Helsinque, na Finlândia
Helsinque, na Finlândia| Foto: Pixabay

País referência em Educação, a Finlândia fechou escolas por apenas dois meses desde que a pandemia teve início mundo afora. O retorno às atividades presenciais veio com uma intimação da primeira-ministra do país: professores que fossem contra a decisão deveriam pedir demissão e não se apresentar mais ao posto.

É o que conta a brasileira Ayla Patrícia Huovi, hoje professora na Finlândia. Ela é mestre em Pedagogia e Educação pela Universidade de Helsinque. Ayla também é intérprete do governo e consultora educacional.

A professora explica que o retorno às aulas não se deu de forma escalonada. "Todos foram convocados a voltar à escola, menos alunos e professores que pertencessem ao grupo de risco", afirma.

Ayla concedeu entrevista por e-mail à Gazeta do Povo e falou sobre outros temas como o currículo educacional da Finlândia, tecnologias da comunicação e da informação e métodos de alfabetização. Leia a seguir:

Como você identificaria as principais diferenças entre a educação brasileira e a finlandesa? Em termos, por exemplo, de estrutura, currículo, materiais didáticos, quadro de docentes, etc.

Aqui seguimos um plano educacional, as escolas, com raras exceções, não seguem uma linha pedagógica. Educação não se mistura nem com política, nem com religião na Finlândia. O plano educacional deve sempre ser seguido independente do partido que esteja no poder, e ele não pode ser mudado. A cada 10 anos, ele sofre um “upgrade”, feito por cientistas educacionais e não por políticos.

Temos apenas cinco editoras que são responsáveis pelo nosso material didático e todo o material segue o currículo nacional. O ano letivo é menor, temos 190 dias letivos por ano. Esses, na minha opinião, são os principais pontos que diferenciam a educação finlandesa da brasileira.

Quais foram as bases da revolução educacional finlandesa?

Cidadania, autonomia e confiança. São até hoje. A Finlândia sempre foi um país pobre, que sofreu com inúmeras guerras e com uma baixa população, além de ter tido longos períodos de fome, crises econômicas pós-guerra. A revolução educacional começou na década de 60, com o slogan "não podemos perder mais ninguém”. O governo entendeu que a educação teria o papel de reerguer o país, por este motivo seriam formados cidadãos e não alunos. Para isso, contaríamos com os professores, que seriam escolhidos a dedo. Aos professores e alunos foram dadas autonomia e confiança.

Em sua perspectiva, enquanto educadora em um país referência em educação, o que seria necessário ao Brasil para galgarmos melhores patamares na área? Por que, em sua opinião, permanecemos nas últimas colocações em rankings como Pisa e não conseguimos alfabetizar alunos – mais da meta chegam ao terceiro ano sem saber ler e escrever? Onde erramos?

Selecionar o joio do trigo, formar professores que tenham competência e abracem a profissão como quem abraça um sacerdócio, uma missão. Somente as melhores universidades do país poderiam formar professores, todos deveriam ter mestrado e excelência na profissão.

Em meu mestrado, estudei a fundo a história educacional da Finlândia. Também trabalhei na secretaria de educação, onde tive acesso a diferentes líderes educacionais de diferentes países, como da Cingapura, por exemplo. Absolutamente todos os países começaram uma revolução na educação pelos professores.

É como na guerra: os melhores estrategistas lideram as tropas. Ou no pós-guerra: sem líderes, as cidades não se reconstruiriam, os professores são o começo, o meio e o fim de tudo - a chave mais importante do processo educacional. Somos nós, professores, que estamos novamente salvando o futuro do país nesta pandemia, por exemplo. Não são os prefeitos, governadores ou presidentes. Existem muitos professores sem qualificação sendo responsáveis por alunos no Brasil. Erramos aí e continuamos errando.

É possível reproduzir ou estender o modelo finlandês no Brasil?

Não é possível, pelo simples fato de que modelos educacionais dependem de fatores como clima, história e cultura. Cada país deve ser responsável pelo seu modelo. O que dá para ser feito e, na minha opinião, deve ser feito, é adaptar boas práticas.

Há interlocutores que afirmam que o magistério é a carreira mais popular entre os jovens. Isso é, mesmo, verdade? Você concorda?Que evidências práticas existem acerca disso?

Já foi. Hoje em dia não é mais. Porém, está entre as top 10 profissões mais desejadas e entre as cinco carreiras mais difíceis de serem alcançadas. A número 1 atualmente é a profissão de medicina veterinária. O processo seletivo para o magistério aqui inclui provas escritas, vocacionais e entrevistas.

A profissão se diferencia das outras áreas e, na Finlândia, para ser um professor alfabetizador, é preciso estudar, no mínimo, cinco anos (mestrado incluso). Já para ser professor no ensino especial, são necessários, no mínimo, seis anos de estudo. Não adianta, por exemplo, o aluno ter conseguido uma ótima nota no vestibular e ter conseguido a vaga se, na entrevista com a bancada da universidade, ele demonstrar que não tem o “fogo” necessário para ser um professor. Se isso ocorrer, a prova dele é anulada. É preciso ter notas e vocação.

Um dos pontos que diferencia a Finlândia de grande parte da comunidade internacional é a maneira como os testes/exames são vistos. Poderia nos explicar sua percepção com relação ao tema? Isso é, de fato, o país não aplica tanto testes, vê a ferramenta mais como mercadológica?

Temos testes, provas e vestibular. Acreditamos na importância e na necessidade deles como ferramenta de trabalho, mas não pensamos que no processo avaliativo eles sejam mais importantes do que a autoavaliação, por exemplo. Nas transições de níveis, as notas são importantes. As universidades e os ensinos médio especializados em alguma área exigem notas de corte e aplicam exames de entrada. Temos, além dos exames de entrada, entrevistas e, no caso de algumas profissões, experiência de trabalho ou voluntariado. É lenda urbana dizer que na Finlândia não se aplica testes, provas ou deveres de casa.

O nosso sistema avaliativo é, sim, invejável. Pois, como preparamos um cidadão e não apenas um aluno, é muito importante desenvolver as habilidades, além do conhecimento e, para isso, temos avaliações cognitivas, diagnósticas, comparativas, formativas, autoavaliação (sem aplicação de notas, um diferencial).

Poderia nos explicar, em linhas gerais, que evidências são adotadas no processo de alfabetização de crianças na Finlândia? Isso é, quais abordagens/métodos são utilizados?

O idioma finlandês não é o bicho de sete cabeças que se pinta por aí. Mas como possui muitas consonantes e vogais juntas, o método de alfabetização utilizado é o silábico, e isso não muda. A alfabetização começa aos 7 anos, no primeiro ano do ensino fundamental.

Até a pré-escola, a criança tem como "tarefa" brincar e aprender a respeitar ao máximo o próximo. A principal tarefa da professora, nessa etapa, é fazer com que a criança não "dê trabalho" para a professora de alfabetização. Obviamente, na creche, ela tem contato com letras, números e livros, e a introdução é totalmente lúdica, através de brincadeiras.

O aluno adquire seu primeiro caderno, por exemplo, aos 7 anos. Ninguém é obrigado a saber ler ou escrever aos 5 ou 6 anos, mas é obrigado a aprender pequenos atos de civilidade: calar quando o outro fala, dizer obrigado, fazer silêncio enquanto a professora explica etc.

Em geral, há consenso entre pesquisadores, educadores e outros interlocutores com relação às evidências científicas sobre o melhor caminho para se alfabetizar, por exemplo?

Para o idioma finlandês, sim. Pois é um idioma com muitas particularidades, mas cada professor alfabetizador escolhe a melhor forma de ensinar, temos essa liberdade. Já sabemos que o método silábico é o mais recomendado, embora não obrigatório, ao idioma finlandês. Os livros do primeiro ano já são impressos com a separação de sílabas.

O mais importante é que os professores, que têm total liberdade no ensino da alfabetização, sincronizem ou expliquem o método utilizado aos responsáveis, para não causar nenhum trauma de leitura na criança. A tarefa de alfabetizar é do professor e não dos responsáveis, que podem ajudar no processo, mas nunca atrapalhar.

Imagine o caos na cabeça de uma criança que aprende a ler de uma forma na escola e, em casa, o responsável fala "isso aí está errado, porque na minha época era assim, vem aqui que vou te ensinar de forma diferente”. Pronto, deu-se o caos!

A taxa de analfabetismo absoluto na Finlândia é de 0%. Por outro lado, há os analfabetos funcionais. A alfabetização do futuro chegou, não é ensinar a ler, mas como ler.

Qual a parcela de responsabilidade das chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) em sua perspectiva, no sucesso educacional finlandês? Há peso grande para isso?

A pandemia veio para nos mostrar que somente a tecnologia na educação é algo desastroso. Tudo em excesso é prejudicial. Imagine uma escola que adota 10 programas diferentes e todo professor deve, além de estudar, dar aulas, alimentar e utilizar esses programas? A síndrome de Burnout seria o resultado. Não acreditamos no ensino 100% online. Mas podemos pensar em 50%, sim. A tecnologia é necessária, mas deve ser enxuta e prática.

Como a meritocracia é vista na educação da Finlândia? Há espaço para isso?

Nossa primeira-ministra é uma jovem de 35 anos que nunca teve contato com o pai, pois foi abandonada por ele e criada e educada pela mãe lésbica e sua companheira. Ela veio de uma família pobre e trabalhou como caixa de supermercado. Em 1921, quando se estabeleceu que a educação "salvaria o futuro da Finlândia", o ensino privado passou a ser gratuito e obrigatório, mas, ainda assim, o nível educacional do país era baixo. Somente em 1943, quando o governo passou a fornecer comida nas escolas, o número de alunos aumentou.

O governo adotou o Estado de Bem-Estar Social e, desde então, a meta foi fornecer educação gratuita, de qualidade e com igualdade para todos. Mesmo assim vemos desigualdade social na Finlândia. Embora não seja gritante como no Brasil, ela existe. Atribuir a meritocracia a um Estado de Bem-Estar Social é utopia.

É inegável que os diretores-executivos de grandes empresas são escolhidos de forma meritocrática e não democrática, ao contrário dos políticos. Existe sim meritocracia na educação. Quando premiamos os melhores professores do ano, as melhores ideias, isso é meritocracia. Fazemos isso aqui, sim.

Em quanto tempo de pandemia se deu a reabertura das escolas na Finlândia e como foi esse processo? Volta escalonada? Protocolos de segurança rígidos?

A Finlândia fechou escolas por dois meses. Nesse tempo, o número de denúncias de violência e abusos aumentaram. Foi um caos. Todos estavam com medo do desconhecido e sem saber como enfrentar a pandemia, mas sabíamos que se professores ficassem estressados, e os alunos sofressem com problemas físicos e mentais, isso não ajudaria em nada o futuro do país.

Novamente, lembramos do slogan do pós-guerra "não podemos perder ninguém”. Imediatamente, a primeira-ministra decretou a reabertura das escolas e afirmou que os professores que fossem contra a decisão deveriam pedir demissão e não se apresentar ao seu posto.

O retorno às aulas não foi escalonado. Todos foram convocados a voltar à escola, menos alunos e professores que pertencessem ao grupo de risco. Protocolos de segurança foram adotados tanto para a escola quanto para as família. Afinal, de que adiantaria a escola ter protocolos e a família não obedecê-lo ou cumpri-lo? A responsabilidade e os cuidados deveriam ser divididos.

Que tipo de prejuízos - cognitivos, sociais - decorrentes do fechamento de escolas/paralisação de atividades acometeram os alunos da Finlândia?

Em uma pesquisa realizada logo após a reabertura das escolas, 90% dos alunos responderam que não assimilaram o conteúdo e perderam a motivação nos estudos, 50% desenvolveram sintomas de ansiedade e apenas 10% tiveram o apoio de um adulto ou responsável. E 40% ganharam peso. Em resumo, com apenas 60 dias de ensino 100% a distância, houve registro de depressão, ansiedade, obesidade, desmotivação e violência doméstica.

Com relação aos alunos que ficaram conectados sem supervisão, o acesso a jogos e à pornografia aumentou. Muitos professores, além disso, desistiram da profissão e pediram demissão. Houve excesso de atestado para afastamento por Síndrome de Burnout. Uma das principais coisas que aprendemos em 60 dias de aulas 100% online foi que esse sistema jamais será adotado na Finlândia. Na segunda onda, várias restrições foram impostas pelo governo, menos o fechamento das escolas. A melhor coisa na educação da Finlândia é poder prever o futuro. Por exemplo, em setembro foi dado um curso de“ Monitoramento, tutoria e motivação de alunos”, de duração de três meses e gratuito para os professores, pois através de pesquisas prevemos um número X de alunos que não dariam continuidade aos estudos após o ensino fundamental.

E nós, professores, seremos responsáveis por evitar essa evasão escolar antes que ela aconteça, para isso, estamos sendo aperfeiçoados. Não vamos esperar perder futuros pintores, enfermeiros, engenheiros, médicos, advogados, professores, construtores civis, etc. Vamos agir agora. Este é um curso que eu pretendo traduzir para o português e aplicar no Brasil, Afinal, boas práticas devem ser compartilhadas.

O país também se utiliza do ensino híbrido, certo? Como é isso, na prática?

Há 15 anos o ensino híbrido é utilizado na Finlândia. Me debrucei sobre o tema em minha tese no mestrado, em 2016. Se engana quem pensa que o simples fato de ter um computador em sala de aula caracteriza um ensino híbrido.

O ensino híbrido tem a ver com interação. Por exemplo, em uma aula sobre plantas, o aluno deve levar um celular a um jardim, floresta ou campo e tirar fotos de uma planta, colocar a imagem em algum aplicativo que lhe dará informações como espécie e, mais tarde, apresentar um projeto sobre o tema. Dentro deste processo, o aluno tem que ter noções de crítica, trabalho em grupo e conteúdo.

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