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O Congresso Nacional, visto a partir do Palácio do Planalto: medidas que o governo enviou ao Parlamento, como o Auxílio Brasil e a PEC dos precatórios, ampliaram a percepção de risco nas contas públicas, com efeitos sobre dólar, juros e inflação.
O Congresso Nacional, visto a partir do Palácio do Planalto: medidas que o governo enviou ao Parlamento, como o Auxílio Brasil e a PEC dos precatórios, ampliaram a percepção de risco nas contas públicas, com efeitos sobre dólar, juros e inflação.| Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Uma confluência de fatores desde o início da pandemia tem contribuído para manter a inflação pressionada. Em março de 2020, no início da pandemia, o ponto médio das expectativas de instituições financeiras era de uma inflação de apenas 3,7% em 2021, segundo o relatório Focus, do Banco Central. Hoje, após 19 semanas seguidas de alta, a previsão é de 7,12%.

E para chegar nesse patamar – que é muito superior ao limite máximo da meta de inflação perseguida pelo BC, de 5,25% –, a inflação terá de desacelerar significativamente nos próximos meses. Isso porque hoje ela está próxima de 9% ao ano – mais precisamente, 8,99%, segundo o IPCA acumulado em 12 meses até julho.

Em paralelo aos vários fatores que já pressionavam a inflação, o governo federal acrescentou um problema: o risco fiscal. Nas últimas semanas, o mercado passou a temer que a proximidade das eleições leve a um descontrole das contas públicas – o que tem piorado as perspectivas para a inflação também em 2022, em meio a um movimento de rápida elevação do dólar e dos juros futuros. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fez pelo menos três alertas sobre essa questão num intervalo de seis dias.

“Estamos vivendo uma tempestade perfeita”, sintetiza o pesquisador e economista Matheus Peçanha, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Alta das commodities, dólar, quebra de cadeias produtivas, combustíveis, energia elétrica, frio e retorno das atividades e dos serviços fazem parte do rol de explicações de analistas para justificar a elevação nos preços.

O economista sênior da Tendências Consultoria Sílvio Campos Neto aponta que há uma série grande de problemas do lado da oferta, que vêm se sucedendo e complicando o combate à inflação.

Os mais recentes são a crise hídrica, que forçou o aumento do preço da energia elétrica, elevando os custos industriais; o frio, que com reflexo nos alimentos, principalmente hortifrutigranjeiros; e a retomada das atividades. As passagens aéreas, por exemplo, ficaram 35,22% mais caras no mês passado.

Os economistas do Itaú avaliam que fatores transitórios estão aumentando os preços. Em relatório publicado no dia 12, eles apontam que, apesar do crescimento econômico significativamente acima do potencial neste ano, as economias [da América Latina e do Caribe] continuam operando com bastante capacidade ociosa.

“No entanto, os preços altos das commodities, a escassez de insumos específicos, preços mais altos cobrados por serviços sensíveis à reabertura e (em alguns casos) moedas mais depreciadas elevam a inflação.”

Cenários futuros

Para o economista-chefe do banco MUFG Brasil, Carlos Pedroso, a alta na inflação anual vai até este mês e cai em seguida, chegando em dezembro ao nível de 7,2%. “A variação de preços em 12 meses está muito contaminada pela inflação passada. De janeiro a julho, os combustíveis, a energia elétrica e os alimentos tiveram uma forte alta."

Ele destaca que o problema não é restrito ao Brasil. Outras economias, diante do cenário da recomposição da demanda mundial, também passam pelo problema. A expectativa do Fundo Monetário Internacional é de que a economia mundial cresça 6% neste ano, depois de uma retração de 3,3%, em 2020.

Embora o mercado espere alguma desaceleração da inflação nos próximos meses, o fato é que as divulgações mensais do IPCA ainda têm apontado índices elevados. Tanto que as expectativas das instituições financeiras para o índice ao fim do ano, reportadas pelo Banco Central, subiram sem trégua nas últimas 19 semanas – o que sugere que o ponto médio das projeções, hoje em 7,12%, ainda pode avançar. As previsões para 2022 são de uma inflação muito mais comportada, pouco abaixo de 4%. Porém, também estão em alta: elas aumentaram nas últimas quatro edições do boletim Focus.

A retomada da demanda está favorecendo a alta do petróleo. Desde janeiro, o preço do barril aumentou 38% em dólares, segundo a plataforma Investing.com. Isso se refletiu nos preços dos combustíveis. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, desde então, o litro da gasolina foi corrigido em 27,5%; o do diesel, em 25,8 % e o do gás de cozinha, em 20,9%.

"Azar" no combate à inflação

Segundo Peçanha, do Ibre/FGV, o Banco Central teve “azar” no combate à inflação, tendo de enfrentar um problema atrás do outro no lado da oferta. Desde março, a taxa básica de juro (Selic) vem aumentando. Ela passou de 2% ao ano para 5,25%, e deve subir mais nas próximas reuniões.

Campos Neto, da Tendências, avalia que o BC fez o que estava ao seu alcance durante a pandemia, ao adotar uma política monetária mais expansionista, levando a Selic para a mínima histórica de 2% ao ano.

A expectativa é de novas altas de juros para os próximos meses. A projeção mais recente divulgada no Relatório Focus sinaliza para uma Selic de 7,25% no final do ano. Mas a XP Investimentos alerta que, se o risco de deterioração fiscal se materializar, a taxa básica pode ficar acima de 9% ao fim do ciclo de ajuste monetário.

Os primeiros efeitos da alta na Selic já são sentidos, com o câmbio não avançando mais e o estancamento da deterioração das expectativas para 2022, diz o economista da Tendências. Mas os impactos mais fortes, como a desaceleração da atividade econômica, só devem ser vistos no ano que vem.

Peçanha avalia que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia ser um pouco mais ousado. “A Lei de Diretrizes Orçamentárias [LDO, uma prévia do próximo Orçamento] veio projetando um déficit acima do esperado. E apontou para despesas bem elevadas, como é o caso do Fundo Eleitoral.”

Preocupação do lado fiscal

Analistas consultados pela Gazeta do Povo veem uma falta de preocupação do lado fiscal, em que pese o primeiro semestre ter sido marcado por um tom mais positivo das contas públicas, impulsionado principalmente pela força das receitas tributárias.

No primeiro semestre, a arrecadação federal teve um crescimento real (já descontada a inflação) de 5,8% em relação ao mesmo período de 2019, quando não havia a pandemia.  E, ao longo do ano, o déficit primário acumulado em 12 meses caiu de 9,4% para 3,8% do PIB, fazendo com que a dívida bruta caísse de 89% para 84% do PIB.

A XP Investimentos aponta que o desempenho dos governos regionais segue historicamente forte “na esteira não somente de caixas abastecidos desde as transferências do ano passado e do programa de renegociação de dívidas com a União, mas também de robusta arrecadação, especialmente de ICMS.”

Mas o efeito da melhora nas contas públicas durou pouco, sendo impactado pela incerteza que tomou conta da trajetória fiscal de longo prazo. “Discussões paralelas acabam impactando negativamente nas expectativas”, diz Peçanha, do Ibre/FGV. Entre elas estariam as discussões de fontes de financiamento do Auxílio Brasil, com valores e extensão maior do que o Bolsa Família, e o aumento de pagamentos previstos com precatórios.

Segundo o economista da Tendências, é preciso uma postura mais firme do lado fiscal, para evitar o aumento dos riscos.

Num intervalo de seis dias, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, deu pelo menos três recados nessa mesma direção. Na sexta-feira (13), ele afirmou que para o órgão trabalhar com juros baixos e ter eficiência em suas ações é necessário fortalecer a mensagem de credibilidade fiscal. Na terça (17), disse que as expectativas de inflação para 2022 pioraram por causa da "grande quantidade de ruído" provocada por medidas do governo – o Auxílio Brasil e a PEC dos precatórios. E voltou à carga nesta quinta (19), afirmando que "o ruído fiscal parece ser predominante" nas expectativas de inflação e disse que, na avaliação do mercado, a questão está relacionada a uma "disposição do governo para criar um programa [social] melhor às eleições".

Pedroso, do MUFG Brasil, lembra que a questão fiscal é mais complicada de se trabalhar pois envolve negociações políticas, tradicionalmente mais complexas, e a adoção de medidas que podem se mostrar impopulares. “Aí complica o cenário para o combate à inflação.”

Dois indicadores que estão refletindo essa maior tensão nas contas públicas são o câmbio e o risco-país. Depois de estar cotada a R$ 4,90 no fim de junho, a moeda americana chegou à casa dos R$ 5,40 nesta quinta-feira (19). E o CDS de cinco anos, que mede o risco de investir no país, passou de 157,5 pontos em 29 de junho para 180,8 pontos, por volta das 10h desta quinta – um aumento de 15% em apenas um mês e meio.

“E há um agravante: a pressão por gastos tende a aumentar em períodos eleitorais”, diz o economista da Tendências.

Conteúdo editado por:Fernando Jasper
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