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A escola deve frear a “informalização” do português?

Comunicação acelerada e uso das redes sociais impulsionam uma transformação já natural. Como lidar com ela?

  • Filipe Albuquerque, especial para a Gazeta do Povo
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Vai malandra, an an/Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum/(...) tá pedindo, an an, se prepara, vou dançar, presta atenção, an an tutudum an an/cê aguenta, an an, se eu te olhar, descer, quicar até o chão (...) se eu começar embrasando contigo é taca taca taca taca 

Se você é pai ou mãe de adolescentes, tem irmãos ou sobrinhos nessa faixa etária, talvez já tenha flagrado alguns deles ouvindo ou cantando a letra de “Vai malandra”, de Anitta e MC Zaac. E se observou algumas das conversas deles via redes sociais e aplicativos de mensagem, já deve ter observado expressões como vlw flws!, blz, crush, ‘pode pá’, ‘tá serto’, ‘thanx’, OMG, LOL.

É inegável que o processo de “informalização” da língua portuguesa, com a supressão de construções mais rigorosas e sofisticadas em troca da agilidade, tem se acelerado. E as mudanças são naturais. 

“Temos que partir do princípio que as línguas naturais humanas são um organismo vivo e em constante movimento, sendo reconstruído pelos próprios falantes”, explica Angela Mari Gusso, doutora em estudos linguísticos e professora do curso de Letras da PUC-PR. “A língua não é uma estrutura estática, pronta”, acrescenta. 

Mas será que essa simplificação do vocabulário, acompanhada da evolução natural da língua, não deve ser vista com preocupação pela escola? Apesar de menos atrativa para boa parte dos jovens, a variante formal do idioma ainda é cobrada, de forma geral, na academia e no mundo profissional.


Publicado por Educação - Gazeta do Povo em Sexta, 23 de fevereiro de 2018

Empobrecimento

Anderson Basi, professor de Língua Portuguesa e Língua Espanhola do Colégio Bosque Mananciais, de Curitiba, defende que a ideia de transmitir uma mensagem ligeira, apenas para que seja compreendida, tem sublimado aspectos importantes do idioma, e que as escolas precisam cuidar para que não haja um empobrecimento da gramática. 

“Em determinados contextos há a necessidade da estrutura correta da gramática. As redes sociais empobrecem essa gramática, porque qualquer maneira que eu escreva já possibilita a comunicação, sem necessidade de uma linguagem mais formal. Acho que isso prejudica o aluno posteriormente porque ele não tem uma estrutura que possa servir de modelo”, aponta. 

Basi diz já ter identificado em redações e textos produzidos por alunos o uso de abreviações semelhantes às encontradas nas conversas via redes sociais e aplicativos de mensagens. 

Ele conta que, para explicar como trafegar por ambientes diferentes utilizando as possibilidades infinitas que a língua oferece, estudantes redigiram dois textos para receptores diferentes. Em um deles, elaboraram uma resposta a uma pergunta feita no blog da MTV; em outro, redigiram uma petição a ser encaminhada ao prefeito de Curitiba, Rafael Greca. 

Anglicismos 

Pegar emprestadas palavras e expressões de outro idioma não é um fenômeno dos dias atuais. Nos tempos do Império, o sofisticado era incrementar frases com palavras vindas do francês. É comum ouvir, entre filhos e netos de italianos, por exemplo, o uso de expressões do idioma de seus antepassados em meio a frases ditas em português. 

Rafael Morais, professor de Língua Portuguesa do nono ano do Colégio Rio Branco, de São Paulo, defende que toda a língua é viva e é também um fato social, e que portanto se constitui de empréstimos, seja de palavras de outros idiomas, seja de expressões e gírias. 

Morais afirma que seus alunos conseguem distinguir os ambientes por onde trafegam e quais códigos usar para cada um deles. Ainda assim, ele diz que uma das maneiras de manter o estudante interessado na língua portuguesa e suas possibilidades é mostrando que a língua não é algo estanque, presa no tempo.

“Mostramos que a língua pode variar e que competente é quem sabe tanto dar conta de participar das redes sociais quanto escrever uma boa redação na norma padrão”, opina.

Segundo o professor, o colégio está atento à necessidade de mostrar que cada contexto demanda um uso da língua. E que se o momento é o de produção de um artigo acadêmico, o contexto pede o conhecimento e a aplicação da norma formal. 

Para Angela, é fundamental que as instituições de ensino saibam demonstrar ao aluno que existem palavras em português que dão conta de explicar qualquer tipo de ocasião, sem necessidade de anglicismos. “É uma situação com a qual a escola tem que conviver. A escola tem que mostrar que em uma situação mais formal você pode recorrer aos termos da sua língua”, avalia. 

Espaço de serenidade e leitura 

Para além da gramática “alternativa” adotada por muitos jovens, a informalização da língua acaba por prejudicar a profundidade de argumentação.

“Há um problema hoje que é mais de leitura e compreensão quando pensamos nas redes sociais. Ali a linguagem está muito fragmentada, não há preocupação com um pensamento mais elaborado”, diz Morais.

Para ele, o papel da escola é ser um espaço de serenidade, de leitura e interpretação, na contramão da ideia que impera em muitas instituições de ensino, de abraçar toda e qualquer possibilidade oferecida pela tecnologia. 

“O papel da escola é se posicionar, de certo modo, contra essa linguagem que vem das redes sociais, do mundo tecnológico”, aponta o professor, que conclui: “E isso é um posicionamento político. A escola precisa apostar no arroz com feijão. É isso que fará com que o aluno seja um leitor competente e escreva um bom texto”.

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