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Uma nova recessão global deve ocorrer até 2020, mas políticos insistem em olhar os problemas de ontem

Ex-secretário de Clinton e ex-assessor de Obama projeta uma nova recessão mundial com base nos atuais indicadores da China e dos Estados Unidos

  • Lawrence H. Summers*
  • Washington Post
Summers, em entrevista à emissora americana CNN, no último dia 8 de janeiro. | Reprodução CNN
Summers, em entrevista à emissora americana CNN, no último dia 8 de janeiro. Reprodução CNN
 
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Você pode dizer que uma pessoa é fundamentalmente saudável desde que você não consiga apontar, de pronto, o que causará sua morte. Da mesma forma, uma economia parece estar se recuperando bem quando não está claro o que causará a próxima recessão. Segundo este padrão, a recuperação da crise financeira de 2008, apesar de decepcionantemente lenta, foi saudável durante a maior parte da última década.

Agora, isto está sendo colocado em dúvida.O famoso gracejo de Paul Samuelson de que o mercado de ações previu nove das últimas cinco recessões prevê uma reação exagerada aos recentes movimentos do mercado. Mas os spreads de crédito aumentaram consideravelmente, os preços das commodities estão diminuindo e os investidores começaram a exigir rendimentos mais elevados para obrigações de curto prazo dos EUA do que para aqueles com prazos mais longos.

Diferentemente dos mercados de ações, tais “inversões da curva de rendimento” não tendem historicamente a produzir falsas previsões de recessão.

O julgamento geral dos mercados financeiros é de que uma recessão é mais provável do que nunca nos próximos dois anos.

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Indicadores da economia real para as maiores economias do mundo – China e Estados Unidos – também sugerem motivos de preocupação. Quase todos os indicadores chineses nos últimos meses ficaram abaixo das expectativas. Pequim agora vê a necessidade de medidas de estímulo para relatar com credibilidade a consecução das metas de crescimento. As revisões de previsões econômicas tendem a seguir na mesma direção por períodos prolongados, à medida que quem prevê se ajusta às realidades emergentes. Essa tendência é especialmente pronunciada na China, dada a extrema sensibilidade política das estatísticas econômicas.

Nos Estados Unidos, a inflação está novamente abaixo da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e as comparações dos rendimentos dos títulos ordinários e ajustados à inflação sugerem que os investidores esperam que isso continue na próxima década. Embora o crescimento dos empregos continue forte, este é uma estatística atrasada. Os indicadores prospectivos de confiança das empresas e dos consumidores sugerem que o crescimento deve desacelerar.

Talvez a economia dos EUA desfrute de um pouso suave: o crescimento dos empregos diminuiria em direção a níveis sustentáveis de longo prazo, e o crescimento da produtividade aceleraria o suficiente para permitir crescimento continuado do produto interno bruto de 2% e aumento salarial sem acelerar a inflação. Mas isso exigiria habilidade política e muita sorte. Dado que estamos partindo de níveis de dívida muito altos e baixo desemprego, uma recessão é o resultado mais provável.

É quase inconcebível que a economia global permaneça saudável diante de sérios problemas econômicos tanto na China quanto nos Estados Unidos, deixando de lado seus conflitos sobre comércio e tecnologia. A Europa não tem energia econômica, e as incertezas associadas ao Brexit, protestos franceses, transição política alemã e populismo italiano significam que o continente tem mais probabilidade de ser uma fonte de problemas do que de solução.

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Como generais lutando na última guerra, muitos formuladores de políticas estão focados nos problemas de ontem.

É muito mais provável que a economia global sofra uma desaceleração do que um superaquecimento nos próximos dois anos. É mais provável que haja fluxo menor de crédito do que excessivo, a deflação dos preços dos ativos é mais provável do que uma bolha, e o excesso de austeridade é um risco maior do que o desregramento.

O desafio crítico para a política monetária e fiscal será manter demanda suficiente em meio a uma imensa incerteza geopolítica, aumento do protecionismo, altos níveis de endividamento acumulado e fatores estruturais e demográficos que levam ao aumento da poupança privada e um menor investimento privado.

O Fed deve sinalizar que está determinado a evitar uma desaceleração, o que garantiria mais uma década de inflação abaixo da meta. O Banco Popular da China e outros bancos centrais também devem deixar claro que reconhecem que evitar outra recessão é a coisa mais importante que podem contribuir para a estabilidade financeira.

Os formuladores de políticas fiscais também devem perceber que o rendimento real muito baixo dos títulos do governo é um sinal de que mais dívidas podem ser absorvidas. Não é cedo demais para começar os planos para lançar projetos de infraestrutura de grande escala se houver uma recessão.

As maiores economias devem tentar limitar os atritos comerciais e sinalizar que estão comprometidos em cooperar para apoiar o crescimento global, garantindo fluxos de capital adequados para os mercados emergentes e evitando um ciclo de protecionismo.

Mesmo que meus temores de recessão sejam excessivos, uma mudança para enfatizar o crescimento contribuirá para elevar a inflação aos níveis desejados e pode ser revertida. Se eu estiver certo, os custos de atraso na resposta da política podem ser catastróficos. É uma a ironia do nosso momento que a prudência requeira a rejeição da austeridade.

*Lawrence H. Summers é professor e foi o último presidente da Universidade Harvard. Ele foi secretário americano do Tesouro de 1999 a 2001 e assessor econômico do presidente Barack Obama de 2009 até 2010

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