos – entrada de dólares.

ESTADOS UNIDOS

Em crise, os EUA buscam medidas para defender a sua própria economia. Como o comércio global é realizado em dólares, essas ações têm impacto direto em todos os países de mercado aberto. Os americanos também possuem a munição mais desejada dessa guerra: a capacidade de imprimir mais dólares. Protegendo e atacando Para estimular o mercado interno, os EUA adotam ações que, em última instância, estão desvalorizando o dólar. Dólar desvalorizado costuma significar prejuízo para os países exportadores, porque seus produtos ficam mais caros.

Duas frentes Os EUA atuam principalmente em duas frentes: mantêm os juros a um nível próximo de zero e imprimem dólar para a compra de ativos, como hipotecas e títulos de dívida pública. A intenção é dar mais liquidez às instituições financeiras do país, estimulando o crédito e, por conseqüência, o consumo. O problema é que muito desse dinheiro acaba escapando para outros países, em forma de investimento, onde as taxas de juros são maiores, ou seja, a rentabilidade de um investimento é maior.

Munição americana

Na guerra cambial, os EUA possuem a arma mais poderosa, com poder infinito de munição: a capacidade de imprimir dólares e inundar o mundo com a moeda. Independentemente do que aconteça e do que façam os outros países, portanto, osamericanos, no fim, vão vencer essa guerra. A questão é em que momento o país voltará a elevar sua taxa de juros e a valorizar o dólar.

BRASIL

O Brasil, assim como os outros países emergentes, tem pouco poder de ataque e faz o que pode para se defender. O governo brasileiro busca medidas que tentam evitar a apreciação do real, apesar do grande fluxo de capital que vem direção ao país. O sabotador O ponto fraco brasileiro são suas taxas de juros excessivamente altas. Com taxa Selic de 10,5% ao ano, o Brasil é muito atrativo para investidores estrangeiros. O juro é alto para não dar corda para a inflação. É quase consenso entre os economistas que a melhor solução para o problema é a contenção de gastos públicos, o que levaria a uma redução dos juros.

Vitoriosos

A guerra cambial também tem seus vencedores. Os importadores, por exemplo, ganham quando o dólar está mais baixo. Turistas brasileiros também têm vantagens, porque gastam menos com a viagem e as compras em outros países

Escudo brasileiro

O país tentou criar um escudo contra a entrada de dólares, ao taxar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para a entrada de capital externo (dólar), desincentivando a vinda de especuladores. Mas numa guerra em que China e EUA são os principais atores, a arma brasileira é praticamente inofensiva. A outra iniciativa brasileira é a retirada de dólares do mercado, que são comprados pelo Banco Central. Mas, em ambos os casos, as medidas ainda tiveram pouco efeito.

EUROPA

A Europa está no meio do fogo cruzado entre China e EUA, com poder de fogo bastante reduzido. Por se tratar de um bloco de países, medidas para desvalorizar ou valorizar o euro se tornam especialmente complicadas, porque precisam de um consenso entre os países que é difícil de ser alcançado. Por opção, a Europa não embarca na guerra cambial, ainda que tenha muitos problemas a serem resolvidos em sua economia. Alemanha e Holanda, por exemplo, possuem grande superávit no comércio global, enquanto outros países, como Espanha e Itália, apresentam déficits.

CHINA

A China é alvo de uma invasão de dinheiro externo, de empresários de todo o mundo que fabricam no país. Segundo a lei da oferta e da demanda, o investimento estrangeiro deveria valorizar o yuan -- quanto maior a demanda, maior o valor da moeda. Isso não acontece porque o governo chinês se protege imprimindo mais dinheiro, deixando a demanda e a oferta pela moeda equilibrada.

Tropa de choque

Com o yuan artificialmente desvalorizado, a China possui uma verdadeira tropa de choque para invadir praticamente qualquer país – seus produtos a um custo baixíssimo. Quem é mais atingido são os produtores dos países que importam da China, que não conseguem competir com os produtos a um custo menor e acusam os chineses de distorcer o mercado global.

Bomba chinesa

A frente chinesa é a que tem o maior potencial para transformar a guerra cambial numa verdadeira guerra comercial. Pressionado por seu público interno, países ricos e emergentes pressionam a China a deixar o yuan valorizar. O país promete há anos que isso vai acontecer, e de fato vem ocorrendo, mas numa velocidade muito menor do que os outros países gostariam. A questão é quanto tempo os outros países que se sentem prejudicados pelo yuan irão aguentar até tomarem medidas ainda mais protecionistas, como a imposição de tarifas contra os produtos chineses.

E O FIM?

Os líderes dos 20 países mais ricos do mundo se encontraram na quinta e sexta-feira para discutir a guerra cambial. Saíram de Seul, na Coreia do Sul, da mesma maneira que entraram: falando alto, apontando culpados, mas sem fazer concessões. No máximo, conseguiram concordar em uma "repreensão moral" contra a manipulação das moedas. Até mesmo a China assinou o termo de compromisso do fim da cúpula que pede câmbio flutuante, regido pelas forças do mercado, o que mostra que o termo tem efeito prático nulo.

A grande questão agora é saber se as atuais medidas de política monetária vão se transformar em protecionismo comercial, o que poderia levar o mundo a uma nova recessão. Na ponta mais fraca desse cabo de forças estão os países emergentes, que tentam se proteger da grande quantidade de dinheiro externo que inunda seus mercados. A preocupação é razoável quando avaliada a possibilidade de bolhas decorrentes dessa invasão de investimento estrangeiro. Mas se as medidas visam apenas desvalorizar suas moedas, é difícil que consigam algum resultado. Se vão passar a adotar tarifas e subsídios, ou seja, medidas efetivamente protecionistas, dependerá do desempenho de suas economias nos próximos meses. Tudo também dependerá de como vai se comportar a economia norteamericana. Se o consumo e os empregos voltarem a crescer, o país pode novamente começar a aumentar os juros, o que acabaria por valorizar o dólar perante as outras moedas e, como conseqüência, a corrente de comércio global retornaria a um patamar de equilíbrio.

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