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Nany Semicek, proprietária da Casa Poppins.
Nany Semicek, proprietária da Casa Poppins.| Foto: Rosana Felix/Especial para a Gazeta do Povo

O dicionário Houaiss define "resiliência" como "capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças". Facilmente? Não foi bem assim para a empreendedora Nany Semicek, 40 anos, durante o longo período de isolamento social em que o espaço de brincar Casa Poppins teve de permanecer fechado. Mas a pandemia de fato exigiu dela uma extraordinária capacidade de se adaptar: a cada semana o negócio precisava ser repensado e modificado, já que decisões anteriores perdiam o sentido frente a tantos obstáculos.

A Casa Poppins funciona em uma área alugada dentro do Clube Urca, em Curitiba, e oferece atividades de contraturno, colônia de férias e festas infantis desde 2016. Em 2020, quando o empreendimento tinha contrato com 70 famílias, os planos eram de abrir uma franquia e expandir as atividades. As medidas de contenção da pandemia, entretanto, tiveram forte impacto sobre a operação.

O negócio continua de pé, mas à base de muito jogo de cintura, renegociações, resoluções ágeis e apoio dos clientes fiéis. Essa história de superação é mais uma da série especial O Brasil que inspira, que traz histórias de brasileiras e brasileiros que encontraram novas formas de trabalhar e empreender na pandemia.

Até março de 2020, a Casa Poppins tinha sete monitoras. No momento mais crítico, Nany manteve apenas duas; agora são três, que dão conta da demanda atual de 15 crianças, devido aos protocolos de distanciamento social. As regras de funcionamento também foram adaptadas, com horários mais rígidos para o controle de entrada, saída e lotação máxima, algo que foge da concepção original do empreendimento.

Um espaço para ajudar mães e acolher crianças

A criação da Casa Poppins tem relação direta com a experiência de Nany com a maternidade, construída após uma série de encontros e reencontros na carreira corporativa. Atriz e diretora teatral formada pela antiga Faculdade de Artes do Paraná (hoje Unespar), Nany foi coordenadora executiva do Festival de Teatro de Curitiba nos anos 2000. Depois alternou cargos de diretoria na empresa Ingresso Rápido e na Secretaria de Cultura de São Paulo. Foi quando nasceu a primeira filha, Helena, hoje com 10 anos, que ela começou a enfrentar alguns dilemas.

“A minha geração de mulheres estava despreparada para ser mãe. A gente não foi educada para criar ninho; a gente foi educada para ser profissional de sucesso. Eu entrei na maternidade achando que ia poder terceirizar tudo”, relembra.

Como ocorre a tantas mães, nesse momento Nany começou a relembrar da própria infância, e traçou paralelos a partir disso. Ela comparava a vida no sítio, tirando leite de vaca e correndo dos porcos, com o lazer que tentava proporcionar à filha no condomínio de luxo em São Paulo, onde até arrumou briga por querer usar a terra do jardim e fugir dos parquinhos cimentados.

“Eu tive uma infância extremamente livre, mas a família não tinha poder aquisitivo para nada. Na vida adulta não fiz nenhum grande curso ou faculdade, mas ficava pensando de onde vinha essa minha resiliência. Quando trabalhei no Festival de Teatro eu tinha 19 anos e coordenava uma equipe de 1,5 mil pessoas. Quando me vi com a Helena, ficou nítido para mim que eu desenvolvi essas habilidades na minha infância. E não foi porque minha mãe era uma estudiosa da infância. Era porque ela estava ocupada e largava as crianças, deixava a gente fazer o que quisesse”, diz.

Nany comprou um sítio para conseguir proporcionar à filha vivências na natureza e seguiu a vida em São Paulo, ao mesmo tempo que frequentava ambientes amigáveis a brincadeiras simples da infância e fazia pesquisas sobre o assunto. Mas a gravidez do segundo filho – Antonio, hoje com 5 – a fez largar de vez a vida corporativa. “Provei para o mundo que posso ser uma grande executiva. Eu era a única mulher entre oito diretores homens. Ocupei esse lugar, mas depois disse chega, para construir um mundo onde eu pudesse trabalhar perto das minhas crianças.”

Em 2016, de volta a Curitiba, se associou ao Clube Urca. Um dia se deparou com um vale no terreno do clube, que mais parecia um brejo, e nas negociações viu que ali seria um bom local para instalar um espaço de brincar. Um sócio cuidou da obra e Nany coordenou tudo amamentando o filho Antonio no sling, o que a permitia circular bastante para resolver as pendências. No segundo semestre abriu a Casa Poppins, inspirada na personagem do filme de Walt Disney.

Para facilitar a vida das mães, Nany estabeleceu horários livres, para as famílias comprarem pacotes de horas e usarem da forma que achassem melhor. “Podia usar das 10h ao meio-dia. Ou se tinha um compromisso no almoço, deixava aqui só neste momento, ou deixava o dia inteiro, ou um turno”, explica.

O atendimento era para crianças de um a dez anos, em uma espécie de “casa da vó institucionalizada”, conforme a explicação de Nany: “Mistura todas as idades. Isso traz riqueza, pluralidade para a nossa vida. Há uma demanda também de criança que não tem irmão. Foi criada pensando nas mães que não podem estar com suas crianças, mas que querem ofertar uma infância como a de antigamente, com liberdade”.

Mas as mães que Nany queria ajudar demoraram a aparecer.

A casa foi inaugurada em julho de 2016, e os primeiros meses foram de clientela escassa. A maioria não se interessava pelo conceito do brincar livre. “Quando teve a primeira colônia de férias, com preço acessível, podendo usar a piscina do clube, bombou. E quando as crianças voltaram para casa, diziam que era o melhor lugar do mundo. Então a gente cresceu com o boca-a-boca das crianças”, relembra a empreendedora.

A Casa Poppins desenvolveu um método de kits criativos, a partir de materiais recicláveis, com os quais pode-se montar 43 brinquedos. “Se a criança virar e falar 'quero fazer um avião' e a monitora tiver que ir atrás de papelão, tesoura, cola, vai perder o momento da magia. O kit permite isso. Daí que vem a magia, ter tudo pronto, como a Mary Poppins”, brinca Nany.

Esse material também era usado nas festinhas infantis, realizadas aos fins de semana. A agenda estava cheia, a colônia de férias de 2019/2020 foi um sucesso, conta a empreendedora. O passo seguinte seria o lançamento de franquias do negócio. Mas a pandemia chegou.

Apoio das famílias foi fundamental para negócio continuar

Segundo Nany, o espaço de brincar sobrevive graças a uma gestão criativa e de “mão de ferro”, com cortes em momentos necessários, mas também pelo movimento de apoio.

No começo da pandemia, as famílias continuaram pagando as mensalidades, como forma de garantir vaga no espaço de que tanto gostavam. No começo de abril de 2020, a Casa Poppins montou uma loja para vender os kits criativos para serem usados em casa.

Depois de algumas semanas, quando ficou claro que as medidas restritivas durariam bastante tempo, Nany tomou decisões mais duras para manter suas finanças em dia, começando pelos confortos e facilidades domésticas. Montanhista, passou tempos acampando com os filhos enquanto tentava planejar os passos seguintes.

Em junho de 2020, a Casa passou a oferecer um modelo de festa virtual, que seguia o propósito de cercar a criança de magia. A equipe da Poppins levava na casa de cada convidado pistas de caça ao tesouro para os pais esconderem. Durante a festa, a criança procurava as pistas e o prêmio era a lembrancinha do aniversário. Além disso, cada uma recebia um pequeno bolo no pote, com vela, para cantar parabéns. Para a casa do aniversariante seguia um bolo maior, decoração e presentes enviados pelos convidados. O modelo foi encerrado no mês passado.

Esse afeto todo fez diferença. A Casa Poppins passou por dificuldades financeiras e fez até rifa para angariar fundos. Muitas famílias pagavam pelos kits mas até abdicavam de recebê-los – queriam apenas ajudar.

Mas nem tudo foi festa. As demissões que a casa se obrigou a fazer foram muito doloridas, pois cada monitora tinha uma ligação com as crianças que frequentavam o espaço. “Em um dia estava fazendo reunião on-line, dizendo para manter o ânimo, mas pouco tempo depois tinha que demitir alguém. Era preciso repensar o negócio semana a semana”, relata Nany.

O apoio do Clube Urca, que suspendeu a cobrança de aluguel nos meses de fechamento, também foi fundamental, diz a empreendedora: “A pandemia, ao mesmo tempo em que foi um período extremamente cruel no sentido macro, também mostrou um lado bom. Eu nunca tinha recebido tanto apoio e carinho, das pessoas dizendo que a casa não podia fechar. Caiu a ficha de que a casa não era só nossa, era de todas as crianças que já passaram por aqui e que querem voltar”.

Esta é a sexta reportagem da série O Brasil que inspira, que conta histórias de brasileiras e brasileiros de coragem, que usaram criatividade e persistência para se manter durante a pandemia de coronavírus.

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