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opinião

O emburrecimento dos currículos universitários

Hoje a questão já não é saber se os alunos aprenderam corpos específicos de conhecimento; é se eles estão aprendendo alguma coisa

  • Charles J. Sykes
 | Criative Commonsdivulgação
Criative Commonsdivulgação
 
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Vamos admitir desde já que muitos estudantes consideram seus anos universitários esclarecedores e enriquecedores. Mas algo está podre no estado da academia, e é cada vez mais difícil não notar. 

Houve uma época em que os empregadores podiam ter uma certeza razoável de que os graduados no ensino superior tinham uma noção básica do mundo e, no mínimo, poderiam escrever uma carta comercial consistente. Isso simplesmente não é mais o caso, como alguns líderes acadêmicos parecem dispostos a admitir. 

O ex-presidente de Harvard, Derek Bok, quebrou laços com os líderes de torcida acadêmicos quando apontou que, apesar dos seus muitos benefícios, as faculdades e as universidades “oferecem muito menos para seus alunos do que deveriam”. Muitos formados, admitiu, deixam a instituição com um diploma cobiçado e dispendioso “sem poder escrever o suficiente para satisfazer os empregadores (...) ou raciocinar claramente ou executar de forma competente a análise de problemas complexos e não técnicos”. 


Publicado por Educação - Gazeta do Povo em Sábado, 6 de janeiro de 2018

Bok observou que poucos estudantes de graduação conseguem entender ou falar uma língua estrangeira; a maioria nunca faz cursos de raciocínio quantitativo ou adquire “o conhecimento necessário para ser um cidadão razoavelmente informado em uma democracia”. Apesar dos gastos maciços na infraestrutura do ensino superior, conforme ele admitiu, não está claro que os alunos realmente aprendem mais do que há 50 anos. 

Na verdade, uma pesquisa recente nas universidades públicas de maior desempenho do país pelo Conselho Americano de Investidores e Egressos constatou que apenas nove deles exigiam uma disciplina de economia para graduação; apenas cinco exigiam uma disciplina de pesquisa em história americana; e apenas dez exigiam que os alunos fizessem uma disciplina de literatura. Apesar do apoio ao “multiculturalismo” no campus, o estudo descobriu que “menos da metade exigiam sequer um estudo intermediário de uma língua estrangeira”. 

O déficit de conhecimento vem acontecendo há muito tempo. 

Em 1990, o custo de quatro anos em uma universidade privada de elite tinha ultrapassado o preço médio de uma casa nos Estados Unidos. Mas uma pesquisa patrocinada pelo National Endowment for Humanities em 1989 constatou que a maioria dos formandos seria reprovada em um teste básico sobre alfabetização cultural e histórica ocidental: 25% não conseguiram distinguir os pensamentos de Karl Marx da Constituição dos Estados Unidos (ou as palavras de Winston Churchill das de Joseph Stalin), 58% não sabiam que Shakespeare escreveu “A Tempestade” e 42% não conseguiram apontar a Guerra Civil no período correto. 

A maioria dos formandos não conseguiu identificar a Magna Carta, a Reconstrução ou o Compromisso do Missouri; eles “claramente desconheciam” os livros “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoievski e a “Carta de uma prisão em Birmingham”, de Martin Luther King Jr. 

Essas preocupações agora parecem quase pitorescas. O fato de os estudantes universitários terem grandes lacunas em seu conhecimento já era uma notícia antiga no início dos anos 90. Mas hoje a questão já não é saber se os alunos aprenderam corpos específicos de conhecimento; é se eles estão aprendendo alguma coisa. 

No livro amplamente citado “Academically Adrift” (“Academicamente à Deriva”, em tradução livre), Richard Arum e Josipa Roksa concluíram que 45% dos estudantes “não demonstraram melhora significativa na aprendizagem” durante os dois primeiros anos da faculdade. Mais de um terço (36%) “não demonstrou qualquer melhoria significativa na aprendizagem ao longo de quatro anos de faculdade”. 

Tradicionalmente, de acordo com os autores, “ensinar os alunos a pensarem criticamente e se comunicam efetivamente” foram reivindicados como os “objetivos principais” do ensino superior. Mas “o compromisso com essas habilidades parece mais uma questão de princípio do que prática”, conforme contataram Arum e Roksa. 

“Uma proporção surpreendente de estudantes está progredindo no ensino superior hoje sem ganhos mensuráveis em habilidades gerais”, escreveram. “Embora estejam adquirindo conhecimentos específicos da sua área ou maior autoconsciência de suas jornadas por meio da faculdade, muitos estudantes não estão melhorando suas habilidades em pensamento crítico, raciocínio complexo e escrita.” 

Mas essas são justamente as habilidades que os empregadores esperam cada vez mais dos graduados com diploma de ensino superior. Uma pesquisa de 2013 sobre empregabilidade, feita pela Association of American Colleges and Universities, constatou que 93% dos empregadores dizem que a capacidade de pensar de forma crítica, se comunicar com clareza e resolver problemas complexos é mais importante do que a graduação de um candidato. 

Mais de três quartos dos potenciais empregadores de novos graduados disseram que queriam que as faculdades enfatizassem habilidades básicas como “pensamento crítico, resolução de problemas complexos, comunicação escrita e oral e conhecimento aplicado”. 

Destruindo o Currículo 

Então, como podemos gastar tanto e receber tão pouco? A resposta mais óbvia é que as faculdades e as universidades realmente não se preocupam se os alunos aprendem muito. 

Mais uma vez, Bok, de Harvard, admite que os administradores têm poucos incentivos para se preocupar com algo tão irrelevante como o sucesso do aluno, porque a aprendizagem dos estudantes não pode ser monetizada e não contribui para avançar nas carreiras acadêmicas. “Afinal”, escreve, “o sucesso no aumento da aprendizagem dos alunos raramente é recompensado, e seus benefícios geralmente são difíceis de demonstrar, muito mais difíceis do que o sucesso no aumento das pontuações no SAT da turma ingressante ou no aumento do dinheiro para a construção de novos laboratórios ou bibliotecas”. 

Há, claro, outros fatores. O emburrecimento da educação primária e secundária invadiu o ensino superior; muitos estudantes despreparados são admitidos em universidades apesar da sua incapacidade de ter um desempenho a nível universitário. Quase 4 entre 10 professores universitários hoje concordam com a afirmação de que  “A maioria dos alunos que ensino não possuem as habilidades básicas para o trabalho em nível universitário”. Isso inevitavelmente contribui para uma fuga do ensino (poucos professores querem dar cursos de reforço) e a redução generalizada de padrões de qualidade. 

Essa indiferença geral ao que os alunos aprendem – se é que eles aprendem – é incorporada ao currículo moderno que permite aos alunos estudarem praticamente qualquer coisa, sem necessariamente aprender muito. 

Publicado originalmente no Daily Signal.

Esse trecho é parte de “Fail U.: The False Promise of Higher Education” de Charles Sykes. Copyright © 2016 do autor e reeditado com a permissão de St. Martin’s Press, LLC. 

Charles J. Sykes é associado sênior no Wisconsin Policy Research Institute e apresentador na rádio WTMJ em Milwaukee, Wisconsin. Escreveu para The New York Times, The Wall Street Journal e USA Today e é autor de “A Nation of Victims”, “Dumbing Down Our Kids”, “Profscam”, “The Hollow Men”, “The End of Privacy” e “50 Rules Kids Won't Learn in School”.

Tradução: Andressa Muniz.

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