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"É preciso permitir que a diversão aconteça naturalmente [no ambiente de trabalho]. Fazer algumas coisas loucas e estranhas com sua equipe também ajuda." Bill Capodagli |
"É preciso permitir que a diversão aconteça naturalmente [no ambiente de trabalho]. Fazer algumas coisas loucas e estranhas com sua equipe também ajuda." Bill Capodagli| Foto:

Onze filmes, onze sucessos e, para muitos, alguns clássicos. A história da Pixar, produtora de filmes de animação como Toy Story, Os Incríveis e Ratatouille, deve servir de inspiração para empresas brasileiras, segundo o consultor norte-americano Bill Capodagli, autor do livro Nos Bastidores da Pixar. Ele fez palestra ontem no primeiro dia da 10.ª Feira de Gestão, evento realizado pela FAE Centro Universitário. Para Capodagli, que estudou três empresas brasileiras para se preparar para o evento, a grande lição da Pixar para os executivos do país é a "atmosfera de diversão". Segundo ele, em sua pesquisa, raramente um funcionário brasileiro descrevia seu dia de trabalho como divertido. "Às vezes é preciso fazer coisas malucas com sua equipe de trabalho", afirma. Veja os principais trechos da conversa com a Gazeta do Povo.

No livro, o senhor comenta bastante a filosofia da Pixar de estimular os funcionários a ver o mundo pelos olhos de uma criança. O que isso significa para uma empresa?

Quando somos crianças, podemos sonhar com qualquer coisa ao alcance da nossa imaginação. Aí chega uma idade em que começamos a pensar mais como um adulto, e o pensamento criativo fica limitado. A Pixar permite a seus funcionários desenvolver essa imaginação do tempo da infância. Acho que mais organizações poderiam fazer isso.

Como? Quais são os incentivos para que isso aconteça?

Há diversas maneiras, e no livro elas são listadas. Uma das coisas cruciais que as organizações devem ensinar é a improvisação. Ensinar os funcionários a reagir a um estímulo da maneira correta. A questão não é "o que meu chefe gostaria que eu dissesse agora", mas sim falar sobre seu sentimento verdadeiro em relação a um assunto determinado. Criar uma atmosfera de diversão também é importante. John Lasseter [um dos principais animadores da Pixar] diz bastante isso: "trabalha-se muito aqui na Pixar e muitas e muitas horas são empenhadas para produzir um filme de animação." Mas ele lembra que os funcionários também se divertem muito, e é por aí que flui a criatividade.

Os dois fundadores da Pixar, Ed Catmull e Alvy Ray Smith, segundo o livro, acreditam que "arte é um trabalho em equipe". O que a Pixar faz e como as empresas podem melhorar o trabalho em conjunto?

A coisa mais importante do trabalho em equipe é a colaboração. Todos os integrantes de uma equipe são tão importantes quanto todos os outros. Ed Catmull conta que muitas vezes é questionado sobre a razão de a Pixar ter sempre ótimas ideias. Ele sempre responde que não concorda com isso, argumentando que você pode dar uma boa ideia para uma equipe medíocre e eles podem estragá-la. Da mesma maneira, você pode dar uma ideia medíocre para uma boa equipe e eles podem transformá-la em um ótimo filme de animação. Ele acredita que é tudo uma questão de ter uma boa equipe e de todos os integrantes terem responsabilidades, ainda que pequenas. O principal é fazer com que todos sintam que estão contribuindo para o sucesso do resultado final.

Isso também tem a ver com a autonomia dos funcionários?

Sim, os diretores continuando tomando as decisões, mas todo mundo pode dar um pitaco. Uma outra coisa bem importante que se vê na Pixar e não acontece muito em outras organizações é a transparência na tomada de decisões. Lá, elas são feitas de maneira clara e transparente perante todos os funcionários.

E por que as empresas têm tanto problema com essa questão da transparência?

Por décadas temos promovidos líderes que carregam essa imagem de ser os mais durões, que fazem as coisas acontecer. Os jovens chegam no mercado vendo isso e começam a imitar. Na Pixar, esse ciclo foi quebrado. As empresas precisam entender que esse modelo de negócio já não serve para o mundo de hoje.

A sua palestra fala especificamente de como as empresas brasileiras podem aprender com a Pixar. Na sua pesquisa sobre as companhias daqui, o que mais o impressionou?

Eu pesquisei principalmente três empresas: Embraco, Bema­tech e Neogrid. Na Embraco, uma das coisas interessantes que vi foi a colaboração da empresa com as universidades. Eles trabalham para preparar os estudantes para o mundo real, não para o mundo dos livros textos. E 40% das novas contratações vêm dessas parcerias com universidades. Na Neogrid, uma das coisas que eles fazem muito bem é a comunicação de seus objetivos. Muitas companhias colocam suas missões e valores para os funcionários, gastam muito tempo para defini-los, mas não internalizam essas questões. A missão e os valores se tornam apenas palavras no papel. Na Neogrid, eles têm reuniões regulares para reforçar esses valores e a missão da organização. As empresas precisam fazer mais isso. Não se pode implementar um valor apenas em uma reunião. É preciso reforçar a ideia constantemente.

Do que você observou, o que as empresas daqui podem aprender com a Pixar?

A criar uma atmosfera de maior diversão. Acho que nenhum funcionário das empresas que eu ouvi descreveu seu dia de trabalho como divertido, com exceção da equipe de pesquisa e desenvolvimento da Embraco. Lá, no "parquinho", como eles chamam essa área, os funcionários são inclusive encorajados a gastar várias horas por semana em projetos que podem até não ter relação alguma com as linhas de produto da empresa. Acho que se divertem.

Como criar esse ambiente de diversão?

É preciso permitir que ele aconteça naturalmente. Fazer algumas coisas loucas e estranhas com sua equipe também ajuda. Uma coisa que a Pixar faz é levar os funcionários para um passeio de vez em quando. Por exemplo, levá-los para uma galeria de arte e depois fazê-los pensar sobre como a arte se compara ao produto que vendem.

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