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Como confiar nas pesquisas eleitorais e por que elas são importantes

Gazeta do Povo elaborou manual com tudo o que você precisa saber sobre as sondagens de intenção de voto. Elas costumam despertar amor e ódio entre candidatos e eleitores

  • Fernando Martins
  • Atualizado em às
 | Daniel Castellano/Arquivo Gazeta do Povo
Daniel Castellano/Arquivo Gazeta do Povo
 
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Vilãs das eleições? Ou instrumento útil para o cidadão tomar sua decisão de voto? Pesquisas eleitorais costumam despertar paixões, sobretudo de candidatos e de seus partidários. Quem está à frente na corrida eleitoral comemora. Mas elas costumam ser desacreditadas pelos concorrentes que se saem mal nas sondagens e que, no dia da eleição, têm mais votos do que indicavam os últimos levantamentos. Para eles, as pesquisas manipulam o eleitor. Mas, enfim, é possível confiar nos levantamentos eleitorais?

A Gazeta do Povo elaborou um manual de tudo o que o eleitor precisa saber sobre as pesquisas eleitorais.

Posso confiar nas pesquisas eleitorais?

Sim, desde que a pesquisa tenha sido registrada na Justiça Eleitoral. E que o cidadão saiba como elas são feitas e as suas limitações – o que fica bem claro para quem compreende e verifica a metodologia das pesquisas, cuja divulgação é obrigatória por lei.

Um ponto essencial é compreender que pesquisas são retratos do momento. E que, numa campanha, o eleitor pode mudar de opinião com rapidez. Especialistas costumam dizer que o mais importante é ver o resultado de uma sondagem eleitoral como uma tendência – e não como um número definitivo.

O fato é que levantamentos de opinião pública obedecem a uma metodologia científica que vem sendo usada para prever resultados eleitorais, com sucesso, desde a década de 1930, nas principais democracias ocidentais. Se uma pesquisa for bem formulada e conduzida, não há por que desconfiar delas.

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Isso fica evidente nas pesquisas de boca de urna, divulgadas momentos após o fechamento das urnas. Raramente um levantamento feito no dia da eleição erra – o que mostra que a metodologia funciona.

Os candidatos inclusive costumam fazer suas próprias pesquisas para definir os rumos de suas campanhas, muitas vezes contratando os mesmos institutos que têm pesquisas divulgadas pelos veículos de comunicação.

Além disso, no caso do Brasil, nos anos de eleição todas as pesquisas têm de ser registradas nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) ou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo menos cinco dias antes de sua divulgação. Isso permite que candidatos, partidos e o Ministério Público Eleitoral possam questionar sua metodologia e fiscalizar a realização do levantamento.

O juiz eleitoral inclusive tem o poder de impedir a divulgação de uma pesquisa que tenha problemas em sua metodologia ou em seu processo de coleta de dados – o que costuma ser feito com alguma frequência. Em princípio, portanto, um levantamento que foi divulgado não teve nenhum questionamento. Ou, se teve, a Justiça entendeu não haver nenhum problema.

As pesquisas erram?

Eventualmente podem errar. Esse questionamento costuma ocorrer quando o resultado eleitoral difere do resultado do último levantamento divulgado.

Primeiramente, é preciso saber se houve realmente um erro. Ou seja, se o resultado da eleição está dentro da margem de erro da pesquisa – informação que obrigatoriamente tem de constar da metodologia da pesquisa. Se os números estiverem dentro da margem, o levantamento tecnicamente não errou.

Mas eventualmente o resultado pode estar fora da margem de erro. Nesse caso, é preciso verificar quando a pesquisa foi feita. Levantamentos feitos alguns dias antes da votação muitas vezes não conseguem captar mudanças nas intenções de voto que, por vezes, ocorrem às vésperas da eleição – o que é comum de ocorrer. Portanto, é bom saber quando as entrevistas foram feitas – informação que tem de ser informada na metodologia. Quanto mais distante da data da eleição, maior a chance de haver diferenças nos números.

Também é possível que a pesquisa realmente esteja errada, mesmo que eventualmente tenha sido realizada no dia da eleição. Essa possibilidade – ou seja, de que os resultados estejam fora da margem de erro – é pequena, mas existe.

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É possível saber qual é a chance de a pesquisa estar errada olhando o grau de confiança da pesquisa, que consta da metodologia. Normalmente, o grau de confiança é de 95% – o que significa que, se aquela sondagem for feita 100 vezes, em 95 os resultados estarão dentro da margem de erro. Ou seja, normalmente o risco de erro das pesquisas no Brasil é de 5%.

Se as pesquisas podem errar, por que não são proibidas?

Um grau de confiança de 95% é elevado. Proibi-las devido a um risco de 5% não faria sentido. E a divulgação de pesquisas contribui para que o eleitor tome sua decisão de voto de forma mais consciente. O cidadão pode, por exemplo, optar por mudar de voto para evitar que um candidato que ele rejeita profundamente chegue ao segundo turno. De certa maneira, uma eleição sem pesquisas seria uma eleição às cegas.

Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, num julgamento de 2006, que proibir pesquisas é inconstitucional porque fere o direito de acesso à informação.

Por que devo confiar em pesquisas eleitorais se eu mesmo nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido?

A possibilidade de alguém ser entrevistado para uma pesquisa, de fato, é baixíssima. O Brasil tem quase 150 milhões de eleitores. E uma pesquisa de abrangência nacional pode ter apenas 400 entrevistados. Ainda assim, a metodologia das pesquisas assegura que os poucos que foram ouvidos representam todo o eleitorado com elevado grau de precisão.

Isso ocorre porque os institutos de pesquisa fazem a chamada estratificação da amostra de eleitores. Ou seja, selecionam um grupo de pessoas que representa o eleitorado por sexo, faixa etária, escolaridade, renda e região em que mora. A montagem da amostra da pesquisa é feita com dados oficiais do IBGE e do TSE.

Os resultados da pesquisa representam o eleitorado porque existe uma relação estatisticamente comprovada entre determinado estrato social com as intenções de voto desse segmento social.

Qual é uma margem de erro aceitável numa pesquisa? Por que a margem de erro varia dependendo do levantamento?

As margens de erro nas pesquisas eleitorais do Brasil são de no máximo 4% ou 5%, diz Murilo Hidalgo, diretor do Instituto Paraná Pesquisas. Uma margem de erro de 5% para mais ou para menos pode, no limite, dar 10 pontos de diferença entre dois candidatos que na realidade estão empatados – o que é uma variação relativamente elevada. Por isso não é recomendável que as pesquisas tenham margem de erro maior que isso.

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Para reduzir a margem de erro, é preciso aumentar o número de entrevistados. Segundo Hidalgo, uma pesquisa com margem de erro de 5% exige que sejam entrevistadas 400 pessoas. Para obter 1,5%, são necessários 4.500 eleitores.

Uma sondagem eleitoral mais precisa, contudo, é mais cara. Quanto mais eleitores são entrevistados, há mais custos para elaborá-la. É preciso, por exemplo, uma quantidade maior de entrevistadores contratados. No fim, quem define a margem de erro é a empresa que contrata a pesquisa do instituto de opinião. É ela que diz quanto aceita pagar.

Além das intenções de voto, que outros resultados de uma pesquisa são importantes para o eleitor prestar atenção?

Nem todas as pesquisas apresentam a rejeição aos candidatos – porcentual de eleitores que diz não votar em alguém de jeito nenhum. Mas esse indicador é muito importante, sobretudo na etapa anterior ao início da campanha eleitoral. Funciona como um termômetro do potencial de crescimento de um candidato.

Quanto menos rejeitado um concorrente é, mais possibilidades de crescimento ele tem – mesmo que apareça com índices baixos de intenção de voto. Isso ocorre porque ele eventualmente pode ser desconhecido do eleitor – o que muda quando a campanha eleitoral efetivamente começa. Há casos de candidatos pouco conhecidos que, no início da propaganda eleitoral do rádio e da televisão, tinham cerca de 5% das intenções de voto, mas à medida que a campanha avançou acabaram vencendo a disputa no primeiro turno.

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Por outro lado, concorrentes mais conhecidos e que já tiveram cargo eletivo têm o chamado recall. Ou seja, são lembrados pelos eleitores. Assim, eles tendem a estar mais bem posicionados que os candidatos menos conhecidos. Mas podem ter uma rejeição alta que dificulta seu crescimento.

Durante a reta final da campanha, é bom ficar de olho nas curvas de crescimento ou de queda das intenções de voto de cada candidato. As curvas indicam tendências. Não raramente, no dia da eleição candidatos em queda são ultrapassados por concorrentes em alta – mesmo que a última pesquisa divulgada não tenha mostrado essa situação.

Qual é a diferença entre pesquisa espontânea e pesquisa estimulada?

Na pesquisa espontânea, não são apresentados nomes dos candidatos e o entrevistado fala o que lhe vem à cabeça quando é questionado em quem pretende votar. O levantamento espontâneo mede principalmente a lembrança que o eleitor tem de um político e o grau de interesse nas eleições. Essa pergunta costuma ser feita nos períodos pré-campanha.

As intenções de voto na pesquisa espontânea são menores do que na pesquisa estimulada – quando são apresentados, ao entrevistado, opções de candidatos. Na pré-campanha, a estimulada avalia o potencial de cada possível concorrente. Durante o período eleitoral, revela como está a corrida eleitoral.

Por que é importante saber o período em que a pesquisa foi feita?

Quanto mais longo for o período em que as entrevistas são feitas, maior é a probabilidade de que o resultado final não capte uma eventual mudança de opinião do eleitorado produzida por algum fato novo que tenha ocorrido nesse período.

Diretor do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo diz que isso é especialmente relevante na reta final da campanha. Uma sondagem que começou a ser feita antes do último debate eleitoral na tevê, por exemplo, pode não mensurar uma alteração nas intenções de voto que venha a ocorrer depois do programa televisivo.

Há pesquisas que são feitas num único dia. Obviamente, elas são mais caras por exigir uma equipe maior para elaborá-la. Outras podem durar até seis dias.

O período de entrevistas é uma informação que, por lei, tem de constar da metodologia da pesquisa. Portanto, é um dado que tem de estar acessível para o eleitor.

Como posso saber se uma pesquisa não é falsa?

A imprensa tradicional costuma divulgar apenas pesquisas de institutos de opinião com reputação conhecida e que, nos anos eleitorais, são registradas na Justiça Eleitoral. Ou seja, essas sondagens são verdadeiras. Até mesmo porque, se divulgarem levantamentos falsos ou que não foram registrados, podem ter de pagar multa de até R$ 100 mil. Portanto, uma primeira dica é procurar se informar por meio de um veículo de comunicação de sua confiança.

O eleitor também pode verificar pessoalmente se a pesquisa está registrada. No caso dos levantamentos de abrangência nacional, isso pode ser feito diretamente no site do TSE. Já as pesquisas estaduais ou municipais estão registradas nas páginas dos TREs. Na Justiça Eleitoral, contudo, só há informações sobre a metodologia da pesquisa; não os resultados.

A ordem das perguntas de uma pesquisa pode influenciar as respostas do entrevistado?

Sim. É desaconselhável, por exemplo, incluir perguntas de avaliação de um governo antes das questões sobre intenção de voto. Haveria uma tendência maior de o entrevistado escolher o candidato à reeleição ou aquele que o governante apoia logo após responder positivamente à pergunta sobre avaliação de governo – e vice-versa. Isso pode ocorrer porque o eleitor é estimulado a pensar sobre o governo, naturalmente associando-o ao seu candidato.

O caderno de perguntas das pesquisas está disponível nos sites do TSE ou dos TREs.

Posso confiar em enquetes? E no que elas diferem das pesquisas?

Não é possível confiar em enquetes eleitorais (feitas, por exemplo, por sites apenas com as pessoas que acessam essas páginas). Isso porque elas não são realizadas usando uma metodologia científica, ao contrário do que ocorre com as pesquisas.

Além disso, a divulgação de enquetes eleitorais são proibidas pela lei – justamente porque podem parecer uma pesquisa.

Há tipos diferentes de pesquisas eleitorais? Elas dão resultados diferentes?

Sim, há diferentes tipos de pesquisas eleitorais. Basicamente, elas diferem no modo como são coletadas as informações. Mas, desde que a amostra represente o eleitorado e os cenários eleitorais sejam rigorosamente iguais, elas teoricamente vão dar os mesmos resultados, dentro das margens de erro. Apesar disso, há discussões se as diferentes formas de coletar os dados podem provocar resultados diferentes.

Atualmente, há quatro formas de se fazer pesquisas: por entrevistas pessoais (a tradicional), por entrevistas feitas por telefone, por telemensagem gravada (uma gravação pede para o eleitor responder às perguntas apertando os números do teclado) e pela internet (por e-mail, SMS ou WhatsApp).

No Brasil, ainda não há pesquisas eleitorais pela internet.

Defensores das pesquisas tradicionais, feitas pela abordagem pessoal nas ruas, argumentam que elas evitam que haja indução do eleitor a escolher determinado candidato. Isso porque o entrevistado recebe um cartão circular com o nome dos concorrentes, em que nenhum dele aparece primeiro numa lista – o que poderia “favorecer” um concorrente.

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Nas duas modalidades de pesquisa telefônica inevitavelmente será preciso ordenar o nome dos candidatos – normalmente por ordem alfabética. Há quem diga que isso pode induzir o eleitor a escolher os primeiros nomes.

A taxa de recusa ou de desistência dos entrevistados também tenderia a ser maior nos levantamentos telefônicos. Outro problema estaria na representatividade da amostra, que não contemplaria a parcela do eleitorado que não tem telefone – que, porém, é cada vez menor.

Os defensores das pesquisas telefônicas apontam as vantagens delas em relação às presenciais. Uma seria a possibilidade de medir a opinião de moradores de lugares cujo acesso costuma ser difícil para os pesquisadores (áreas perigosas de favelas, condomínios de luxo ou localidades mais distantes). Além disso, as sondagens por telefone são muito mais baratas do que as presenciais.

O fato é que pesquisas telefônicas são feitas com sucesso nas principais democracias.

Qual é a lei que estabelece as regras de elaboração de uma pesquisa?

É a Lei das Eleições (Lei n.º 9.504, de 30 de setembro de 1997). A Resolução do TSE n.º 23.549 também normatiza a realização das sondagens eleitorais.

Quanto custa uma pesquisa eleitoral?

Há pesquisas nacionais registradas no TSE com valores que variam de R$ 30 mil a quase R$ 400 mil. Muitos fatores explicam essa variação. Levantamentos feitos com entrevistadores em campo são mais caras que as realizados por telefone, por exemplo.

Há sondagens que são mais caras porque têm uma abrangência maior: informam resultados por região, simulam segundo turno, mensuram a rejeição dos candidatos, a popularidade dos governantes. Uma margem de erro menor também encarece a pesquisa por exigir mais entrevistas – e uma equipe maior de pessoas para realizá-la. Cada instituto também têm seus próprios custos.

Como é o passo a passo de uma pesquisa eleitoral?

O primeiro passo é, naturalmente, a contratação do instituto de pesquisa para fazer um levantamento eleitoral. Logo na sequência, explica o diretor do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, há uma discussão do instituto com a empresa contratante de quais pré-candidatos e cenários serão avaliados (se já houver registro oficial de candidatos, obrigatoriamente todos eles terão de constar da pesquisa). Nessa fase também é definida a abrangência do levantamento (com ou sem segundo turno, com ou sem rejeição, com ou sem simulação de segundo turno). E se serão incluídos outros questionamentos, como popularidade de governantes. Quanto maior a abrangência da pesquisa, mais cara ela será.

Outra definição prévia é a do contexto da pesquisa: saber se os resultados eleitorais serão apenas por país, estado ou município. Ou optar por divulgar resultados por regiões do Brasil ou do estado. Quanto mais refinados forem os dados, maior terá de ser a amostra.

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Segundo Hidalgo, feitas essas definições, parte-se para a estratificação da amostra. Ou seja, definir a proporção entre entrevistados do sexo masculino e feminino, por faixa etária, escolaridade, renda, por localização geográfica. Para isso, são usados dados oficiais do IBGE e do TSE.

Após isso, as entrevistas começam a ser feitos. Normalmente, pelo menos 20% das entrevistas são auditadas. Isso pode ser feito durante a fase de coleta dos dados, quando um supervisor do instituto acompanha parte das entrevistas para assegurar que o preenchimento dos dados está sendo feito corretamente.

A checagem também pode ser feita numa fase posterior às entrevistas. Um funcionário do instituto liga para as pessoas entrevistadas para verificar se os dados do questionário batem com o que a pessoa fala. Se não baterem, todas as entrevistas feitas por aquele entrevistador são descartadas.

Eventualmente, durante a fase de entrevistas é possível que os entrevistadores não consigam entrevistar o número de eleitores necessário para completar as proporções definidas. Hidalgo diz que isso é possível de ser remediado mediante a ponderação dos dados. Ou seja, os resultados de um estrato social com menos entrevistados ganham um peso maior até preencher a proporção que ele tem de ter na amostra.

Finalmente, a última fase é a compilação dos dados levantados. É uma etapa automatizada. As informações são inseridos num programa de computador, que calcula os resultados finais da pesquisa.

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