#A Gazeta Acredita

#Dentro da Lei

#Sustentabilidade

#Inovação

ASSINE
   
Smartphones

Chegamos ao ápice dos smartphones. O que vem agora?

Pela primeira vez na história, as vendas de smartphones encolheram. Apple, Samsung e outras têm méritos por isso e a missão de criar novas fontes de receita a partir da base instalada

  • Geoffrey A. Fowler
  • Washington Post
  • [05/02/2018] [16:45]

Alguns smartphones mais recentes têm mais tela em um corpo menor. As câmeras continuam melhorando, se você olhar bem de perto. E você estava vivendo embaixo de uma pedra se perdeu o oba-oba do aniversário de 10 anos do iPhone, com o iPhone X, ou o Galaxy S8 da Samsung. Muita gente no segmento dos smartphones tinha certeza de que essa última safra traria um “super ciclo” de atualizações.

Mas aqui está a realidade: mais e mais consumidores decidiram que não precisam trocar de aparelho todo anos. Ou a cada dois anos. Mesmo nos Estados Unidos, eles não estão mais presos a contratos de dois anos. Hoje, os smartphones são muito duradouros do que costumavam ser. E as coisas novas simplesmente não são mais tentadoras nem para mim, um profissional que analisa gadgets.

Permanecer mais tempo com nossos smartphones é melhor para o bolso, sem falar no meio ambiente. Isso significa que nós — e as fabricantes de smartphones — precisamos começar a pensar mais com a mentalidade dos automóveis.

Podemos ter alcançado o ápice da indústria de smartphones. As vendas globais caíram 0,1% em 2017 — o primeiro declínio da história, de acordo com a consultoria IDC. Nos Estados Unidos, houve crescimento, mas de apenas 1,6%, o menor de todos os tempos.

Em 2015, os americanos trocavam seus smartphones após 23,6 meses, em média, de acordo com a empresa de pesquisa Kantar Worldpanel. No final de 2017, essa média era de 25,3 meses.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

“O valor dos smartphones de todos os tipos está durando mais às pessoas? A resposta é definitivamente sim”, disse Brian Blau, analista do Gartner. “Os dispositivos são bons o bastante para lidar com as necessidades das pessoas hoje? Em boa parte, sim”.

Na quinta-feira (1), a Apple divulgou seu primeiro declínio em um trimestre natalino nas vendas unitárias do iPhone. Foi pequeno, de 78,3 milhões para 77,3 milhões de aparelhos. Esses resultados podem ser apenas o reflexo de que a Apple teve um número menor de semanas, 13 contra 14 do ano anterior, para comercializar seus modelos mais recentes. Independentemente disso, os resultados da Apple dizem que o “super ciclo” das atualizações de smartphone não está exatamente super.

O CEO da Apple, Tim Cook, na conferência com acionistas também na quinta, disse que a Apple não “se fixa demais” em quanto tempo as pessoas passam entre as compras de novos smartphones. “Estamos entusiasmados com a receptividade do iPhone X”, disse ele.

Um dos principais impulsionadores da mudança em nosso comportamento é que os smartphones, hoje, são muito parecidos entre eles. “Os consumidores dizem, ‘vou comprar quando ver algo novo ou souber de algo que eu preciso’”, disse Ryan Reith, vice-presidente da IDC. Muitos dos maiores avanços recentes, como a realidade aumentada, vieram em grande parte por meio de software. O iPhone X usa câmeras de novas maneiras de reconhecer seu proprietário e o ambiente — mas vai levar tempo para vermos usos mais interessantes.

Um ciclo de vida mais longo do smartphone também é um elogio à Apple e à Samsung, mesmo que alguns investidores não gostem disso. É um sinal de que seus produtos são confiáveis e menos suscetíveis à deterioração. Adicionar resistência à água no iPhone 7 e no Galaxy S7 ajudou muito nesse sentido.

Alternativas

Diminuir o ritmo do ciclo de atualização não significa a ruína para Apple ou Samsung. Por um lado, elas agora estão cobrando mais, como os R$ 7 mil pedidos pelo iPhone X. (É por isso que o faturamento da Apple foi maior, mesmo vendendo menos iPhones.) Elas agora estão nos vendendo acessórios, como o Gear VR da Samsung e o HomePod da Apple, bem como serviços recorrentes, caso do Apple Music.

Ainda assim, os donos de smartphones que duram por mais tempo terão novas necessidades. Em dezembro, a Apple criou um pico de demanda por trocas de baterias do iPhone após admitir que seu software estava diminuindo o desempenho de aparelhos com a bateria deteriorada. Para se redimir, a empresa está oferecendo trocas de bateria com desconto para todos, o que fez com que a alta procura esgotasse o serviço em muitas das suas lojas nos Estados Unidos.

Isso evidencia que muitos de nós preferimos consertar nossos smartphones atuais a comprar um novo. Um analista disse que as trocas de bateria com desconto custarão à Apple cerca de US$ 10 bilhões em vendas perdidas.

Quando entrei na Apple Store para substituir a bateria no meu iPhone 6, o funcionário se ofereceu para dar “um trato” no smartphone inteiro. No começo, pensei que isso era estranho — o que eles pensam que são, uma oficina automotiva?

Na verdade, sim. Como carros, os smartphones precisarão tanto de manutenção de hardware quanto de software na medida em que passamos mais tempo com eles. A Samsung também está no jogo, com experimentos usando caminhões de que prestam esses serviços.

As fabricantes de smartphones terão que pensar em projetar atualizações de software para suportar smartphones antigos por mais tempo. A próxima grande versão do iOS, esperada para o segundo semestre, abandonará o iPhone 5s, de 2013? Isso geraria uma tensão, na medida em que Apple e Google tentam desenvolver recursos que transformem smartphones em computadores, ou dispositivos capazes de substituir plenamente computadores convencionais, mas que exigem, para isso, processadores mais rápidos em modelos mais novos.

Provavelmente haverá um limite para o tempo que poderemos manter nossos smartphones. “Eu não vejo um ciclo de substituição tendo mais do que três anos”, disse Carolina Milanesi, analista de tecnologia de consumo da empresa Creative Strategies.

As pessoas que usam o mesmo smartphone por mais tempo podem fazer com que a indústria se pareça muito mais com a de notebooks e PCs. Mas não descarte o desejo, disse Milanesi. As pessoas ainda trocam de smartphones como projeção de suas personalidades ou porque eles devem ter a última tecnologia chamativa.

Biju Nir, CEO da HYLA Mobile, que ajuda a indústria a coletar e a reutilizar smartphones usados, pensa que o ciclo de reposição voltará devido ao “fator FOMO” (de “fear of missing out”, ou “medo de estar por fora” em tradução livre). Ainda existe o receio de perder as inovações, novas experiências e novos modelos de negócios das fabricantes de smartphones e das operadoras, disse. (Os dados mais recentes de sua empresa mostram que, em média, um smartphone aposentado em 2017 esteve em uso 78 dias a mais do que o do ano anterior — agora, em um total de 2,59 anos).

Estou preparado para ser surpreendido com uma futura novidade dos smartphones. Um grande salto na autonomia da bateria estaria no topo das listas de mais desejadas da maioria das pessoas, mas há muitos obstáculos científicos a serem conquistados. O próximo grande momento de trocas, em alguns anos, provavelmente será para smartphones capazes de se comunicar por 5G, tecnologia que tornará as conexões móveis mais rápidas e confiáveis.

Os smartphones provavelmente serão usados por anos, como os notebooks quando ocorreu a ascensão dos smartphones e tablets. E então, algum dia, haverá uma tecnologia totalmente nova que irá fisgar o dinheiro das nossas carteiras.