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USP: filha de médico, que estudou em escolas particulares, evidencia distorção de sistema de cotas

Caso escancara o retrato de uma elite que, sem burlar qualquer lei, acaba beneficiada diretamente por um sistema que não deveria beneficiá-la

  • Murilo Basso
No processo seletivo para o curso de medicina deste ano, a USP (Universidade de São Paulo) reservou 25 vagas para cotistas de escolas públicas. | JVech.
No processo seletivo para o curso de medicina deste ano, a USP (Universidade de São Paulo) reservou 25 vagas para cotistas de escolas públicas. JVech.
 
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Ela é branca, filha de um médico e de uma engenheira, estudou a maior parte da vida em escolas privadas e fez cursinho particular. Ainda assim, beneficiou-se com o sistema de cotas – sem infringir nenhuma lei. 

No processo seletivo para o curso de medicina deste ano, a USP (Universidade de São Paulo) reservou 25 vagas para cotistas de escolas públicas. Clara Menegucci, 19 anos, foi aprovada em 1º lugar na modalidade. Em entrevista ao G1, ela afirma que o sistema de cotas é “necessário e mais do que justo”.  

Clara, porém, também segundo o G1, cursou o ensino fundamental em escolas particulares e o ensino médio no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em Vitória. A instituição, mantida com recursos federais, é uma das melhores do estado: de acordo com ranking divulgado pela Folha de S. Paulo, o Ifes Campus Vitória foi a 171ª colocada entre todas as escolas brasileiras no último ENEM. No Estado do Espírito Santo, a instituição conquistou o sexto lugar.  

Além disso, paralelo ao ensino médio, a jovem conciliou as aulas com um cursinho particular, onde conseguiu uma bolsa de estudos graças ao seu bom desempenho escolar. 

Caminho inverso 

Recentemente, uma dissertação de mestrado apresentada na própria USP apontou que a lei de cotas, em vigor desde 2012, tem incentivado famílias a trocar escolas particulares por públicas – a legislação prevê que universidades devem reservar metades das vagas nos processos seletivos para políticas afirmativas; ao lado de raça e renda, um dos critérios é ter cursado todo o ensino médio em escola pública. 

"Concluímos que a implementação de ações afirmativas que beneficiam um grupo específico de escolas no acesso ao ensino superior pode levar a um comportamento estratégico na escolha de escola dos alunos matriculados no ensino básico. No caso da Lei de Cotas, há um incentivo para migração para rede pública no 1º do Ensino Médio”, escreve o pesquisador. 


Controvérsias envolvendo “impostores” entre cotistas reacendem o debate sobre os frágeis instrumentos utilizados para determinar a raça de alguém.Via Ideias

Publicado por Gazeta do Povo em Domingo, 10 de dezembro de 2017

Sistema falho  

A situação evidencia pontos falhos em uma política afirmativa por si só repleta de controvérsias – e não se trata de uma crítica específica à jovem, que estudou em dois turnos e tirou boas notas, mas sim à política adotada. 

Escolas mantidas por militares ou atreladas a instituições federais de ensino são um oásis quando comparadas as demais do sistema público: elas ocupam as melhores colocações nos rankings nacionais dentro da categoria; são uma exceção, acessível apenas a uma elite, dentro de um sistema de ensino público quase falido. 

O desempenho dos alunos de institutos federais no ENEM de 2016, aliás, os colocou na liderança, entre instituições não particulares, em 14 estados brasileiros. No mesmo ano, eles registraram média de 564,93 no exame, segundo a própria Folha a partir de dados fornecidos pelo Ministério da Educação (MEC). 

O número é apenas 3% inferior ao registrado pela rede privada de ensino, que atingiu 580,93. Já a rede estadual registrou apenas 488,2 pontos. Se os excluirmos, o grupo de colégios entre os 10% com maiores notas do ENEM em 2016 seria composto por 88% de escolas particulares, e 12% de escolas públicas. Com os institutos, esse número sobe para 22%. 

A qualidade é, pelo menos em parte, explicada pelo mecanismo de seleção: embora sejam públicos, os institutos não aceitam a matrícula de todos os alunos. Na maior parte dos casos, existe uma prova de seleção, o que garante estudantes mais qualificados e, geralmente, com maior renda.

Dessa forma, o caso de Clara apenas escancara o retrato de uma elite dentro de uma instituição federal que, sem burlar qualquer lei, acaba beneficiada diretamente por um sistema que não deveria beneficiá-la.

Sistemas de cotas são necessários e precisam ser constantemente discutidos e aperfeiçoados. Mas não podem servir a estudantes na mesma situação que Clara.


Em média, o valor dos vencimentos desses docentes é 135% maior do que no setor privado!#GazetadoPovo via Educação - Gazeta do Povo

Publicado por Gazeta do Povo em Quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

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