Juros altos e prazo curto, juntos, são um veneno para quem deve. E essa é uma das armadilhas que pegam o consumidor brasileiro. Os juros básicos são de 14,75% ao ano, que equivalem a uma taxa real (ou seja, juros menos inflação anual) de 10,54%. Mas esse é um número enganador. É a taxa conhecida como Selic, que serve de referência para os bancos em seus negócios entre si e com o governo. Para o consumidor, os números são muito mais altos.

Os juros médios do cartão de crédito, segundo levantamento da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) eram em junho de 226% ao ano. Em português claro: uma conta de cartão não paga gera, ao final de um ano, uma dívida mais de três vezes maior.

Aí aparece a diferença básica entre os devedores brasileiros e os de outros países, onde é necessária uma dose bem maior de imprudência para que a dívida se torne impagável. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa média para a compra de um automóvel é de 5,96% ao ano. No Brasil, as melhores ofertas das montadoras ficam em torno de 26% ao ano. Lá, o prazo médio de financiamento era de 61 meses em junho, de acordo com relatório do Federal Reserve. No Brasil, a maioria dos planos prevê até 36 parcelas.

Mas por que os juros aqui são tão altos? Os porcentuais, por si próprios, já dão uma dica. "Eles tornam a situação dos brasileiros mais difícil e elevam os índices de inadimplência", diz o professor Jurandir Sell de Macedo, da Universidade Federal de Santa Catarina. "É um ciclo vicioso. Quando muitos não pagam, elevam-se as taxas de juros para compensar."

A maior parte dos especialistas atribui ao governo a responsabilidade pelos juros altos. Quando a administração pública gasta demais, restam a ela duas opções. Uma é imprimir mais dinheiro para pagar a conta. O resultado disso é inflação, e os brasileiros não aceitam mais isso. Resta a alternativa de tomar emprestado. O governo então emite títulos e, como precisa de muito dinheiro, paga juros altos. Assim, as taxas referenciais sobem.

Alternativa

Sob esse ponto de vista, para baixar os juros (e com isso diminuir o sufoco da classe média endividada) seria necessário dar um jeito nas contas do governo. Um outro efeito da medida seria a liberação de mais recursos para o investimento. O dinheiro usado para comprar títulos do governo poderia se direcionado para ampliar fábricas, por exemplo. Os bancos concederiam mais crédito, e mais barato, se não tivessem no financiamento da dívida pública uma alternativa tão lucrativa.

O próprio governo teria mais folga para aplicar em melhorias de infra-estrutura se não pagasse tantos juros – R$ 1,22 trilhão nos últimos 11 anos. "O que o Brasil precisa é de um ajuste fiscal forte, que ainda não foi feito", resume o professor José Luís Oreiro, que leciona Economia na Universidade Federal do Paraná.

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