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Eleições 2018

Em debates mornos, intérpretes de Libras se destacam com “atuação profissional”

Responsáveis por levar informação ao público com deficiência auditiva chamam a atenção pela habilidade e performances dramáticas usadas para refletirem à perfeição o contexto do discurso

  • Angieli Maros
Eduardo Alves, intérprete de Libras, começou a trabalhar com debates políticos em 2016. | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Eduardo Alves, intérprete de Libras, começou a trabalhar com debates políticos em 2016. Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
 
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Os debates televisivos já começaram, mas, na opinião de muitos eleitores, os grandes vencedores destas transmissões até agora não foram os políticos mais bem preparados. Quem vem chamando mesmo a atenção dos telespectadores – muitos dos quais frustrados com as discussões de pouca perspectiva – são os intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras), com habilidades e “performances” dramáticas que quebram os momentos de marasmo entre os candidatos.

E no Paraná não tem sido diferente. Em um arranjo morno e sem grandes descompassos, o primeiro debate entre seis dos dez concorrentes ao governo do estado, transmitido na quinta-feira passada (16) pela TV Band, terminou com muitos dos holofotes voltados para Eduardo Alves e Jonatas Medeiros, que não disputam nenhum cargo. Foram eles, com o apoio de outros dois membros da equipe, Rafaela Hobel e Marcelo Luiz, os responsáveis por fazer os discursos chegarem ao público com deficiência auditiva. E mesmo sem ápices narrativos muito intensos, deram mais do que conta do recado.

“Por mais que pareça curioso, nós estamos ali atuando. Só que quando a gente fala em atuar não é no sentido teatral, mas profissional. Fazemos o que fazemos para passar informação”, explica Alves, que há dez anos atua como intérprete de Libras.

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Servidor público, Alves trabalha com Língua Brasileira de Sinais no Instituto Federal de Educação do Paraná (IFPR), mas já trabalhou interpretando consultas médicas, aulas de anatomia e até eventos religiosos – muito do que continua a fazer até hoje, já que, pouco valorizada no país, a profissão ainda não dá margem para especializações. Como tradutor de debate, teve sua primeira experiência em 2016, no encontro entre os candidatos à prefeitura de Curitiba na mesma Band. Gostou, repetiu, e não pretende recusar convites próximos, se vierem.

Profissionalismo

Transformar milho em frango e depois em nuggets; “confundir” o nome do candidato concorrente; se perder no meio de uma frase e não conseguir mais retomar o ritmo. Quem acompanha as falas dos candidatos do sofá de casa não se deixa intimidar pela seriedade do debate e questiona o sentido de tudo aquilo. Contudo, os intérpretes não podem se permitir a tal luxo.

“Ali você está em um ambiente profissional, acima de tudo, e por isso consegue levar a sério. Às vezes o candidato faz uma piada assumida, mas nós estamos ali para passar essa informação, e não interagir de forma alheia ao processo. Realmente não temos tempo de achar feio, chato, engraçado, mas podemos fazer com que o nosso público perceba o contexto em que tudo é dito”, explica.

É por isso que o comportamento expansivo dos intérpretes, que muitas vezes é o que fisga os olhares dos telespectadores, não é um artifício para serem notados. Pelo contrário. Tais expressões fazem parte dos parâmetros que precisam ser seguidos para garantir o repasse do conteúdo da maneira mais fiel possível àqueles que têm dificuldades em ouvir. “A expressão corporal e facial, que chama muito a atenção, é um dos parâmetros da Língua de Sinais. Vem muito da sensibilidade do intérprete, claro, mas ajuda a passar a informação dentro do contexto dela. Dependendo da expressão facial e corporal, e da própria sinalização também, conseguimos transmitir malícia, ironia, seriedade”.

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E o trabalho de toda a equipe envolvida na tradução começa muito antes de a janela do intérprete – como é chamado o espaço lateral da televisão em que os profissionais aparecem – abrir. Para chegar até ali, é necessário um estudo prévio que envolve contato com o programa de governo dos candidatos e uma adaptação ao vocabulário e à forma de falar de cada um deles. “A língua de sinais ainda não abraçou tudo, então, às vezes, é preciso pensar antes como vai passar as informações”, diz Alves.

Isso diz respeito, por exemplo, ao sinal de interpretação do nome dos candidatos. Via de regras, ele é determinado a partir de características físicas ou comportamentais dos políticos. A de Ratinho Jr. (PSD), por exemplo, tem ligação com o pai dele, o apresentador de tevê Ratinho, enquanto o de Cida Borghetti (PP) é relacionado ao sorriso; João Arruda (MDB) tem a ver com a cor dos olhos, e Dr. Rosinha (PT), com a barba.

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Marcelo Luiz, Rafaela Hobel, Jonatas Medeiros e Eduardo Alves: equipe de Libras no 1º debate entre candidatos ao governo do PR.Eduardo Alves

Percalços

Desde 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência obriga o uso da Libras, entre outras linguagens necessárias a deficientes físicos, em pronunciamento oficiais, propaganda eleitoral obrigatória e debates transmitidos pelas emissoras de televisão.

A profissão essencial para esse trabalho foi regulamentada por lei (12.319 de 2010) , o que não significa que o caminho para estes profissionais tem sido fácil. Segundo Alves, com a difusão do ensino da Libras em nível universitário, muitos licenciados atuam com formação acima do exigido pela lei, mas com remuneração não compatível. “Com salários baixos, muita gente deixa de ser intérprete e vai dar aula em universidades”, observa.

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Recentemente, a situação foi observada aqui mesmo no estado. Dois meses após o início do ano letivo, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) admitiu não ter condições para atender todos os alunos com deficiência porque não havia tradutores e intérpretes suficientes para auxiliar os estudantes com dificuldade auditiva severa. Mais do que isso, até mesmo três professoras surdas que ministram as disciplinas de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Educação Inclusiva chegaram a ficar sem esse acompanhamento.

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