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Por que a IPO da Uber não teve os reflexos esperados?

  • PorFrancisco Américo Cassano*
  • 18/05/2019 13:00
O CEO do Uber, Dara Khosrowshahi, conversa com os traders na estreia da empresa na Bolsa de Nova York.
O CEO do Uber, Dara Khosrowshahi, conversa com os traders na estreia da empresa na Bolsa de Nova York.| Foto: Johannes EISELE / AFP

De uma boa ideia de Garrett Camp e Travis Kalanick durante uma manhã nevada em Paris, em 2008, a um empresa já internacionalizada em 2012. A simples opção de se solicitar um carro pelo celular e que hoje faz parte da rotina de bilhões de pessoas no mundo é resultado do caminho meteórico da Uber Technologies, ou apenas Uber.

Tanto o crescimento da marca como a diversificação e expansão dos serviços, com operações dedicadas ao delivery de alimentos ou mesmo ao transporte de empresas, foram financiados por grandes fundos internacionais, que acreditaram no sucesso do negócio e tiveram ganhos elevados.

Mais recentemente a Uber estava levantando recursos com fundos árabes, que não possuem a mesma qualificação no mercado financeiro internacional e, assim, para não diminuir o valor da marca face ao estreitamento da obtenção de recursos, surgiu a opção para o lançamento de ações no mercado.

Para uma empresa ter ações negociadas em Bolsa de Valores é necessário fazer uma Oferta Pública Inicial (no mercado de capitais denominado IPO – Initial Public Offering). Com isso as ações da empresa são disponibilizadas no mercado e os investidores interessados podem comprar a quantidade desejada ao preço estipulado pela empresa para o lançamento das mesmas.

Ao efetuar o lançamento das ações e ter aberto o seu capital, a empresa passa a ser regulada pelos órgãos competentes a fim de proteger e assegurar os direitos dos acionistas. A fim de exercer a regulação interna, os proprietários da empresa devem criar um Conselho de Administração – os membros integrantes serão eleitos ou designados, conforme os estatutos – que, a partir da sua instalação, supervisionará as atividades da empresa.

Embora o IPO da Uber Technologies tivesse a expectativa de ser um dos maiores efetuados por empresas de tecnologia e o maior de 2019, isso não se confirmou no último dia 10 de maio.

Tal decepção tem algumas origens relacionadas com o próprio negócio, mas, também, com o ceticismo que passou a cercar a economia mundial face ao acirramento do conflito comercial entre os Estados Unidos e a China.

A principal razão do fraco interesse pelas ações da Uber se relaciona à tendência vendedora, na manhã em que ocorreu o IPO, de papéis da Lyft Business – principal concorrente da Uber. Esse comportamento está vinculado diretamente com os resultados enfraquecidos que a Lyft divulgou recentemente, e, por estar no mesmo setor de atividade, os reflexos repercutiram no interesse pelas ações da Uber.

Outro componente significativo é o custo operacional do negócio, cada vez mais elevado e que já sofreu, na semana passada, movimento grevista para aumento de remuneração de seus operadores, direção que pode ter sido interpretada, pelo mercado e pelos principais investidores, como uma desaceleração do seu crescimento.

Além disso, com as declarações governamentais sobre elevação de tarifas protecionistas nos EUA e na China, confirmou-se a expectativa pessimista que os investidores já haviam demonstrado no IPO de 6ª feira passada: no primeiro pregão pós IPO, os papeis da Uber ficaram 7,6% abaixo do preço fixado para a oferta inicial, durante esta semana já chegaram a uma queda de 18% e na sexta-feira (17) registravam queda de mais de 5% sobre o valor de lançamento.

Embora esse resultado seja preocupante, é interessante saber que no IPO do Facebook em 2012 as suas ações caíram mais de 50% nos primeiros três meses e, ao longo do tempo, tiveram recuperação com posterior perda em 2018 face ao anúncio de seus resultados naquele momento. Portanto, o comportamento das ações é instável, sujeito a inúmeras situações econômicas, políticas e sociais.

Ao Uber e seus acionistas resta perseguirem os bons serviços oferecidos, ampliar a inovação – está em andamento o projeto de veículo com direção autônoma – e esperar por uma forte geração de resultados, além de esperar pela estabilidade da economia mundial. É dessa forma que o mercado valoriza as ações.

*Prof. Dr. Francisco Américo Cassano é doutor em Ciências Sociais – concentração em Relações Internacionais, professor adjunto e pesquisador do tema Relações Econômicas Internacionais na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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