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Fábrica de microcomputadores no interior de São Paulo: segmento recuou quase 30% na comparação com 2007 | Divulgação
Fábrica de microcomputadores no interior de São Paulo: segmento recuou quase 30% na comparação com 2007| Foto: Divulgação

Brasil deve ter "recessão técnica"

A retração da indústria em novembro rebateu no Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2008, que, segundo estimativas de analistas, deve cair de 1% a 1,7% na comparação com o terceiro trimestre. Os especialistas acreditam também em uma queda no primeiro trimestre de 2009, o que colocaria o país num quadro "de recessão técnica". "Os primeiros meses de 2009 vão ser ruins, com níveis ainda altos de estoques. O PIB sentirá esse impacto e há uma chance preponderante de uma recessão técnica", afirma Bráulio Borges, da LCA. Conceitualmente, um país está em recessão quando o PIB se contrai por dois trimestres consecutivos. Para Thaís Zara, da Rosenberg & Associados, o PIB também deve recuar neste trimestre. "É bem provável que o Brasil esteja em recessão técnica." Já Claudia Oshiro, da Tendências, diz que o risco existe, mas tal cenário ainda não se configura. A consultoria projeta uma estabilidade do PIB no primeiro trimestre de 2009. Para Gilberto Braga, do Ibmec, os dados mostram que, "se a economia teve um setembro negro, a indústria teve um novembro negro."

  • A crise em números

Em apenas 60 dias, entre outubro e novembro, a produção industrial brasileira acumulou queda de 7,8%, uma perda que, historicamente, só foi registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre outubro de 2002 e junho de 2003. Essa foi a comparação usada pelo coordenador de indústria do IBGE, Silvio Sales, para demonstrar a abrupta mudança de cenário em decorrência dos efeitos da crise econômica mundial. "Esses dados dão ideia da alteração brusca de cenário sobre o fluxo de produção", afirmou.

Ontem, o IBGE divulgou que em novembro a indústria produziu 5,2% menos do que em outubro, na maior queda apurada pelo instituto desde maio de 1995. Com relação a novembro de 2007, a retração foi de 6,2%, a maior desde dezembro de 2001. O IBGE também reviu o nível de produção de outubro, que ampliou a queda de 1,7% para 2,8%. Mesmo com resultados tão ruins, no ano passado até novembro, a produção industrial acumulava alta de 4,7%.

"A redução da produção industrial foi um dado horrível. Ela indica o decréscimo expressivo da atividade das fábricas, sobretudo de bens duráveis, não só por causa da pouca oferta de crédito, mas também pela baixa demanda", afirmou o economista-chefe da LCA Consultores, Braulio Borges, para quem a queda acumulada da produção em outubro e novembro foi uma freada tão forte que quase corroeu a expansão de 8% apurada nos 16 meses anteriores, de maio de 2007 a setembro de 2008. "Afinal, quem vai assumir um crediário de 12 meses de uma televisão se não sabe se ficará empregado?"

Os dados da produção industrial de novembro mostram que "houve um aprofundamento da queda industrial e alargamento dos setores atingidos", disse Sales, do IBGE. Segundo ele, desde que 27 segmentos passaram a ser pesquisados na série com ajuste sazonal (na comparação com mês anterior), em janeiro de 2002, nunca houve uma queda de tantas atividades – na última pesquisa, 21 dos 27 subsetores registraram encolhimento da produção. "Vários informantes da pesquisa apontaram a adoção de férias coletivas e a redução de pedidos internos e externos como justificativa para a queda brusca na produção em novembro", disse Sales.

Segmentos

A produção de bens de consumo duráveis foi, entre as categorias de uso pesquisadas pelo IBGE, a que teve maior impacto. A produção neste segmento teve queda de 20,4% em novembro ante outubro e recuo de 22,1% na comparação com novembro de 2007.

O coordenador do IBGE explicou que o mau desempenho desse segmento ocorreu porque se trata da área mais sensível à redução da oferta de crédito. A queda dos bens de consumo duráveis foi puxada, especialmente, pelos automóveis (-34,2% ante novembro de 2007). Além dos veículos, houve queda em eletrodomésticos (-12,9%) e celulares (-4,6%).

Outros impactos negativos importantes, em novembro ante outubro, vieram de máquinas e equipamentos (-11,9%), edição e impressão (-14,8%), indústrias extrativas (-10,9%) e metalurgia básica (-10,2%). Na comparação com novembro de 2007, os destaques negativos ficaram por conta de produtos químicos (-13,0%), material eletrônico e equipamentos de comunicações (-20,5%) e máquinas para escritório e equipamentos de informática (-29,7%).

Perspectivas

Para dezembro, Borges, da LCA, estima que a produção industrial continuará em queda e deve registrar um recuo de 1,7%. Se este número for confirmado, ocorrerá uma baixa de 9,98% no último trimestre de 2008, a pior retração desde a redução de 12,5% apurada de março a maio de 1995.

Na avaliação do economista, o resultado negativo que deve ter ocorrido no mês passado está muito ligado ao aumento contínuo dos estoques das companhias. "A sondagem industrial da FGV apontou que a proporção de empresas que apontam estoques excessivos subiu de 15,7% em novembro para 21% em dezembro", apontou. "Ou seja, os estoques não só não baixaram como subiram de forma expressiva no fim do ano passado."

Para a LCA, a robusta desaceleração aumentou muito a possibilidade de o Banco Central reduzir os juros de 13,75% para 13,25% na próxima reunião. "O Copom deve cortar os juros em 2,5 pontos porcentuais neste ano, boa parte no primeiro semestre para dar mais ânimo ao nível de atividade", disse.

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