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| Foto: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo

Em 2004, ao lançar o ensaio O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro (Ed. Summus), o consultor Felipe Lindoso fez uma provocação: que alguém se ocupasse de estudar como os livros religiosos (solenemente desprezados) influenciavam na formação de novos leitores no Brasil.

De lá para cá, as três edições da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2008, 2012 e 2016) só fizeram assinar embaixo das hipóteses de Lindoso. A cada quatro anos em que é feito o levantamento, a Bíblia aparece, soberana, como o livro mais citado e o mais lembrado. É “preguicite”, na pressa de encurtar a conversa, dizer que essa escolha se deve apenas ao crescimento do número de evangélicos no país.

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Não se está falando da obra que, no senso comum, uma parte cada vez maior da população carrega debaixo do braço. Trata-se de um fenômeno editorial que pode explicar, pelo menos em parte, o perfil do leitor brasileiro. Sabe-se que entrevistados citam a Bíblia, de Norte a Sul. Resta saber por quê? Como a leem? E se essa tradição de leitura cruza, colabora ou interfere nas outras. Se uma leitura levar a outra, o “bibliocentrismo” pode ser uma boa notícia.

A Bíblia é o álibi perfeito para os não leitores e leitores de ocasião

O que se pode dizer é que a Bíblia não está sozinha no pódio. Dados da própria Câmara Brasileira do Livro (CBL) – uma das financiadoras da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil – informam que o mercado do livro religioso movimenta R$ 500 milhões por ano, e a fábula de 70 milhões de exemplares. Em meio a esse montante de obras de piedade, autoajuda cristã, espiritualismo e orientalismos, emergem campeões de audiência, a exemplo de Ágape, de Marcelo Rossi. A obra – na casa dos 10 milhões de exemplares vendidos – chega a ser apontada como a segunda mais vendida no Brasil em todos os tempos. A primeira, já se sabe.

Os motivos para a eleição maciça da Bíblia precisam ser estudados, mas não é pecado arriscar palpites. 1) Uma parcela imperativa, porém não mensurável, de brasileiros realmente lê “o livro dos livros”, como se diz. Está-se, afinal, na maior nação católica do mundo e no país no qual os evangélicos podem se aproximar de 30% da população. 2) Outra parcela, também não mensurável, deve citar a Bíblia por constrangimento, diante do recenseador, por não lembrar o último livro que leu ou porque não leu nenhum livro. A Bíblia é o álibi perfeito para os não leitores e leitores de ocasião. 3) Todos os canais de incentivo à leitura no país – as igrejas, as escolas de nível médio e fundamental, as redes sociais e, tristeza do Jeca, as universidades – estimulam a leitura fragmentada. Não se lê obras, mas trechos de obras. Dos 4,96 livros lidos por ano pelos brasileiros, 2,43 são inteiros e 2,53 em partes, de acordo com Retratos 2016. E não há livro mais adequado para a leitura “aos pedaços” do que a Bíblia. Citá-la, em tese, equivale a legitimar uma prática de leitura cada vez mais corrente.

Se por essas e outras é uma lenha desvendar as práticas de leitura no Brasil, tendo a Bíblia como objeto de estudo, o mesmo não se pode dizer de Ágape, o livro do padre Marcelo Rossi que chegou às mãos de um a cada 20 brasileiros em apenas seis anos. Atendendo ao pedido de Felipe Lindoso, bom seria dissecar esse sucesso, espécie de obra e autor símbolo de um segmento que soma, ao lado de Rossi, o novato padre Fábio de Mello, o “avizinhado” Augusto Cury, os tradicionais Allan Kardec e Chico Xavier.

De novo, valem algumas hipóteses. É possível comprar Ágape por menos de R$ 20. Além de barato, é fino e fácil de ler. De forma flagrante, a obra síntese do fenômeno do livro religioso se presta a radiografar não o perfil do leitor médio do país, mas o perfil do leitor abaixo da média. Retratos 2016 mostra que 79% dos leitores da Bíblia e dos livros religiosos não estudam e estudaram pouco. Numa conta que some analfabetos e pessoas com ensino fundamental concluído – faixas com graus altos de dificuldade de decodificação de palavras e conceitos – esse grupo pode chegar a 34% da população. Tudo indica que é um montante que anseia se tornar leitor, sem muito sucesso, tamanha as dificuldades “mecânicas” para ler (lentidão, baixa visão, analfabetismo e alfabetismo funcional).

Mas o diagnóstico não vale diante de Ágape, que pode ser vencido de forma rápida – sem resultar na frustração de “mais um livro abandonado pelo meio” – e “replicado”. Sem dizer que vem indicado: entre os leitores frágeis, conta a chamada relação transversal de leitura. Cada amigo ou conhecido que também lê pouco, mas recomenda, tende a conquistar seguidores. Eis o ponto. A obra de Rossi se encaixa numa larga tradição luso-brasileira, a dos livros de correção moral e a dos livros de prece. Mais – guarda similaridades com a crônica, outro gênero brasileiríssimo. Sua vantagem sobre as outras é que as historietas têm começo, meio e fim, são curtas e podem ser contadas para a vizinha no minuto seguinte – atendendo à necessidade de oralizar de imediato o que se leu, outra faceta da nossa tradição de leitura.

É certo que os livros não podem se tornar como Ágape para que mais brasileiros se reconciliem com as letras. Tanto certo quanto é que entender sucessos como esse pode ajudar no implemento das políticas de leitura para algo como 80 milhões de pessoas, em especial os mais velhos dentre esses, para quem a religião é estímulo maior, entre 9% e 25% dos entrevistados.

De acordo com Retratos 2016, esse é o número dos brasileiros que não dizem “presente” quando o assunto são os livros. É cruel imaginar que não desejem a leitura. Melhor presumir que estão à procura de livros que possam vencer, e depois de vencê-los, contar o que leram, entendendo para o que aquela leitura lhes serve. Não é o fim – é um meio para chegar à papa-fina da literatura, como sonhava Oswald de Andrade. Qualquer trocadilho com a expressão “salvação pela fé” está valendo.

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