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 | Marcelo Elias /Arquivo Gazeta do Povo
| Foto: Marcelo Elias /Arquivo Gazeta do Povo

Se a reforma do ensino médio for aprovada como está, filosofia e sociologia farão parte da grade curricular comum dos alunos, mas não serão mais obrigatórias nos três anos dessa fase da educação básica. A decisão, tomada na Câmara dos Deputados na última terça-feira (13), precisa ainda ser confirmada no Senado. A discussão sobre a facilidade de fazer “doutrinação ideológica” por meio dessas disciplinas esteve no centro do debate sobre a sua manutenção. Confira alguns mitos e verdades sobre essa polêmica, segundo os professores Antônio Flávio Testa, sociólogo e cientista político da Universidade de Brasília (UnB) e Raúl Enrique Rojo, sociólogo, um dos docentes do programa de pós- graduação Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com tese de doutorado orientada pelo sociólogo francês Alain Touraine.

Verdade

Como filosofia e sociologia não são ciências exatas é mais fácil fazer doutrinação ideológica (de esquerda, de direita, religiosa, etc.) por meio delas.

Isso é verdade. “Com o pretexto de fazer um curso de sociologia ou de filosofia, você pode pretender doutrinar seus alunos. Mas isso também pode acontecer com um curso de religião, você pode querer doutrinar ou fanatizar seus alunos contra pessoas que não têm a mesma religião, esse perigo existe”, diz Raúl Rojo, da UFRGS. “Também, em algumas ditaduras pelo mundo, a disciplina foi usada para pregação de ideias autoritárias, facciosas, partidistas. Não podemos ser ingênuos”.

[Ao chegar ao Brasil, em 1993, depois de ter morado anos na França]. “Parecia que eu entrava em um túnel do tempo, que estava em 1960. Toda a autocrítica feita pela intelectualidade de esquerda nos anos 70 após informações e obras como a de Alexander Soljenítsin, do Arquipélago Gulag, para citar uma de tantas, parecia não ter existido para os brasileiros.”

Raúl Enrique Rojo Sociólogo e professor da UFRGS

Para ilustrar, Antônio Flávio Testa, da UnB, lembra ainda do debate sobre doutrinação ocorrida durante o governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), nos anos 1996 e 1997, quando se discutia a inclusão da sociologia no currículo, que acabou não prosperando, sendo o próprio presidente sociólogo. “Intelectuais próximos ao presidente FHC o aconselharam pela não introdução da matéria porque alegavam que havia o perigo de o ensino da sociologia ser deturpado. Isso porque não havia naquela época a quantidade de professores preparados e havia, segundo eles, a possibilidade que as igrejas usassem as disciplinas para passar conteúdo evangélico”, recorda.

Verdade

O pensamento de esquerda, socialista, ainda predomina nos cursos de filosofia e sociologia, ainda que isso esteja diminuindo nos últimos anos.

Que os conteúdos marxistas e de pensadores de esquerda são os mais ensinados em sala de aula, isso acontece, principalmente pela formação recebida pelos professores na universidade. O professor argentino Raúl Rojo conta a experiência que teve ao chegar ao Brasil, em 1993, depois de ter morado anos na França. “Parecia que eu entrava em um túnel do tempo, que estava em 1960. Toda a autocrítica feita pela intelectualidade de esquerda nos anos 70 após informações e obras como a de Alexander Soljenítsin, do Arquipélago Gulag, para citar uma de tantas, parecia não ter existido para os brasileiros”, diz o professor. “Era para eles ainda um mundo maniqueísta, de bons e maus, uma visão um pouco arcaica classista. As mentes foram se arejando, mas é certo que ainda possa haver uma abordagem enviesada”.

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Mas apesar desse cenário, é fato que outros autores e correntes de pensamento já fazem parte de pesquisas em universidades no país. “Há realmente no Brasil um predomínio do pensamento marxista e da esquerda francesa, mas em algumas escolas há um equilíbrio um pouco maior, onde se incorporou a discussão trazendo vários pensadores norte-americanos, ingleses e de outros países. E esse caminho é o que se tem adotado, em que se apresente a interpretação dos diversos pensamentos, o liberal, o de esquerda, o conservador”, confirma Testa.

Mito

Como há perigo de doutrinação, e filosofia e sociologia não servem para nada, melhor não ensinar essas matérias.

Deixar de dar essas matérias não é a solução, porque elas são importantes para a formação dos jovens. As disciplinas de sociologia e, principalmente, a de filosofia são as que mais facilmente ensinam o homem a pensar, o que diferencia os seres humanos dos animais irracionais e de reações violentas – nascidas, em geral, de um conhecimento superficial das circunstâncias, desprovido de senso crítico. “Pensando se pode deixar de ser animal, é uma obrigação da razão”, afirma Raúl Rojo. “A filosofia oferece conhecimentos não negligenciáveis, principalmente para as perguntas do sentido da vida, das razões últimas ou primeiras. Mas também para quem se preocupa pelos aspectos mais práticos da vida, ela não é desprezível, porque aumenta a cultura e desenvolve a argumentação”.

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No caso da sociologia, no cenário conturbado do Brasil de hoje, ela é muito útil na medida em que estuda as relações sociais, as causas sociais dos comportamentos coletivos, frisam os especialistas. E o fato de poder discutir – com argumentos, e não de forma violenta – conteúdos filosofia e sociologia é uma espécie de termômetro do grau de tolerância e pluralidade de uma sociedade.

Mito

Todas as correntes de filosofia e sociologia têm o mesmo valor.

Pluralismo não significa que se deve aceitar tudo. “Em nome da liberdade de pensamento, não posso dizer que o holocausto não existiu, que essa é uma opinião como qualquer outra. Na verdade, aceitá-la seria de alguma forma prolongar o genocídio”, exemplifica Raúl Rojo. “Quem, em nome da liberdade e dos direitos humanos, quer liquidar a liberdade e os direitos humanos não pode ter liberdade para defender essas ideias”, ressalta.

Verdade

É preciso acompanhar a formação do currículo comum para evitar aparelhamento ideológico.

Embora esse cenário esteja se diluindo, ainda há muita influência de partidos de esquerda nas universidades de filosofia e sociologia, que faz com que professores sob esta influência penalizem alunos que pensam diferente dos docentes. Por isso, e para que também o peso não vá, ao longo do tempo, para conteúdos de extrema direta, é necessária uma mobilização para garantir um equilíbrio no currículo, na formação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que vai orientar as escolas.

“Nas aulas, é preciso dar aos alunos condições de interpretar os vários pensamentos, as diversas interpretações da realidade social. Se o MEC [Ministério da Educação] determinar um conteúdo equilibrado, o professor deverá apresentar aquilo em sala de aula e isso deve ser cobrado nas avaliações. As secretarias de educação, os conselhos estaduais e os pais devem acompanhar esse processo para que seja assim”, analisa Testa. “Mas claro, todo esse processo é difícil de ser alcançado, porque tanto o MEC quanto o conselho nacional de educação sofrem pressões de todos os lados para colocar isso ou aquilo no currículo”.

Projetos, como o Escola sem Partido, que prevê penalizar o professor que fizer doutrinação ideológica, não ajudam já que podem cometer injustiças, de um lado ou de outro. E a pergunta que fica é, quem definirá o que é doutrinação ideológica? Os excessos, frisam os especialistas, devem ser contidos com ações positivas de tentativa de equilíbrio e honestidade intelectual.

Mito

É impossível encaixar o conteúdo dessas matérias para alunos de 15 a 17 anos dentro do currículo da forma como está o projeto de lei.

O projeto de lei prevê que sociologia, filosofia, artes e educação física sejam previstos obrigatoriamente no currículo comum de todos os alunos de ensino médio, que será definido na BNCC. Isso significa que se os alunos terão, em cinco anos, mil horas anuais em cada ano do ensino médio, nos três anos do ensino médio a BNCC, esse currículo comum, deverá representar 1.800 horas, ou seja 60% do total – os outros 40% serão destinados às áreas escolhidas pelos alunos para aprofundamento. É preciso ver como ficará a redação final da BNCC, mas se ela for bem estruturada, não comprometerá o ensino dessas matérias. “É mais ou menos o que acontece na França, em que há um tronco comum importante e a possibilidade de os alunos se aprofundarem nestas matérias”, afirma Raúl Rojo.

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