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ELEIÇÕES 2018

A economia vai melhorar até a eleição. Mas nenhum candidato vai capitalizar com isso

  • Fernando Jasper
A taxa de desemprego deve continuar recuando em 2018. Mas, no dia da eleição, provavelmente haverá mais de 10 milhões de brasileiros sem trabalho. | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
A taxa de desemprego deve continuar recuando em 2018. Mas, no dia da eleição, provavelmente haverá mais de 10 milhões de brasileiros sem trabalho. Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
 
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Daqui a pouco menos de um ano os brasileiros vão às urnas escolher o próximo – ou a próxima – presidente da República. Se as projeções estiverem corretas, a votação se dará sob uma combinação inédita de emprego e renda em alta, inflação sob controle e taxa básica de juros no menor nível da história. E que candidato vai se beneficiar dessa aparente bonança? Talvez nenhum.

Sempre que se fala dos fatores que influenciam uma eleição presidencial, alguém resgata o bordão cunhado em 1992 por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton: “É a economia, estúpido!” Naquela ocasião, o desafiante explorou os efeitos da recessão do início da década nos Estados Unidos e impediu a reeleição do favorito George Bush, que chegou a ter 91% de aprovação popular em meio à Guerra do Golfo.

A moral dessa história é que, se a economia vai bem, o presidente é reeleito ou faz o sucessor. Se vai mal, crescem as chances de vitória da oposição. A relação funciona na maioria dos casos. Mas não é fácil aplicá-la ao Brasil de 2018.

A economia deve avançar muito até as eleições, é verdade. Mas quem garante que o eleitor estará satisfeito? Hoje ele claramente não está. A reação ensaiada pelo mercado de trabalho nos últimos meses nem sequer suavizou a trajetória de queda da aprovação do governo Temer, que, com 3% de avaliação positiva, é o mais impopular da história. E a retomada projetada pelos economistas não parece capaz de reverter esse quadro.

“Geralmente, conforme as coisas vão melhorando, as pessoas vão ficando menos insatisfeitas e mais inclinadas a votar na situação, com os candidatos do governo tentando se apropriar dos louros dessa melhora. Mas não estamos num cenário típico”, diz Fernando Sampaio, diretor de macroeconomia da LCA Consultores. “O governo é extraordinariamente impopular.”

Para Sampaio, os potenciais candidatos alinhados à agenda econômica de Michel Temer – entre eles o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e os tucanos João Doria e Geraldo Alckmin – terão o desafio de convencer o eleitor de que estão ligados apenas à “parte boa” de um governo enrolado em denúncias de corrupção.

Um relatório que a LCA enviou neste mês a seus clientes afirma que, “adubadas” pela recuperação da economia e ajudadas pela máquina pública, essas candidaturas “podem vicejar, desde que mantenham Temer convenientemente escondido em suas campanhas”.

A questão é que o problema dos “governistas” vai além da figura de Temer. Parte da repulsa ao presidente tem a ver com as reformas que ele propôs, como a trabalhista e a da Previdência, que têm as digitais de Meirelles e foram abertamente apoiadas pelo PSDB. Ainda que possam ter impactos positivos sobre a economia, elas são um fracasso de público. Segundo levantamento feito em fevereiro pelo instituto Paraná Pesquisas, 73% dos brasileiros são contrários às mudanças na aposentadoria.

Apesar dessa rejeição, muitos investidores e analistas do mercado financeiro compartilham a avaliação de que a crise brutal nas contas públicas – que provocou cortes em investimentos, programas sociais e serviços públicos, além de aumentos de impostos – fará o eleitor evitar candidatos populistas e preferir propostas comprometidas com o ajuste fiscal e as reformas.

“À medida que a atividade econômica melhora, o desemprego cai e a inflação fica controlada, um candidato que proponha a continuidade da agenda de reformas econômicas vai ganhando mais espaço”, aponta Thiago Xavier, analista da Tendências Consultoria.

Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), acredita que, nesse cenário, a “plataforma” será mais importante que a figura do candidato: “O personalismo tem seu poder de sedução, mas acho que desta vez não será suficiente. O discurso terá de ser transparente, confiável”.

Fora do governo e do mercado, no entanto, avaliações como essas não têm a mesma ressonância. “Por mais que os economistas liberais estejam contentes, ainda existem milhões de desempregados, num país que chegou a ter pleno emprego no governo do PT. À exceção dos financistas e dos cronistas de mercado, toda essa frente econômica das reformas é muito impopular”, diz o cientista político Adriano Codato, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Um candidato como João Doria pode até contar com algum capital pessoal e citar essa agenda econômica, mas ela não poderá aparecer demais. Ele pode falar em tornar o Estado mais eficiente, mas sem dizer que pretende cortar metade do funcionalismo”, avalia Codato.

Os “situacionistas” também serão testados numa guerra de números e versões que vem desde o impeachment de Dilma Rousseff. Eles vão sustentar que o descontrole das contas públicas e a recessão começaram em 2014, com Dilma, e que não havia como corrigir os rumos sem algum sacrifício. Na trincheira oposta, o PT vai destacar que foi no governo Temer que o PIB atingiu o fundo do poço, o desemprego chegou ao ápice e as finanças do governo registraram déficits recordes. Não se sabe com que lado o eleitor concorda mais.

Melhora lenta

Várias instituições estão revisando para cima as previsões para a atividade econômica. Na média, bancos e consultorias projetam que o PIB crescerá 0,73% neste ano e 2,5% em 2018, mas algumas casas já esperam algo próximo de 3% no ano que vem. Ou até 4%, caso do Banco Fibra, o mais otimista.

Mas não é o PIB que sensibiliza o eleitor, e sim o comportamento do mercado de trabalho, que reage com alguma defasagem às variações da atividade econômica. No primeiro trimestre, em seu pior momento, o desemprego afetava 13,7% da população economicamente ativa. Passou a cair em seguida e, na última medição do IBGE, referente ao trimestre encerrado em agosto, a taxa estava em 12,6%. Três consultorias ouvidas pela Gazeta do Povo apostam que a desocupação continuará em queda em 2018, à exceção do início do ano, quando costuma subir.

A Tendências prevê uma taxa “pouco abaixo de 12%” no fim deste ano e “pouco acima de 11%” em dezembro de 2018. A LCA projeta 11,9% e 11,6%, respectivamente. A Rosenberg também espera 11,9% em dezembro de 2017, mas vê uma queda mais significativa na sequência, com o índice chegando a 10,3% no fim do ano que vem.

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As projeções sugerem que alguns milhões de brasileiros vão conseguir um emprego até o dia da eleição. Mesmo assim, provavelmente ainda restarão mais de 10 milhões de desocupados. E o desemprego continuará muito acima dos patamares do último pleito. No último trimestre de 2014, quando Dilma Rousseff foi reeleita, a taxa era de 6,5%, a menor da história.

“A recuperação tende a ser lenta, gradual, e o eleitor vai perceber essa melhora na economia de forma muito diluída no tempo. Por isso, a decisão dele pode ser transferida para outros aspectos. Por exemplo, quem ele considera melhor do ponto de vista ético”, diz Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, empresa especializada em análise política e relações públicas.

Para Adriano Codato, da UFPR, a questão ideológica poderá ser o fator decisivo em 2018. “Em toda eleição os candidatos buscam o eleitor médio. Um sujeito que não é politizado, tem baixo nível de informação e vota com a barriga, de acordo com a satisfação ou não de suas necessidades materiais. Mas a polarização no país é tamanha que mesmo esse eleitor médio pode ser contaminado pelo clima de conflagração ideológica”, diz.

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