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Investimento estrangeiro
Expectativa é de que entrem US$ 58 bilhões em investimentos estrangeiros no setor produtivo brasileiro em 2022, ainda abaixo do padrão pré-pandemia.| Foto: Unsplash

O investimento direto no país (IDP) – o conjunto de recursos aplicados por estrangeiros no setor produtivo – ainda não se recuperou do tombo causado pela Covid-19. E a recuperação só deve vir depois das eleições de outubro. Dados divulgados pelo Banco Central (BC) nesta quarta mostram que entraram US$ 46,4 bilhões em investimento estrangeiro no ano passado, 23% a mais que em 2020. Em 2019, antes da pandemia, tinham entrado US$ 69,2 bilhões.

O desempenho foi fortemente afetado pelos números de dezembro, que teve o pior resultado da série histórica, iniciada em 1995. No mês, saíram US$ 3,9 bilhões, principalmente depois do dia 20. Segundo o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, o número está relacionado às remessas de lucro feito por empresas que operam no Brasil às matrizes no exterior.

O número é o terceiro negativo da série histórica. Os outros dois ocorreram em março de 1995 e julho de 2016. Isto significa que as empresas remeteram, ao exterior, recursos que já tinham sido investidos no Brasil. “O número é um ponto fora da curva. É algo atípico, pontual e que não se projeta para os próximos meses”, afirma Rocha.

Os números melhoraram neste início de 2022. O BC aponta que, no ano, até o dia 21 tinham entrado US$ 2,3 bilhões em IDP. A expectativa, segundo projeções de instituições financeiras, é que este valor encerre o ano em US$ 58 bilhões, informa o relatório Focus, abaixo da média dos últimos dez anos, que é de US$ 70 bilhões.

Para os próximos anos, as expectativas melhoram e voltam aos patamares históricos: US$ 70 bilhões em 2023; US$ 78 bilhões em 2024; e US$ 79,5 bilhões, em 2025.

“As empresas não têm ideia do cenário após as eleições. Há uma falta de confiança nas instituições e o avanço de posturas políticas populistas”, diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos.

Cristiane Quartaroli, economista do banco Ourinvest, lembra que o pano de fundo do Brasil não é dos melhores. Além das eleições, há uma política monetária mais restritiva, com aumento de juro em fevereiro e um crescimento econômico que, no melhor dos cenários, será tímido neste ano.

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, complementa afirmando que este ano será marcado pela volatilidade e pela instabilidade. “São questões circunstanciais que favorecem entrada de recursos estrangeiros. O Brasil deixou de ser interessante há tempo e perdeu espaço para os países do sudeste asiático”, complementa.

Unctad é mais otimista quanto ao investimento estrangeiro

Dados mais otimistas sobre o investimento estrangeiro no setor produtivo foram divulgados na semana passada pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês). Segundo estimativa da entidade, no ano passado entraram US$ 58 bilhões, contra os US$ 28 bilhões registrados no ano anterior. Mesmo assim, os números são piores dos que os da pré-pandemia. Em 2019, tinham entrado US$ 65,4 bilhões, segundo a organização.

De todo modo, o Brasil ganhou uma posição no ranking de principais destinos que atraíram recursos, segundo a Unctad. Em 2021, foi o sétimo, atrás de EUA, China, Hong Kong, Cingapura, Reino Unido e Canadá.

Dois fatores estão por trás desse crescimento, aponta Franchini: a base fraca de 2020, com o surgimento da pandemia da Covid-19, que levou a posturas mais conservadoras por parte das empresas; e os processos de privatização e concessão de infraestrutura no Brasil, verificados no ano passado.

Ativos baratos ou Brasil atraente?

“É preciso ponderar: os ativos brasileiros estão baratos ou o Brasil é atrativo para o investimento estrangeiro? Será que com o dólar a R$ 3,50 teria entrado todo esse volume de recursos?”, questiona o sócio da Monte Bravo. Ele acredita que os números dão uma falsa segurança para o Brasil.

Cristiane Quartaroli, do banco Ourinvest, avalia que, no atual cenário, os ativos brasileiros estão bem em conta no mercado internacional. Mas que, também, por causa da questão fiscal, o país deixa de ser atraente para o investidor no setor produtivo.

Os problemas não param por aí. “A questão tributária é um dos principais entraves. É algo extremamente complicado e surreal”, diz Franchini.

A instabilidade e as incertezas na legislação ajudam a tirar a competitividade do Brasil, afirmam os especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo. E elas são alimentadas pelo processo eleitoral. Um dos exemplos é a possibilidade da revisão das mudanças na legislação trabalhista implantadas no governo Temer, que podem ocorrer caso Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhe as eleições, segundo declarações do próprio ex-presidente petista.

Os analistas apontam que avanços estão sendo feitos, mas que é preciso mais. “As reformas são interligadas umas nas outras. As mudanças na infraestrutura também dependem de avanços na questão tributária, por exemplo. Marcos legais são importantes, mas as reformas estruturais, também”, diz Franchini.

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