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Poucos economistas conseguem expor suas ideias com uma combinação de exemplos do cotidiano e citações acadêmicas com a desenvoltura de Fábio Giambiagi. Especialista em contas públicas e parte dos quadros do Departamento Econômico do BNDES, Giambiagi é um pensador produtivo. Está lançando seu 26.º livro, “Capitalismo: Modo de Usar”. O título é uma provocação e parte da análise de que, no Brasil, o sentimento contra o capitalismo fez um estrago que só será corrigido com uma mudança profunda na cultura nacional. Artigos abundantes em economias de mercado, como competição, meritocracia e risco, tornaram-se raridade. Os efeitos são a criação de uma economia fechada e pouco voltada à inovação e à eficiência, com um governo do qual se espera muito e com competência duvidosa para entregar tanto.

O livro de Giambiagi propõe uma reflexão profunda para todos os brasileiros. Na opinião do autor, é antes de tudo o espírito pouco ligado a resultados da população um fator que emperra o desenvolvimento do país. A mudança cultural precisa ser acompanhada de reformas para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a poupança, o investimento e transformar a educação em um instrumento capaz de formar cidadãos prontos para encarar os desafios do mundo. Na entrevista a seguir, Giambiagi explica que, antes disso, o país precisa de uma arrumação básica, que depende da política, antes de enfrentar o desafio de usar seu “guia” sobre o capitalismo. Aos curiosos: a explicação para o título desta reportagem está na última pergunta.

O Brasil precisa de um ajuste que sofre muita resistência, como vimos em votações no Congresso. O espírito anticapitalista está jogando contra o ajuste?

Há no Brasil, em muitos setores da sociedade, um espírito anticapitalista. Na atual conjuntura, porém, penso que o que está pesando mais é o que denomino de “lógica síria”. O que é isso? É o predomínio da lógica individual de cada grupo, que faz sentido sob uma ótica restrita, mas que produz um resultado desastroso para o conjunto do país. Na Síria, a resultante foi a destruição do país. Aqui não temos esse grau de destruição, mas a lógica de cada grupo está provocando uma guerra de extermínio na política, com consequências deletérias sobre a economia.

Não é problema que o capitalista não goste da concorrência. Mas se o sistema funcionar bem, haverá competição e ele receberá a mensagem de que ou fica constantemente se atualizando ou sua empresa vai perder market share.

Nem as empresas privadas escapam de sua análise. Como formamos capitalistas que não gostam de concorrência?

Em geral, o capitalista não gosta da concorrência. Como dizia Joseph Schumpeter, talvez o melhor intérprete do sistema e a quem o livro rende merecido tributo, “pela sua própria natureza, o capitalismo não costuma ser benevolente com os capitalistas”. Por quê? Por causa do progresso. Quando eu era um garoto, a gente ouvia a expressão “IBM” e isso remetia ao que havia de mais moderno na computação. Hoje nem sei se a garotada sabe bem o que é a IBM, mas todo mundo associa modernidade à Apple. Isso é a expressão do dinamismo, que é marca por excelência do capitalismo. Não é problema que o capitalista não goste da concorrência. Mas se o sistema funcionar bem, haverá competição e ele receberá a mensagem de que ou fica constantemente se atualizando ou sua empresa vai perder market share.

Parece claro que a política de Estado expansionista dos últimos anos não funcionou, mas isso não parece ser suficiente para convencer o país a desmontá-la. Há alguma chance de crescimento sem uma reversão de curso?

Aqui é preciso dividir a resposta em três tempos. Mais do que inocular o espírito capitalista nas pessoas, o que é urgente no momento é deter a queda livre em que nos encontramos e isso implica retomar a confiança de que a política permita algum entendimento. O segundo passo é religar o motor de arranque, para que a economia não fique em ponto morto. No terceiro estágio, sim, espero que possamos aspirar a ter mais dinamismo. O livro trata da situação à qual poderemos chegar no terceiro estágio, mas não da recuperação da confiança, que passa pelo terreno da política.

O governo fez um esforço para rever alguns benefícios sociais, como seguro-desemprego e pensões. Foi algo significativo em uma agenda de reformas? Qual seria o modelo ideal?

Foi muito pouco. O gasto com seguro-desemprego continua aumentando, o que é um resultado da crise; e a mudança da regra das pensões foi minúscula. O problema da situação que se criou é que estamos chegando na fase de “canibalização do gasto social”. É quando no afã de aumentar esses gastos, um gasto vai esmagando o espaço de outro. Por um triz, a antecipação da metade do 13.º salário dos aposentados quase deixa de ser paga na data prevista. Por quê? Porque os gastos com seguro-desemprego e outros benefícios deixam o caixa do governo baqueado. É preciso rever o sistema e definir o que é prioritário.

O país padece de alguns problemas entrelaçados: poupança baixa, gasto público ruim, investimento baixo e infraestrutura inadequada. Qual o ponto de partida para fazer essas condições andarem para o lado certo?

Há três pilares: a) diagnóstico; b) persuasão; e c) articulação. O ministro Levy tem se esforçado, mas é indisfarçável que o diagnóstico dele é prejudicado pelo fato de que a capacidade de persuasão da presidente Dilma é próxima de zero, uma vez que dá a impressão de que ela não acredita nessa agenda. Quanto à capacidade de articulação do governo, dispensa comentários.

Mesmo nas escolas da elite, o garoto é treinado para ser um militante do PSTU. Quando perceber que a vida é dura, muitas vezes já estará com a prestação da casa própria vencida e pendurado no cheque especial, por não ter sido melhor preparado.

O senhor dedica parte do livro à necessidade de melhor educação financeira. O fato de o brasileiro ser “ruim de conta” limita o debate político e econômico?

Esse é um capítulo importante, escrito na dupla qualidade de economista e pai. Eu ficava abismado lendo as patacoadas que ensinavam a meu filho na escola. Mesmo nas escolas da elite, o garoto é treinado para ser um militante do PSTU. Depois, quando perceber que a vida é dura, muitas vezes já estará com a prestação da casa própria vencida e pendurado no cheque especial, por não ter sido melhor preparado. A educação financeira ajuda a gerar cidadãos melhores, mais preparados para enfrentar a vida e mais autoconfiantes. Infelizmente, nesse caminho evolutivo estamos ainda engatinhando.

Se alguém topasse fazer uma campanha pró-capitalismo no país, quais ideias e argumentos seriam mais promissores para transformar o brasileiro em um capitalista de verdade?

Eu faria uma propagando institucional mostrando o Neymar aos 18 anos e o Neymar hoje e perguntando: “Quem você acha que joga melhor? O Neymar de 2010 ou o Neymar de 2015? É o de hoje, não? E por quê? Porque o Neymar aprendeu a disputar jogos no dia a dia com os melhores jogadores do mundo. Assim, ganhou o espetáculo, ganhou ele e ganhou a Seleção brasileira. O nome disso é competição. É ela que gera progresso e faz as pessoas, as empresas e os países avançar”. Aliás, é interessante notar a diferença entre ele e o outro garoto do Santos, o Ganso. Ambos surgiram juntos e eram craques. Só que um deu um passo adiante e foi conquistar o mundo dando a cara a tapa contra os melhores. O outro ficou no Brasil disputando esse campeonato de segunda categoria. O resultado está aí: o Neymar, daqui a pouco, poderá ser candidato a melhor do mundo, e o Ganso é apenas um bom jogador do São Paulo.

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