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Fábrica da Norske Skog em Jaguaraíva: compensação viabiliza ampliação | Henry Milléo/ Gazeta do Povo
Fábrica da Norske Skog em Jaguaraíva: compensação viabiliza ampliação| Foto: Henry Milléo/ Gazeta do Povo

Alívio

Com créditos, Norske Skog estuda retomar projetos

Depois de funcionar sob ameaça de fechamento nos últimos anos, a Norske Skog, de Jaguariaíva, no Norte Pioneiro, já vislumbra tempos melhores a partir da permissão para compensar os créditos de ICMS acumulados ao longo da cadeia de produção. Estuda, inclusive, a possibilidade de retomar o projeto de ampliação que foi abortado em 2008. Na época, depois de importar uma máquina e executar obras civis, a empresa chegou à conclusão de que o projeto de aumentar a produção não era viável. Única fabricante de papel imprensa do país, a Norske deve produzir esse ano 175 mil toneladas.

O objetivo agora é criar uma joint venture com outro grupo para aproveitar as instalações que não estão sendo utilizadas. De acordo com Alex Pomilio, diretor de Relações Externas, Novos Negócios e Energia da Norske Skog, a empresa está em conversas iniciais com cinco empresas. Pomilio não revela quais produtos podem ser produzidos, mas sabe-se que papel imprensa e papel cartão estão descartados. "A mesma máquina que faz papel jornal pode fazer outros produtos. O importante é que a compensação dos créditos abre espaço para que possamos viabilizar a fábrica", diz.

Segundo o diretor, a empresa passou tempos difíceis com a distorção tributária. "Até 2002, o governo estadual permitia a compensação, mas com o Requião esse mecanismo foi interrompido", diz. Como o papel imprensa é imune na ponta, o ICMS acumulado ao longo da cadeia na compra de insumos, como energia elétrica, por exemplo, criava um crédito que não podia ser compensado. A Norske tem R$ 90 milhões acumulados. "Isso se transformava em custo para a empresa. Em 2003 éramos uma das mais competitivas operações da Norske no mundo. A política tributária arruinou nossos resultados", afirma.

Segundo Pomilio, a compensação é vital para fazer avançar a joint venture. "Somente assim os projetos são viáveis financeiramente", acrescenta. A empresa gera 315 empregos diretos na fábrica, mas o seu efeito sobre a região é maior. Estima-se que na cadeia de produção das papeleiras, que inclui ainda a Stora Enso – que faz papel para revista –, trabalhem indiretamente 2,2 mil pessoas.

Para o diretor da Norske, o ambiente institucional nos próximos anos terá de melhorar, "para que não fique inviável investir no Paraná". Apesar do decreto que permite a compensação ter sido assinado em junho, a Norske ainda não conseguiu receber os créditos. "Estamos acertando detalhes com o governo para saber como isso será possível. Um dos pontos é que um montante como esse não poderá ser compensado de uma única vez", afirma.

  • Veja a participação do PR no PIB brasileiro durante o governo Requião

Em sete anos de governo, Roberto Requião comprou brigas importantes com vários setores da economia – da guerra declarada às concessionárias de rodovias à proibição dos transgênicos, do embargo às licenças ambientais para construção de pequenas centrais hidrelétricas à batalha com os sócios privados da Sanepar. Avesso ao capital, principalmente de fora do estado, Requião ficou famoso por não ter uma relação boa com o setor empresarial. Com a sua saída, porém, o atual governador e ex-vice, Orlando Pessuti, vem adotando uma política bem mais liberal e voltada para o mercado. Em pouco menos de cinco meses no comando do estado, Pes­­suti concedeu incentivos fiscais, abriu diálogo com concessionárias de rodovias sobre o pedágio, autorizou a Copel a retirar a política de descontos aos consumidores e reativou o mercado de pequenas centrais hidrelétricas no estado.

A projeção de empresários e analistas é que o fim da era Requião abra espaço para um novo ambiente de negócios. "Trata-se de uma mudança grande. O modelo de Requião era estatizante e o de Pessuti é mais voltado para o mercado", analisa Christian Majczak, da consultoria GO4!. De acordo com ele, por se tratar de um governo de transição, o setor produtivo ainda mostra cautela. "Mas há, de maneira geral, uma expectativa de que haja uma disposição maior para se fazer negócios no Paraná nos próximos anos. Mas esse é um trabalho lento, que deve consumir pelo menos um ano do próximo governo", diz Majczak. O setor empresarial aguarda que os candidatos ao governo apresentem melhor seus planos para a economia do Paraná nos próximos anos, principalmente em questões como estímulo aos investimentos e infraestrutura. "Ninguém vai arriscar nada agora. Só depois das eleições", afirma Gilmar Mendes Lourenço, coordenador do curso de Economia da FAE. Mas é praticamente consenso que ambos os candidatos mais bem colocados nas pesquisas – Beto Richa (PSDB) e Osmar Dias (PDT) – dificilmente repetirão o radicalismo que marcou a gestão de Requião.

Segundo Lourenço, a saída de Requião tornou mais leve o ambiente institucional, permitindo ao setor empresarial discutir projetos e propostas com o governo, algo que não ocorria nos últimos anos. "Hoje são outras as relações da Federação da Agricultura com o governo do estado. O atual governador, porém, terá um prazo curto para resolver problemas na área de logística e a infraestrutura agropecuária do estado, onde não houve investimentos nos últimos anos", concorda Ágide Mene­guette, presidente da entidade. Procurado, o presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Rodrigo da Rocha Loures, não se pronunciou.

Perdas

O chamado "risco Requião", acredita Gilmar Mendes Lou­­renço, contribuiu inclusive para afugentar in­­vestimentos para o estado nos últimos anos. O Paraná perdeu investimentos importantes, como os da Toyota, da fabricante de pne­­us Yoko­hama e da indústria de vi­­dros Guardian. Arredio, Requião não costumava dialogar muito bem com as multinacionais. Com­­prou brigas com a Monsanto sobre os transgênicos, com as duas fabricantes de papel imprensa do estado – Norske Skog e Stora Enso – e travou uma guerra judicial com o consórcio Dominó, sócio privado da Sanepar, pelo controle da gestão da companhia de saneamento. O Por­­to de Paranaguá foi outro ponto sensível. A baixa eficiência e a falta de investimentos, incluindo a dragagem do canal, fizeram o terminal acumular filas de caminhões na rodovia, perder cargas para ou­­tros portos e elevar os custos das empresas.

Foi também nos anos Requião que o Paraná perdeu espaço na economia brasileira. Sucessivas quebras de safras, ausência de grandes investimentos industriais e o avanço dos estados do Norte e do Nordeste contribuíram para reduzir a participação dos paranaenses no total de riquezas geradas no país. O estado, que em 2003 representava 6,4% do total do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, fechou 2009 com uma participação de 6,1%, segundo dados do Instituto Paranaense de Desen­volvimento Social (Ipardes).

Interesses

A análise recorrente é que o governo anterior, embora tenha avançado ao reduzir a carga tributária para pequenas e microempresas e para consumo, "fechou a porta aos grandes investimentos". Também se critica a baixa efetividade de Requi­­ão na defesa dos interesses do estado junto ao governo federal. Um exemplo, cita Lourenço, é o investimento da Petrobras em Araucária, na região metropolitana de Curitiba. "A expectativa era de que o projeto de ampliação pudesse criar condições de surgimento de um polo petroquímico no estado, como na Ba­­hia. Mas não houve uma mobilização nesse sentido por parte do governo", afirma. A falta de projetos também contribuiu para que o estado tivesse uma participação pequena nos repasses do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Para o professor Marcelo Farid Pereira, do Departamento de Eco­nomia da Universidade Esta­­dual de Maringá (UEM), os governos têm papel fundamental na atração de investimentos proporcionando segurança institucional e previsibilidade, citando, como exemplos negativos, Venezuela, Bolívia e, em certa medida, a Chi­na. O caso da Venezuela é emblemático. "É um país rico em petróleo que tinha tudo para ter melhores condições econômicas e de desenvolvimento, mas não consegue crescer e paga o preço pela elevada instabilidade do governo", diz.

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