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Integridade da pesquisa pode ser garantida pela própria universidade. | Marcos SantosUSP Imagens.
Integridade da pesquisa pode ser garantida pela própria universidade.| Foto: Marcos SantosUSP Imagens.

A aplicação de recursos privados em universidades públicas sempre foi um tema controverso. Mas, recentemente (e lentamente), o cenário começa a mudar.

No Brasil, uma instituição particular (PUC-RJ) ainda é a que mais atrai investimentos de empresas privadas, de acordo com levantamento da revista britânica Times Higher Education; em oitavo lugar no ranking, a instituição é a única brasileira a entrar na lista das vinte universidades que mais atraem financiamento privado no mundo. 

Aos poucos, entretanto, o mesmo caminho começa a ser seguido por universidades públicas: a Unicamp, eleita melhor universidade da América Latina pela própria Times Higher Education, mantém parcerias com empresas privadas para seus laboratórios, centros de pesquisa e licenciamento de tecnologias. Em 2016, por exemplo, a universidade firmou parcerias com empresas como Samsung, IBM, Ericsson, Motorola e Ambev. 

“Muitos institutos que têm relações com empresas privadas conseguem agregar uma boa fonte de financiamento ao seu orçamento anual, inclusive se tornando relativamente independentes, em termos de financiamento, da estrutura da universidade”, aponta Fausto Nomura, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás (UFG). 

Para Nomura, financiar a pesquisa por meio de verba privada pode ser uma alternativa para proteger as universidades públicas dos cortes orçamentários, comuns em períodos de crise econômica. 

Quando esteve à frente da Universidade de Brasília, entre 2012 e 2016, o reitor Ivan Camargo também colocou a instituição nessa direção. 

“As universidades públicas precisam radicalizar nessas parcerias com a iniciativa privada, porque pesquisa custa caro. O que é dramático é que,em  crises fiscais, as universidades param. Precisamos diversificar as fontes de receita para pesquisas”, disse o ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB)  disse ele, em entrevista à Agência Brasil.

Em média, o valor dos vencimentos desses docentes é 135% maior do que no setor privado!#GazetadoPovo via Educação - Gazeta do Povo

Publicado por Gazeta do Povo em Quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Benefícios

As empresas também têm benefícios ao estabelecer parcerias com universidades – o maior deles, a propriedade intelectual de tecnologias e inovações. “Muito do capital financeiro que uma empresa pode agregar está na forma de patentes: ela pode não só dominar o produto, mas dominar também a propriedade intelectual sobre determinadas técnicas”, explica Nomura. 

Já estudantes e pesquisadores são beneficiados com a melhora da estrutura física, laboratórios e equipamentos de pesquisa; um diferencial tanto para o trabalho cotidiano, como para a melhoria da universidade em rankings de qualidade de ensino – as avaliações incluem o volume de pesquisa e, algumas delas, a estrutura física dos centros de pesquisa. 

Essas oportunidades já são parte do cotidiano de algumas instituições, como a UFG, que estabelece parcerias nos seus laboratórios de pesquisa para captação de recursos por meio da encomenda de pesquisas solicitadas tanto por empresas privadas quanto por corporações governamentais. 

Controvérsia

A relação das universidades com empresas, porém, ainda traz controvérsia no meio acadêmico: para alguns docentes e pesquisadores, essas parcerias são vistas como ameaças à integridade da pesquisa. 

“Há pessoas que acreditavam que a associação com o poder produtivo para o desenvolvimento seria a ‘prostituição’ da universidade brasileira. Esse problema já está mais equacionado, mas ainda há reitores que ganham eleição com o discurso de manter a universidade longe das empresas”, disse Jaime Santana, antigo pró-reitor de pesquisa e graduação da Universidade de Brasília, em entrevista à Gazeta do Povo.

Um dos maiores receios seria a influência da empresa sobre a pesquisa desenvolvida. Mas, de acordo com Nomura, essa preocupação não deveria existir. Afinal,  não há obrigatoriedade de associação – o pesquisador pode escolher participar da parceria mais adequada ao seu trabalho.

“Muitos acadêmicos defendem que a pesquisa deve ser independente dos interesses dos financiadores. Mas se o pesquisador não se sente confortável com uma determinada diretriz, basta ela não aceitar o financiamento privado”, pondera ele. 

Além disso, a integridade da pesquisa pode ser garantida pela própria universidade. Para isso, comitês de ética são encarregados de analisar os trabalhos desenvolvidos na instituição e aplicar sanções em casos que desviem dos padrões de ética de pesquisa. 

“A maior parte das universidades têm montado um comitê de ética”, explica Nomura. “É necessário que exista discernimento entre a comunidade científica para utilizar os dados, que eles sejam transparentes e, quando houver uma suspeita, as instituições investiguem de forma ética o desenvolvimento da pesquisa dentro da universidade”, conclui. 

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