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Pedro Damazio Franco está disposto a mexer num vespeiro. Graduado em Comunicação Social e mestre em história pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ele está em busca de recursos e parceiros para iniciar um projeto de pesquisa com o objetivo de explicar por que, afinal, a universidade brasileira não é afeita à diversidade política. Em palestra realizada nas dependências da instituição em junho, ele já explicava suas motivações e lembrava que, nos Estados Unidos, o mesmo problema existe, mas vem sendo atacado de forma mais frontal.

É um tema crucial, diz ele, porque valorizar a diversidade política é tão crucial para a qualidade do ensino e da produção acadêmica quanto valorizar a diversidade social, racial ou sexual. Os efeitos da falta de variedade ideológica são graves (veja abaixo). Na entrevista concedida à Gazeta do Povo, Pedro, que nasceu nos Estados Unidos e tem 33 anos, fala de seu projeto de pesquisa e comenta as reações dos colegas que ouvem falar da iniciativa.

Leia também: A diversidade na universidade precisa ser de ideias, não apenas de pessoas

Qual é o foco principal da sua pesquisa?

Estou tentando coordenar um projeto de pesquisa que estuda causas e efeitos da polarização política e intolerância ideológica na educação superior, a maneira como isso afeta a qualidade do ensino e da pesquisa nas universidades e como isso afeta também a livre expressão e circulação de ideias no âmbito acadêmico.

Por que esse tema?

Porque a universidade não está insulada contra as tensões políticas que assolam o resto do país e isso é palpável.

Qualquer um familiarizado com o ambiente acadêmico sabe que hoje essas tensões se manifestam de maneira intensa na universidade e que isso coloca pressões imensas sobre o que se pode ou não dizer nesse ambiente para não ser rotulado.

Não são só relacionamentos e a boa convivência que sofrem com isso, evidentemente, mas também a livre circulação de ideias e a produtividade intelectual da comunidade acadêmica.

A universidade ainda não empreendeu grandes esforços para abordar esse problema de modo a produzir um diagnóstico cientificamente embasado. Não se lança artigos acadêmicos sobre esse assunto, logo a discussão pública sobre ele não recebe amparo das nossas instituições de pesquisa.

Hoje a universidade se defronta então com um fato simples e inegável: se ela não falar sobre esse assunto, isso não impede que outros falem. Se o assunto não é apropriado pela ciência, mais facilmente ele será apropriado pela política – e os movimentos que se pautam por esse tema não necessariamente oferecerão as soluções mais produtivas caso a discussão não for auxiliada por dados empíricos e quadros interpretativos cientificamente elaborados. Existe uma demanda palpável para que esse problema seja tratado, e está na hora da comunidade acadêmica atender a esse chamado.

Por que não se discute esse tema no Brasil, apesar de ser uma preocupação amplamente debatida fora do país?

No Brasil o tema é sim bastante discutido no contexto político e midiático. Muitas matérias jornalísticas relatam casos relacionados a esse problema, muitos políticos já discursaram efusivamente sobre ele e muitos movimentos já se pautam de modo a oferecer soluções a ele.

A questão é: por que um assunto que já atraiu tanta atenção popular não é debatido dentro do contexto acadêmico em forma de estudos, pesquisas e artigos científicos? Essa pergunta é difícil de responder, pois ela está obviamente relacionada ao próprio problema que não está sendo estudado.

Posso então dar alguns relatos pessoais, mas não tenho como afirmar o quão representativos eles são. Já vi pesquisadores se afastarem desse assunto por medo de serem rotulados, por exemplo. Já tive uma professora que desistiu de apoiar o projeto porque, sendo ela mais alinhada à esquerda política, tinha medo de sofrer represálias dos seus pares. Acho possível que haja também relutância em tratar de um tema que possa submeter a universidade a mais críticas do que ela já vem sofrendo, ou que possa de um jeito ou de outro fornecer armas aos inimigos da universidade.

A comunidade acadêmica é, afinal, uma espécie de clube exclusivo e, como qualquer clube desse tipo, se espera que seus membros sejam discretos. Acho que isso explica em parte uma outra reação comum que tenho visto: pesquisadores acadêmicos dizem que o problema na verdade não existe ou, em outras palavras, que a suposta intolerância ideológica do ambiente universitário não passa de um mito.

Não sei se esse tipo de reação é muito produtivo para a própria universidade já que o problema não vai sumir só porque não queremos falar sobre ele.

Além do mais, se o problema não passa de um mito, por que não provar isso? Por que não colocar a ciência para trabalhar e acabar com o mito de uma vez por todas?

O que é diversidade?

Podemos definir diversidade como qualquer variação de atributos que pode ser usada para diferenciar as pessoas umas das outras. Quando a palavra ‘diversidade’ é usada na universidade e no debate público em geral, a discussão normalmente se concentra em atributos que caracterizam parcelas historicamente marginalizadas da população, tais como classe social, raça, gênero e opção sexual.

Atualmente temos uma espécie de consenso que diz que promover a diversidade nesses quesitos seria algo benéfico e desejável em praticamente qualquer contexto. São várias as justificativas usadas para isso, mas a que mais nos interessa agora é a ideia de que a diversidade implica um maior intercâmbio de pontos de vista, o que implicaria mais inovação e maior produtividade em contextos colaborativos.

Estudos sobre os efeitos da diversidade em contextos colaborativos não mostram uma correlação tão unívoca assim. Muito depende de qual é exatamente o processo criativo do grupo em questão, de como se mede produtividade e, é claro, de como se define diversidade.

Quando estamos falando do processo criativo da universidade e do tipo de produtividade que se espera dela, é válido perguntar se as categorias de diversidade que mencionamos agora (raça, classe, gênero, opção sexual) são as únicas relevantes. Esperamos produtividade da universidade em termos científicos e educacionais e o processo criativo envolve a crítica e o embate de ideias. O tipo de diversidade que mais interessa para esses quesitos é, ao meu ver, a diversidade intelectual.

Embora o fato de alguém ser de uma determinada classe, gênero ou raça possa ter alguma influência nas ideias que essa pessoa forma ao longo da vida, é evidente que esses não são os únicos e nem mesmo os mais importantes fatores a se correlacionar com diversidade intelectual.

Diversidade de posicionamento político, por exemplo, parece ser um fator extremamente importante na promoção de diversidade intelectual em departamentos de ciências sociais e humanas.

Por exemplo: se você pegar uma mulher branca e um homem negro, ambos de direita, os quadros interpretativos que eles usam para fazer sentido do mundo e da sociedade provavelmente vão ser muito mais parecidos do que se você pegar dois homens brancos, um de esquerda e o outro de direita.

Se queremos ver um ambiente intelectualmente diverso que promova a crítica e o embate de ideias, parece então que a promoção da diversidade política na universidade é um caminho desejável também.

É possível aferir que nas universidades brasileiras há uma predominância da esquerda? Isso é ruim só para a direita? Ou também é para a esquerda?

Depende do tipo de aferição que você quer. Como já disse, não existem muitos estudos quantitativos desse tipo no Brasil.

Nos Estados Unidos temos números que indicam uma ampla maioria da esquerda nos departamentos de ciências sociais e humanas – aqui dependemos de um conjunto de relatos que dão a impressão de uma situação parecida. De fato eu acredito que essa impressão está correta, mas ainda precisamos de números.

Além do mais, antes mesmo de coletar esses números temos que ter uma discussão mais aprofundada da métrica que vamos usar. Estamos medindo alinhamento ideológico com base em que? Padrão de voto? Auto-identificação? Princípios e valores? Referências teóricas? Esses fatores podem estar relacionados mas não necessariamente.

Para ter uma aferição adequada de como o alinhamento ideológico do meio acadêmico influi na realidade política, social e educacional, ainda precisamos coletar dados sobre tudo isso e muito mais. No momento só posso dizer que a situação não parece ser muito saudável nem para a direita e nem para a esquerda.

A direita desenvolve a sua base intelectual à margem do currículo da universidade, muitas vezes cultivando um ressentimento em relação ao meio acadêmico. Quando alunos de direita não encontram referências intelectuais dentro da universidade que estejam alinhadas à sua predisposição ideológica, eles vão procurar em outras fontes, seja na livraria, no Youtube ou nas redes sociais.

A curadoria desses meios não segue um critério tão sistemático quanto a do meio acadêmico, então aumenta a possibilidade de esses alunos aderirem a versões mais populistas e radicais do conservadorismo e do liberalismo ao invés de suas versões mais intelectualmente sofisticadas.

A escassez de perspectivas de direita na universidade pode então ser algo que acaba radicalizando ainda mais a direita política, dando margem para ataques à universidade e gerando uma espécie de isolacionismo intelectual.

Na esquerda, por sua vez, o isolacionismo é ainda pior. Enquanto a direita tem algum contato com o pensamento da esquerda por meio do ambiente universitário, a esquerda não tem muito acesso ao pensamento da direita a não ser que ela também procure fora do currículo. Isso faz com que ela facilmente crie caricaturas e espantalhos da direita que prejudicam análises conjunturais e ações estratégicas mais efetivas.

É importante enfatizar no entanto que a pior perdedora nessa situação não é a direita nem a esquerda, mas a própria educação superior, que deveria estar formando cidadãos capazes de lidar com a diversidade política da nossa sociedade através da compreensão mútua e da discordância construtiva. Parece não haver espaço comum para isso hoje em dia. A universidade ao meu ver deveria ter a missão de fomentar esse espaço de modo a não agravar o isolacionismo intelectual da esquerda e da direita.

Que paradigmas você acha que devem ser quebrados para avançar essa discussão?

Ao meu ver, são duas as principais barreiras. A primeira eu já mencionei: a escassez de dados empíricos e estudos científicos sobre a situação. Enquanto não tivermos mais informação sobre o problema que estamos discutindo, é óbvio que a discussão vai se manter num nível superficial e improdutivo.

No entanto eu acho que essas pesquisas dificilmente serão realizadas em grande escala se outra barreira importante não for quebrada: o fato de que esse assunto de certa forma se tornou “propriedade política” da direita. É praticamente impossível levantar esses problemas hoje em dia sem ser identificado por alguém como defensor de uma causa da direita, e isso é um equívoco grave que tanto esquerda quanto direita estão cometendo. O assunto precisa parar de ser apresentado como uma causa política e sim como um problema científico.

A universidade dificilmente abraçará programas que fomentem a diversidade política na academia se não explicarmos por que isso é bom para todo mundo, inclusive para a esquerda e principalmente para a educação superior.

Se a direita se apropriar desse tema e transformá-lo em uma causa exclusiva dela, ela estará praticamente garantido que a causa não avance. Ao meu ver, qualquer organização que se proponha a lidar com esse tema já tropeçou no primeiro passo se identificar com uma ideologia particular.

Para saber mais sobre o tema no Brasil, quais são as referências?

Referências dentro da universidade brasileira são praticamente inexistentes. Existem, é claro, autores que já escreveram sobre a situação no Brasil, mas eles infelizmente já foram “marcados” por um campo político. Enquanto a universidade não se engaja no assunto, obras como a de Olavo de Carvalho e Flavio Gordon continuam detendo monopólio sobre o tema. São obras que evidentemente precisam ser lidas, mas não são o suficiente.

É possível encontrar, no ambiente acadêmico brasileiro, profissionais e departamentos que valorizam a honestidade intelectual acima de conceitos políticos?

Claro que é possível. Há muitos profissionais extremamente competentes em suas especializações acadêmicas, inclusive nos departamentos de ciências sociais e humanas. Infelizmente quando lidamos com esse problema é sempre o extremismo e o radicalismo que se sobressai, mas eu não estaria me dedicando a esse projeto se não acreditasse que há uma ampla maioria silenciosa disposta a ter esse debate de forma aberta e honesta na universidade.

Onde será realizada sua pesquisa?

Atualmente não estou associado formalmente a nenhuma instituição de pesquisa e o projeto ainda não tem nenhum apoio institucional concreto. Ando batendo em algumas portas e creio que isso é questão de tempo, mas de qualquer forma está tudo ainda em um estágio muito preliminar.

Uma pesquisa da escala que estou propondo requer ainda muito mais divulgação e também o recrutamento de um grupo muito mais amplo de pesquisadores com diversas especializações e familiaridade com uma variedade de métodos quantitativos e qualitativos. Não tenho a menor intenção de conduzir esse projeto sozinho e dependo da colaboração de uma rede de pesquisadores que ainda está para se formar, por isso é difícil calcular agora um prazo de tempo para qualquer tipo de resultado.

De qualquer forma, dentro dos próximos meses espero ao menos inaugurar alguma espécie de plataforma onde essa rede colaborativa poderá começar a se formar, compartilhar informação e elaborar projetos de pesquisa que possam ser aplicados em larga escala. Com algum financiamento conseguiremos acelerar o processo, criar editais e distribuir bolsas de pesquisa que renderiam artigos científicos em alguns meses e estudos aprofundados dentro de poucos anos. Estou esperançoso mas, como falei, ainda estou batendo em portas.

Qual a reação das pessoas da comunidade acadêmica que ouvem falar de seu projeto?

É variada. Alguns aparentam desconfiança, alguns expressam receio de se envolver. Quando tenho tempo para expor com clareza o que estou tentando fazer, no entanto, a reação no geral é boa. Apesar de algumas barreiras, tenho conseguido gerar mais entusiasmo do que esperava entre os acadêmicos com quem converso e isso me dá motivo para ser otimista. Basta não apresentar o problema como uma questão partidária e sim como uma questão científica que muitos entraves se desfazem e portas começam a se abrir.

Problemas graves

Dez efeitos da falta de diversidade política, segundo Pedro Damazio Franco

1. Redução do horizonte intelectual da comunidade acadêmica.

2. Queda na confiabilidade científica de pesquisas sociais.

3. Supressão direta e indireta de perguntas e temas de pesquisa.

4. Proliferação de estereótipos em relação a liberais e conservadores.

5. Enfraquecimento político e intelectual da esquerda.

6. Radicalização política da direita.

7. Fragilização das pautas de inclusão demográfica.

8. Queda de prestígio da instituição acadêmica.

9. Aumento na polarização e intolerância política.

10. Queda na qualidade da educação superior.

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