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Alyane recém começou a lecionar, mas já sente a voz cansada nos fins de semana | Henry Milleo/Gazeta do Povo
Alyane recém começou a lecionar, mas já sente a voz cansada nos fins de semana| Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo

Mudança de hábito

Especialistas elencam algumas medidas simples e eficientes que ajudam a evitar problemas vocais em sala de aula.

- Mantenha uma alimentação equilibrada, evitando horas prolongadas de jejum.

- Quando sentir vontade de tossir, beba água ou degluta algumas vezes.

- Aproveite para bocejar e se espreguiçar durante o dia porque isso diminui a tensão na região do pescoço e dos ombros.

- Na sala de aula, beba bastante água enquanto estiver falando, desde que seja em pequenos goles e em temperatura ambiente.

- Procure não competir com os ruídos de sala de aula, como ventilador, projetores ou mesmo dos alunos. Se for possível, use um microfone.

- Falar muito provoca uma fadiga muscular, portanto, altere períodos de explanação com outras atividades.

- Não fale enquanto escreve na lousa, porque o som fica abafado e você tende a elevar o tom de voz.

- Evite movimentos bruscos e rápidos quando for apagar a lousa ou limpar o apagador, principalmente se você for alérgico ao pó do giz, já que ele também pode agravar o problema de voz.

Fonte: documento elaborado por fonoaudiólogos da PUC-SP.

Garganta seca, rouquidão, pigarro. Esses são alguns dos sinais de que a voz está com problemas. Assim como locutores e agentes de telemarketing, os professores estão na lista dos profissionais que usam a voz como instrumento de trabalho. O ambiente em sala de aula, no entanto, é mais desgastante do que nas demais áreas. O professor compete com o barulho dos alunos, do pátio e das ruas e ainda é afetado pelo pó do giz riscando a lousa. Pesquisa feita pelo Sindicato dos Professores de São Paulo e pelo Centro de Estudos da Voz demonstrou que 63% dos professores já tiveram problemas com a voz.

A pesquisa retrata uma média ponderada para todo o país. Não há uma estatística oficial, mas somente no Paraná, 36% dos professores afastados por motivo de doença no primeiro semestre de 2009 na rede pública apresentaram problemas vocais, segundo dados da APP-Sindicato. Todas as doenças relacionadas ao trabalho precisam ser notificadas nos serviços de saúde para que o governo possa desenvolver políticas públicas de prevenção e controle. Porém, como o distúrbio vocal não está no rol das doenças do trabalho reconhecidas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o problema passa despercebido.

Por causa disso, o professor afetado não tem direito ao auxílio-doença e o Judiciário não criou uma jurisprudência para indenizar docentes que ficaram impossibilitados de continuar trabalhando. Recentemente, em Londres, a professora Joyce Walters conseguiu uma indenização de 150 mil libras (equivalente a R$ 411 mil) por ter contraído nódulos nas cordas vocais. A lesão teria sido ocasionada pelo barulho em sala de aula.

No Brasil, o tema já é debatido desde 1997 e ganhou corpo em 2004 com um seminário realizado em São Paulo pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest). Na ocasião, especialistas decidiram levar a discussão ao Ministério da Saúde e, por enquanto, não há uma conclusão. Conforme a fonoaudióloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) Leslie Piccolotto Ferreira, que acompanha a discussão, a classificação do distúrbio da voz como um problema relacionado ao trabalho pode beneficiar várias categorias de profissionais que usam a voz em serviço.

Atendimento

Como as queixas de professores afônicos eram constantes, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná fez uma parceria com a Secretaria de Estado da Saúde e criou, em 2005, o programa Saúde Vocal. No ano passado, o programa foi ampliado e ganhou o nome de Saúde Paraná Professor. Ele encaminha professores para tratamentos de saúde e capacita docentes a serem multiplicadores para levar às suas escolas maneiras de prevenção.

Marcos Daniel Bianchini, da coordenadoria de programas do governo da Su­­perin­ten­dên­­cia de Desenvolvimento Edu­­­­­­­­­­­­­ca­­cional, alerta que o serviço só é procurado quando o caso já está grave. "Muitos professores têm problemas de voz, mas acabam usando pastilhas que só anestesiam a lesão, o que agrava a situação", acrescenta.

Prevenção só requer hábitos bem simples

Alyane Caramori Prestes é professora da rede pública desde setembro. Ela dá aulas para crianças do ensino fundamental e, vez ou outra, tem de elevar o tom de voz para controlar a classe. "Eu sinto aos finais de semana que minha voz está cansada", comenta. Giovane Aparecida Afinovicz é professora há 22 anos e atua como pedagoga. Como dá aulas em outra escola, teve de ser afastada da sala de aula por problemas vocais. Giovane apresentou disfonia causada por estresse e asma.

"Cheguei a ficar totalmente sem voz. Mas, agora está melhorando", afirma. Giovane está fazendo sessões de fonoterapia e faz exercícios diários em sua casa. Alyane sabe do problema da colega, mas diz que, por enquanto, não toma nenhuma precaução. A prevenção só requer hábitos bem simples.

A fonoaudióloga Fabiana Zambon, que coordena o programa de saúde vocal pelo Sindicato dos Professores de São Paulo, afirma que é preciso se prevenir, tomando pequenos goles de água ao longo da aula, e ficar atento aos primeiros sinais, procurando ajuda em serviços especializados. Em período de descanso, aos finais de semana ou mesmo nas fé­­rias, os professores devem cuidar da voz, diminuindo o volume quando possível e mantendo o hábito de beber água. "O ideal é prevenção e informação para que o caso não se agrave", afirma Fabiana.

A pesquisa feita em São Paulo, que teve a participação de Fa­­biana, demonstrou que hoje 16% dos professores consideram a necessidade de mudar de profissão no futuro por causa da voz. Para o secretário de Saúde e Previdência da APP-Sindicato no Paraná, Idemar Vanderlei Beki, é preciso mais do que prevenção. Ele acredita que é importante que o governo estadual aprove o projeto de saúde ocupacional apresentado pelo sindicato e que o tema seja regulamentado nacionalmente para ser considerada uma doença relacionada ao trabalho.

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