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Troca na Petrobras e outros recentes gestos aos caminhoneiros blindam o presidente Jair Bolsonaro contra paralisação dos caminhoneiros por até um ano.
Troca na Petrobras e outros recentes gestos aos caminhoneiros blindam o presidente Jair Bolsonaro contra paralisação dos caminhoneiros por até um ano.| Foto: Evaristo Sá/AFP

O anúncio da troca no comando da Petrobras deu fôlego ao governo entre os caminhoneiros. Os seguidos reajustes anunciados pela estatal para os combustíveis irritaram até os transportadores autônomos contrários a uma paralisação e enfureceram ainda mais os favoráveis a uma greve nacional. Mas o gesto feito pelo presidente Jair Bolsonaro, apesar de ter desagradado o mercado financeiro e parte da classe política liberal, agradou a categoria que mostrou sua força em 2018.

A Gazeta do Povo ouviu líderes e representantes dos dois lados dos caminhoneiros, os contrários e favoráveis a uma paralisação. É unânime que o anúncio da troca do atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, pelo general Joaquim Silva e Luna, atual diretor-geral da Itaipu Binacional, foi bem recebido pelos autônomos. Os mais alinhados com o governo dizem que Bolsonaro ganha um voto de confiança superior a seis meses. Os menos afeitos dão dois meses para que o Executivo apresente soluções factíveis, que levem o preço final do diesel na bomba a uma queda.

Nos bastidores da categoria, uma nova paralisação vinha sendo articulada para abril por lideranças que mobilizaram a greve frustrada marcada para 1º de fevereiro. Com a troca do comando da Petrobras, a promessa de zerar impostos federais sobre o diesel por dois meses e a criação da figura do microempreendedor individual (MEI) para caminhoneiros, o governo conseguiu um respiro da parcela grevista dos caminhoneiros.

Segundo o senador Jorginho Mello (PL-SC), o governo deu apoio ao MEI Caminhoneiro e deve trabalhar para aprovar a proposta já na próxima semana.

Deputado alerta que mudança na Petrobras agrada, mas é paliativo

Após os anúncios do presidente, não se fala mais nos grupos de WhatsApp sobre uma mobilização para abril. Algumas lideranças evitam citar datas, embora tenham junho como data-limite para aguardar melhorias.

O deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), que é reconhecido como um porta-voz da categoria – ao menos entre a parte dos caminhoneiros que se afastou do governo e pressiona por uma paralisação –, reconhece o respiro que o Palácio do Planalto ganhou.

“Essa intervenção do Bolsonaro gerou certa esperança entre os caminhoneiros na questão da política de combustíveis. Com certeza, [o presidente] ganhou um fôlego”, afirma Pinato. O fôlego que o governo ganha, entretanto, tem prazo. “Tem que ver se isso [troca no comando da Petrobras] vai dar resultado na bomba dentro de alguns meses”, avisa.

“Bolsonaro ainda detém credibilidade perante os caminhoneiros. Fez essa manobra, então, o que é discutido dentro dos grupos: ‘Ele tirou o presidente [Castello Branco, que sai apenas em 20 de março], vamos esperar um pouco, vai assumir [o general Silva e Luna] em março. Ganha um fôlego, mas esse fôlego tem prazo”, finaliza o parlamentar.

Líder da greve de 2018 desconfia dos impactos sobre a bomba

Lideranças da categoria afeitas à ideia de uma nova greve concordam que o fôlego que Bolsonaro ganha é provisório. “Sofremos há muitos anos. O governo não consegue resolver essa situação em dois meses, isso é só algo paliativo”, diz um dos líderes da greve de 2018, Wallace Landim, mais conhecido como "Chorão". Para ele, que preside a Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava), a promessa de zerar o PIS/Cofins em março e abril é ineficaz.

“E depois desses dois meses, o que vai fazer? Dar subsídio, como o [ex-presidente Michel] Temer deu, que não chegou na ponta?”, desabafa Chorão, em referência a uma medida provisória editada após a greve dos caminhoneiros que concedeu subsídios de até R$ 0,30 por litro de diesel até o fim de 2018. "A categoria precisa de alguma coisa concreta", sustenta.

A troca do comando da Petrobras é vista entre os caminhoneiros ligados a Chorão com “contentamento” e “desconfiança”. “O trabalhador quer ver se, na ponta, o combustível estará mais barato. Não adianta trocar o presidente [da estatal] e continuar o diesel a R$ 4 e a gasolina a R$ 5 [por litro, nas bombas]”, critica.

A articulação de uma paralisação para abril, antes das medidas anunciadas pelo governo, é admitida por Chorão. “O governo pediu dois meses de prazo para poder desenvolver algo para a categoria”, explica. Agora, com o fôlego conquistado, ele evita falar em um novo prazo. “Não quero me comprometer com uma data. Mas tenho comigo que existe um ciclo que se fecha aí após esse fôlego. Daí para frente, vamos ver se tem algo concreto para a categoria ou não”, destaca.

Líder contrário à paralisação fala em fôlego superior a um ano

A parcela dos caminhoneiros mais alinhada ao governo e contrária a uma paralisação discorda que o respiro dado ao governo é curto. “Tem muita gente criticando [Bolsonaro], mas a grande massa e a grande maioria com certeza vai dar um fôlego de seis meses, um ano, independentemente do que aconteça daqui para frente”, prevê o líder caminhoneiro Janderson Maçaneiro, mais conhecido como Patrola.

Os movimentos de rearticulação por uma greve nacional, contudo, devem persistir, aposta Patrola. Ele conversa com muitos caminhoneiros e afirma que a maioria não deseja uma paralisação. “O cara que é líder e impõe o seu desejo vai sempre articular e rearticular [uma nova paralisação nacional]. Agora, a liderança que ouve a categoria e tem consciência do que vem sendo feito, esse não vai incentivar a greve, porque ela [categoria] não quer a paralisação”, destaca.

A falta de unidade entre os caminhoneiros reduz, portanto, as chances de uma greve nacional como a de 2018, avalia Patrola. “O que eu percebo entre os caminhoneiros é a seguinte situação: estamos sofrendo, apanhando, mas estamos na mesma luta que o presidente”, diz o líder caminhoneiro. Com os recentes gestos feitos pelo governo, ele reconhece que Bolsonaro conseguiu respeito de grande parte da categoria. “Ele já tinha uma situação de empatia e, agora, conseguiu o respeito”, destaca.

Caminhoneiros ironizam mercado: "Se não gostar é porque estamos no caminho certo"

Para os caminhoneiros ouvidos por Patrola, a troca do comando da Petrobras não é vista como uma promessa de segurança à categoria, mas um gesto de consideração. Muito por conta disso, a categoria comemorou o anúncio da troca de Castello Branco pelo general Silva e Luna e tampouco se preocupou com a reação negativa do mercado. Na opinião de Patrola, não houve intervenção de Bolsonaro no comando da estatal.

“Intervir, para mim, seria se o presidente se metesse no dia a dia da administração da Petrobras. Seria se o Bolsonaro ligasse para o presidente [da estatal] e falasse: ‘Em vez de colocar preto, coloca amarelo’. Isso é intervir. Outra coisa é substituir e manter a soberania da Petrobras, usando da prerrogativa do presidente da República em escolher o administrador”, sustenta Patrola.

Em um grupo de WhatsApp de caminhoneiros, o Comando Nacional do Transporte, o anúncio da troca de comando na estatal foi comemorado no dia anunciado por Bolsonaro, em 19 de fevereiro, e nos dias seguintes. A reação do mercado e dos investidores foi ironizada entre eles. “Se não estão satisfeitos, que vendam as ações, não têm ninguém com arma na cabeça deles obrigando ficar com elas”, disse um. “Se não vão gostar é porque estamos no caminho certo”, declarou outro.

Administrador do grupo e líder caminhoneiro, Aldacir Cadore comemorou a troca no comando. “A gente, agora, vê esperança nessa política de preços. Da forma como a Petrobras vinha atuando, visava apenas a lucratividade para o investidor. É uma empresa brasileira que não trabalhava mais pelo Brasil, então, vejo com muitos bons olhos. E ainda tem muita coisa para vir”, diz.

Pacote de medidas, vacinação e proposta tributária: o que pode vir

Quando fala sobre “muita coisa” que ainda tem por vir, Cadore faz referência ao pacote de medidas articulado entre o Ministério da Infraestrutura e a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), revelado pela Gazeta do Povo. Entre as medidas mais aguardadas, destaca-se o anúncio do Documento Eletrônico de Transporte (DT-e).

O DT-e vai unificar cerca de 20 documentos que são exigidos para operações de transporte de carga no país. Sua implantação favorecerá a contratação direta do autônomo pelo embarcador. Nos bastidores, é especulado que algo sobre o documento eletrônico saia nas próximas semanas.

Outra articulação entre CNTA e o governo é a vacinação da categoria em unidades do Serviço Social do Transporte e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest/Senat), em postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pontos de pedágio nas rodovias. Os autônomos foram incluídos como grupo prioritário no programa de imunização.

Chorão, que foi diagnosticado com a Covid-19 na última quinta-feira (25), diz que se articula para cobrar a vacinação da categoria e não apenas isso. Afirma que tem um projeto semipronto para ser apresentado ao governo em que aponta como é possível reduzir entre R$ 0,15 e R$ 0,20 o litro do diesel. “Temos uma proposta que não trará desgaste com o Congresso e não tem fuga de receitas. A proposta do governo [em zerar PIS/Cofins] vai tirar receita de um lugar para compensar isso”, diz.

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